A partir daquela noite, Alexis tornou-se presença constante em nosso ninho. Por uma quinzena, todas as noites visitava-nos para tagarelar acerca do quão magnífica era a sua vida e como “Alexia” deveria voltar com ele. Natalie apenas sorria e balançava a cabeça, antes de declinar educadamente. Eva não falava nada, e eu… bem, eu quase não prestava atenção, tamanha a dor que aquele delicioso séquito me infligia. Olhá-las era uma tortura, pois eu sabia que seria desrespeitoso para com o seu dono tocá-las, e o sabor do sangue de qualquer outra mulher de repente parecia insuficiente para suprir as minhas necessidades. O desespero, a dor, a angústia e a vontade de viver de minhas vítimas não mais lhes temperava o sangue, como exóticas especiarias, mas deixava-o amargo e nauseabundo. E talvez por isso eu tenha começado a definhar.

Naturalmente, Natalie e Eva se preocupavam preocupavam comigo. Percebiam a causa do meu tormento, mas argumentavam que Alexis era demasiado orgulhoso para ceder uma de suas fieis em meu favor. Ele certamente não estaria interessado no meu bem estar. E era estranho para elas, e também para mim, o fascínio que meras humanas podiam exercer sobre um Vox Regius. Deveria ser ao contrário, no entanto, lá estava eu, contorcendo-me agarrado ao estômago, mastigando a própria língua e apertando os dentes de maneira tão intensa que pareciam a ponto de se partirem em minha boca. Naquela época não percebi, mas hoje percebo que fui apenas um joguete nas mãos daquele imortal. Eu estava à mercê dele, não delas. Os olhares de soslaio que o ruivo me dava, os pequenos sorrisos fáceis, as conversas insignificantes, na verdade não passavam de uma bela máscara para suas verdadeiras intenções.

Sua vontade se manifestava quando eu fechava os meus olhos para dormir, durante o dia. Eu não percebia, mas de alguma forma os seus sussurros penetravam meus ouvidos, instalavam-se na minha cabeça e de lá não saíam, fizesse o que fizesse. Jamais seria capaz de adivinhar que ele poderia me manipular tão livremente. O que ele queria, eu sentia. Fome, luxúria e dores excruciantes. Quando o sol se punha, tais sensações eram tão intensas que tudo o que eu via era vermelho, como o mundo ao meu redor estivesse banhado no sangue do delicioso repasto do criador da minha mestra. E eu estremecia, rolava para o lado e chorava em desespero. Pois já fazia duas semanas que eu não me alimentava apropriadamente, e sabia que logo ele chegaria com os meus objetos de desejo… e elas desfilariam bem na minha frente, soltando risinhos e me olhando com aqueles olhos maliciosos. Chamando-me, desafiando-me. “Venha, querido. Deleite-se. Brinque conosco. Possua-nos.”

Em algumas noites eu saia tão logo a noite chegava, e voltava para casa apenas quando o sol estava prestes a despontar. Nestas noites, sonhava com elas. Sonhava que as possuía, que as rasgava com as minhas mãos e presas. Que me banhava em seu sangue quente e que meu coração morto subitamente batia tão forte que parecia prestes a explodir. Sentia o sangue delas correr pelas minhas veias, aquecendo-me como o sol costumava fazer antigamente. E por mais que eu tentasse despertar, não conseguia. Não conseguia me mover, como se meus pulsos, tornozelos e pescoço estivessem acorrentados por grilhões invisíveis. O que era bom, porque hoje percebo que não sei se teria autocontrole suficiente para não me atirar ao sol, tamanho o meu desespero naqueles dias.

Finalmente, após uma virada de lua, o vampiro chegou sozinho anunciando que seria a sua última noite conosco. Que tinha que voltar para Praga, para resolver alguns assuntos urgentes. Se eu ainda respirasse, certamente ele seria brindado com um suspiro de alívio. Nesta noite em particular, ele não tentou dissuadir Natalie, mas virou-se para mim e me encarou longamente. Eu sustentei o seu olhar por minutos, parado na soleira da porta com as mãos na maçaneta, prestes a sair para caçar. A fome estava me matando.

– Você parece abatido, Adrian. Todas as noites, parece-me despertar com uma expressão mais atormentada do que na noite anterior. Tem dormido bem? – E sorriu. Um esgar maldoso, que de alguma forma não se estendia aos seus olhos frios.

– Eu… bem… Para falar a verdade, não. Não sei bem por que, mas meu sono tem sido extremamente conturbado nos últimos dias. – Admiti.

– Tem certeza que não sabe o motivo? – O tom dele era quase paternal. Ele curvou um pouco as costas, para que os olhos ficassem na altura dos meus. Pousou a mão direita no meu ombro e ergueu as sobrancelhas, como um adulto impelindo uma criança a falar. – Eu acho que pelo menos uma ideia do que lhe aflige, você tem, não tem?

– Hmm… Há algo que desejo, mas que não posso ter. – Percebi, de relance, a expressão apreensiva de Natalie por cima do ombro de seu criador.

– Não pode, ou não quer?

– Não posso. – Disse, sem certeza.

– Porque não pode?

– Não me pertence. Seria… errado e desonroso.

– Ora, meu querido Adrian, você é um vampiro. É um Vox Regius. O mundo é a sua corte, você é o Rei. Brinque com ela. Tudo é permitido. Não precisa se acanhar, tudo o que você precisa fazer é ordenar, e será seu. Sei que Natalie já o elucidou a respeito de valores humanos, como certo e errado, honra e desonra, moral e amoral. Tudo isso não passa de idiotices, frágeis ilusões criadas para que os mortais tenham algo em que se agarrar durante as suas efêmeras vidas. E para que precisaríamos de tais inverdades, se temos a eternidade pela frente?

Achei o discurso bastante clichê, mas, como todos os clichês, verdadeiro. Sorri. – Certo. – Disse, ainda determinado a simplesmente esperar que ele fosse embora e levasse consigo os seus luxuriantes pedaços de carne envoltos em rendas e seda. – Obrigado, senhor, vou me lembrar disso. – Com uma rápida reverencia, comecei a me despedir: – Desejo-lhe um bom regresso, e que não demore muito a nos visitar novamente. Agora que apaziguou o meu coração atormentado, se me permite, irei de encontro ao meu objeto de desejo. – Menti, e antes que pudesse me virar para sair pela porta às minhas costas, Alexis apertou um pouco mais os dedos no meu ombro e o seu sorriso se alargou. Suas próximas palavras foram ditas de maneira tão sussurradas que até hoje me pergunto se mesmo Natalie ou Eva, sendo vampiras, as teria ouvido:

– Na verdade, gostaria que viesse comigo. Para Praga. – Seus olhos faiscaram. – Você pode ser muito mais do que o ridículo pajem de uma alma penada. E tem alguém que eu realmente quero que você conheça. Uma mulher muito mais interessante do que Alexia. Pense nisso esta noite, durante esta promissora caçada.

– E eu fui. Não sei se por causa da mulher, das seguidoras dele, ou do próprio vampirão. Sei que fui. Até hoje me pergunto como teria sido a minha vida se não tivesse aceitado aquele convite. Acho que eu ainda estaria com Natalie e Eva, naquele maldito castelo, isolando-me de tudo e de todos. Quem sabe arranjaria algumas correntes para arrastar. – sorriu para si mesmo, ignorando completamente o interlocutor. – Não teria a teria conhecido. Não teria descoberto as minhas capacidades. Não seria um vampiro pleno, jamais um vampiro completo. Mas não tenho dúvidas de que ainda assim seria feliz. Naquela época, eu não precisava de muito. Elas duas me bastavam, no entanto, hoje, o mundo inteiro não é o suficiente. Ashtaroth moldou-me de uma forma completamente diferente do que eu esperava, fez de minha existência uma eterna busca daquilo que me tirou naquela noite… e eu o agradeço por isso.

Quando ergueu os olhos e encontrou os do mago, percebeu neles um brilho consternado. As linhas ao redor dos olhos de Hans pareciam mais profundas, vincadas. O vampiro endireitou-se na cadeira, pousando as mãos nas pernas e continuou encarando o outro por alguns segundos, tentando entender o que passava pela cabeça daquela criatura.

 – Algo errado? – Perguntou, por fim, quando se cansou de jogar adivinhas sozinho.

– Não, nada de errado. – Foi a resposta de Hans, também se empertigando. O tilintar dos grilhões preencheu a cela rapidamente, relembrando aos dois de que eram inquiridor e prisioneiro, não amigos de longa data. – Só me pergunto o motivo de estar me contando tudo isso. Afinal, você veio aqui para me interrogar, não foi? Não era eu quem deveria estar falando?

O vampiro riu, abanando a cabeça afirmativamente, antes de responder: – Nos últimos dias ando meio nostálgico. Depois que a gente começa a pensar em como as coisas começaram, é meio difícil parar até chegar ao final, você não acha?

Hans continuou calado, apenas aquiesceu levemente. “Todos têm os seus fantasmas”, pensou Adrian. “Eu tenho muitos”. Pensou em Mikhail, em Roxanne, Natalie e em Eva. Pensou em uma imensa montanha de mulheres drenadas e apodrecidas, outrora belas. Pensou em Ashtaroth, com aquele sorriso malicioso aparafusado nos lábios. Pensou em Sasha, em Alioth e em si mesmo. Seu maior fantasma, a sombra que consumia o seu coração e obsediava a sua existência era ele mesmo. E pensou no cetro, nas queimaduras, na dor, na solidão. Nas trevas, e na luz do sol que lhe fora eternamente negada.

– Então, esse Ashtaroth… – Começou Hans, os olhos subindo lentamente dos grilhões de seus pulsos até o rosto de Adrian. O vampiro sentiu-se grato pela intromissão, estava caminhando muito lentamente à beira de um perigoso precipício e precisava ser detido. Hans, inconscientemente, o fizera. – …foi o seu verdadeiro mestre, não Natalie.

Adrian olhou-o por alguns segundos, silencioso, antes de responder: – Natalie ensinou-me o que é ser um vampiro, e ele me ensinou a viver sendo um. Ela falava, e ele… bem, tinha uma abordagem mais prática. Ambos foram meus mentores, mas considerando que ela aprendera de Ashtaroth quase tudo o que me transmitiu, digamos que eu devo a ele tudo o que sou hoje. Embora duvide que ele tivesse me transformado, caso nos conhecêssemos enquanto eu fosse humano.

Hans franziu a testa.

– Depois que fui para Praga, fui introduzido a um novo estilo de vida. Conheci outros seres mágicos, comecei a praticar as coisas que Ashtaroth tinha me ensinado. Nunca toquei em seu repasto, porque a vontade desapareceu no mesmo dia em que eu decidi seguir viagem ao seu lado. Conheci muitos magos, também… – os olhos dele faiscaram, inclinando-se levemente para frente, buscando os de Hans. – …Talvez tenhamos alguns amigos em comum. Se você estiver disposto, podemos trocar algumas figurinhas. Talvez você conheça o meu mestre? Isso explicaria a expressão atordoada que você fez quando falei o nome dele…

– Não sei do que você está falando. – subitamente, o rosto do mago transformou-se em pedra. As linhas de seu rosto pareceram aprofundar-se, e os seus olhos ficaram vidrados, fixos nos de Adrian. O vampiro apertou os punhos, frustrado por não conseguir ler a sua expressão. – Não devemos ter conhecidos em comum, pois a época mágica que você me relatou aconteceu há mais de uma centena de anos, não foi? Eu acho que você concorda comigo que eu posso ser um pouco velho, mas não tanto. – O mago balançou os grilhões, e fez um muxoxo irritado. – Você poderia retirar essas correntes por alguns minutos?

– Não.

– Tudo bem.

– Você ainda não me explicou o motivo da carranca, quando falei de…

– Mas isso não é óbvio? – disparou o homem, com a voz gélida. – Eu sou um mago, você é um vampiro. Ele é um vampiro. Eu sou prisioneiro de uma vampira. Do nada, você apareceu e começou a me contar coisas da sua vida, coisas que eu não pedi para saber… e quer que eu fique como? Estou há quase nov… Estou há três dias e meio preso nesta cela, acorrentado, com fome e com frio. – Suspirou longamente. Tudo aquilo parecia estranho para Adrian. Franziu o cenho, analisando o homem. Podia não ser capaz de ler com clareza os seus pensamentos, mas sabia que o motivo de tanta rispidez não era só o que ele estava fazendo parecer.

– Nem todos os vampiros são maus. – disse, simplesmente.

– Eu sei que não… – Hans baixou os olhos para os grilhões novamente, em um gesto repleto de significado. Adrian sorriu. – Mas a maioria é.

– Conheceu muitos vampiros durante suas andanças pelo mundo, hein? – brincou, dando uma piscadela maliciosa para o mago inexpressivo.

– Alguns, nenhum que valha a pena mencionar…

– E você também não parece nem um pouco surpreso quanto dos nossos hábitos e costumes. A maioria das pessoas, e incluo aqui também os Magos, geralmente demonstram desagrado, ou pelo menos desconforto, quando tomam ciência deste tipo de coisa. Você é diferente. Parece quase… à vontade.

– Sou versado no oculto, meu caro atormentador, saber esse tipo de coisa é o mínimo para alguém com a minha experiência. Estes Magos que você mencionou, que se impressionam com tão pouco… – Hans curvou a cabeça para o lado, franzindo o rosto em uma expressão de descrença.

“Mentiras e mais mentiras…”

– Sabe… Eu sou um Vox, Senhor Ackart. – disse, adotando um tom mais austero, diferente do que utilizara desde que chegara na cela do humano.

– Eu sei.

– Como estudioso, você deve saber também de nossas… habilidades especiais, não sabe?

– Alguma coisa.

– Ah, pois eu acho que você sabe muito. Acho que você sabe tudo. Você sabe, inclusive, que eu sei que você está mentindo. – Adrian se levantou, deu a volta por trás da cadeira de Hans, pousando a mão em seu ombro. Pôde sentir o sangue fluindo por baixo da pele, quente e imbuído de magia. Repugnante. – Diga-me o que eu preciso saber. Eu realmente não quero machucá-lo, Hans. Quem sabe ao fim disto tudo podemos ter no outro um estimado amigo? Mas é você que vai definir se os nossos encontros serão interrogatórios, ou sessões de tortura.

– E o que você quer saber? – perguntou Hans, sem expressar emoção na voz.

– Porque não começa me contando como você soube da caixa?

>> continue a leitura no ARCO II 

>> veja mais sobre Hans e Adrian no conto  O PRISIONEIRO que será postado dia 15/04!