O relógio de cabeceira marcava quase 3 da manhã quando o vampiro abriu os olhos e esquadrinhou o quarto. A mulher não estava mais ao seu lado, embora o cheiro de seu sangue ainda preenchesse todo o aposento. Secara sobre os lençóis, empoçara no carpete e embaixo das unhas vítreas do imortal. Sorriu, aspirando-as, percebendo distintamente o cheiro também de outros fluídos corporais. Lampejos dos momentos que passaram juntos voltaram à sua mente, como brasas assopradas calmamente a fim de inflamarem em chamas. Quase podia ouvi-la gritar. Quase podia senti-la tremer entre os seus dedos, suplicar. Podia sentir o gosto salgado do seu suor e de suas lágrimas. Podia sentir a textura aveludada dos pelos púbicos, da pele com aquele odor tão característico das morenas. Era particularmente difícil encontrar descendentes de ciganas em Praga naqueles dias, especialmente donzela e que cheirasse tão bem.

Sequer precisou falar. Bastou um olhar e ela era sua. E agora se fora. Viva ou morta, não sabia. Ele tinha dormido profundamente por duas horas, e não percebeu quando seus criados vieram para fazer a  higienização. Era provável que ainda vivesse, ou sentiria também o odor adocicado da morte no perfume que ela deixara pelo quarto, mas não tinha certeza. Jamais teria, e não importava. Ela já não lhe servia, como uma flor não mais tem serventia após perder as suas pétalas.

Sentou-se na cama, nu, esfregou os olhos em um gesto demasiado humano, e jogou os cabelos vermelhos para trás. Os dedos encontraram fios compactos e endurecidos pelo sangue seco da donzela, e Ashtaroth soltou um muxoxo indignado. Levantou-se, estalou os dedos e no segundo seguinte dois vampiros apareceram na porta do quarto, como sombras convocadas da antessala.

– Banho. – as figuras silenciosas sumiram num piscar de olhos. O imortal caminhou até uma porta à esquerda até um suntuoso banheiro com um termas grego estendendo-se pelo chão.

A água quase borbulhava e vapores espiralavam preguiçosamente sobre a superfície transparente. Pequenas pétalas brancas flutuavam, embaladas pelas marolas geradas pelas inúmeras estátuas de mármore que despejavam o líquido na banheira. Tão logo pôs o pé no primeiro degrau, as pétalas mais próximas murcharam como se tocadas por uma língua de fogo invisível. E todas as outras à medida que ele avançava. A pele de Ashtaroth ficara bastante vermelha após poucos segundos imerso naquelas águas excessivamente quentes, e quando ele sentou-se em um dos bancos submersos na parte central do termas, sentiu o suave e delicado toque em suas costas, acariciando-lhe os músculos gélidos e rígidos.

– Quantas vezes eu já a proibi de colocar pétalas no meu banho?

– Nenhuma, meu General. – murmurou uma voz próxima ao ouvido. Imaginou que a moça devia estar cozinhando viva naquela água escaldante, mas o pensamento afogou-se tão logo emergiu. Ela devia agradecer-lhe, sentir-se honrada por estar ali. Sua dor não importava. Depois, um dos outros vampiros poderia alimentá-la com um pouco de sangue e as queimaduras sumiriam. Seu toque era extremamente cálido, o que o surpreendeu. Percebeu que não conhecia aquela e lembrou-se que a última estava morta. – Mas se o desagrada…

– Desagrada. Não o faça mais, minha querida. Matei a última que fez. – Olhou para uma ilhota negra de pétalas carbonizadas que se aglutinava em seu peito, e disse: – Elas morrem quando me aproximo, não podem respirar e espalhar a sua exuberância quando se deparam com um deus. Assim como os humanos, que murcham e encolhem quando eu os toco, se esta for a minha vontade. Mas o fato de eu ser responsável pela sua morte não significa que eu deva chafurdar em seus cadáveres. – a frase fora dita em um sussurro. Era bem verdade que as flores estavam fadadas àquele destino assim que foram arrancadas da terra, mas aquilo era irrelevante para ele.

– O cheiro continua bom, mesmo depois de murchas. – disse ela, lavando os cabelos do vampiro gentilmente. Pequenos veios de sangue diluído escorreram pelos seus ombros e costas, desembocando no imenso oceano escaldante logo abaixo. Fechou os olhos, sentindo as unhas da mulher roçar o couro cabeludo, e os lábios arquearam-se levemente para cima. – Elas morrem como sacrifício para o Senhor. Uma espécie de última reverência perante a sua magnitude. Qualquer ser vivo seria consumido pelas chamas ao se aproximarem muito do sol, mas a ideia não deixa de ser… deleitável.

– Como você se chama, querida? – perguntou, por fim, Ashtaroth. Aquela era uma excelente resposta, embora muito óbvia, e tinha que dar os devidos créditos para uma evasiva tão magistralmente executada.

– Ella. – disse ela, o sorriso perceptível na voz.

– Boa resposta, Ella.

– Obrigada, Amo.

– Mas da próxima vez que colocar alguma planta no meu banho, faço você beber toda essa água de uma vez. Você vai cozinhar por dentro mais rapidamente do que cozinha por fora neste momento.

– Sim, senhor. – o contentamento ainda estava presente em sua voz. Ashtaroth percebeu que eles podiam se dar muito bem.

– Peça para trazerem o meu telefone. Preciso tratar de um assunto com urgência.

Um minuto depois, um dos criados da mansão encontrava-se de pé ao seu lado. Lágrimas escorriam de seus olhos, mas a mão que segurava a bandeja prateada contendo o celular não vacilava por um momento sequer. Ashtaroth podia ver que ele estava a ponto de gritar, mas o homem sabia que se abrisse a boca seria para emitir o último som de sua vida. O imortal sustentou o seu olhar por alguns segundos, nos quais pôde ouvir seu coração retumbante e as vísceras se liquefazendo, antes de apanhar o telefone e dispensá-lo com um meio sorriso e um gesto displicente. – Saiam.

Apertou um número de dois dígitos na discagem rápida e após três toques, ouviu uma voz extremamente familiar do outro lado. Abriu um enorme e malicioso sorriso, antes de comentar: – Alguém está de bom humor, aposto que mandou ver esta noite. Atrapalho alguma coisa?

Silêncio.

– Bom, estou ligando para saber se você recebeu os meus dois presentes. – perguntou, desta vez esperando uma resposta. Silêncio mais uma vez. O vampiro revirou os olhos, curvou-se um pouco para frente como se estivesse encarando o interlocutor e continuou, a voz doce como mel envenenado. – Achei que iria gostar de revê-lo, quem sabe dividir o grande banquete que será o mago xereta.

– Você estava certo. – murmurou a voz do outro lado. O ruivo sorriu, os caninos pontiagudos visíveis entre o restante da arcada perfeita. – Obrigada.

– Oh, ela sabe agradecer! Que bom. E então, ele foi atrás da caixa como eu disse que iria?

– Sim. Eu o tenho preso agora.

– Cuidado para não machucá-lo demais, carne muito macia às vezes fica sem sabor. – Disse o imortal, o sorriso se alargando ainda mais. – Creio que seja prudente deixá-lo vivo por algumas semanas, algo me diz que a espera valerá a pena…

– Ele é um mago. É repasto com uma varinha de condão. Se vai ser interrogado civilizadamente, com uma pluma, ou torturado em uma donzela de ferro, pouco importa, desde que eu tenha as respostas que procuro… Mas não pretendo matá-lo tão rapidamente. Do que diabos ele está atrás, a propósito?

Ashtaroth riu por alguns segundos, antes de responder com a voz carregada de desdém: – Da Lança de Longinus. Acredita? Esses magos conseguem me surpreender a cada dia, tamanha a sua mediocridade. Não me surpreenderia se eles tivessem os cravos que supostamente prenderam Cristo na cruz. Ou…

– E por que ele acha que eu teria essa coisa aqui? – interrompeu a vampira do outro lado, rispidamente.

– Eu apenas lanço as sementes ao vento, minha cara Nyla, onde e como elas germinam não é problema meu. Basta que você saiba que alguém foi excepcionalmente bem pago para que o seu namoradinho tenha muito que fazer aí nas horas em que você deixá-lo sair da cama. Você sabe como ele é, não o deixe se entediar demais ou logo vai querer voar para longe.

– Ele já tinha pedido para ficar por alguns meses.

– Na sua cidade, não com você. Não na sua presença. Especialmente com aquela criança absolutamente tediosa e estragada que ele arranjou. – Nicole permaneceu calada. O outro fingiu um suspiro entediado, e continuou: – A minha única recomendação é que você não a machuque.

– Porque eu deveria seguir qualquer recomendação sua?

– Eu acabei de reunir você com o seu amado, a sua querida alma gêmea – como vocês, ridículos românticos, gostam de falar – e planejo trazer ainda muitas alegrias para a sua vida, minha querida. Lembre-se, nada do que eu fiz por você até hoje foi, em qualquer aspecto, nocivo. Muito pelo contrário, se não fosse por mim, você ainda seria aquela vampira trombadinha que andava por aí batendo carteira dos Vox durante o Indulto do Sangue.

– Não existem muitos Vox por aí hoje em dia.

– Então você deveria me agradecer por ter os cofres cheios, mesmo com essa economia lamentável. Ouvi dizer que as coisas não andam muito bem aí no Brasil.

Silêncio.

– Eu a coloquei nesta posição. O Imperador pode ter te dado a vida eterna, mas eu fiz de você esta mulher absolutamente implacável que é hoje. Você é uma força da natureza, uma fúria que ninguém se atreve a encarar, e tudo isso se deve à minha influência. Sobre você, sobre Adrian, sobre todos os outros vampiros que aprenderam a temê-la.

– Eu poderia arrancar a sua cabeça daqui mesmo, arremedo de Vox Regius! – a vampira sibilava perigosamente no telefone. – Pode se achar uma espécie de deus brincando com suas pequenas marionetes, mas eu não sou uma delas! Galguei os degraus para este trono com as minhas próprias forças, e você não teve nada a ver com isso! Você pode ser filho de um dos pacificadores, mas como muito bem apontou, eu fui criada pelo próprio Imperador!

– Que está desaparecido. Talvez morto. – pontuou ele, mantendo o timbre bem humorado. – Não precisa se exaltar, querida. Eu nunca disse que você é uma marionete, jamais conseguiria manipular o grande General de São Paulo. – o título fora dito com extremo desdém. As linhas do rosto de Ashtaroth contorceram-se por um segundo, antes do costumeiro sorriso viperino desenhar-se novamente em seus lábios. Estava sozinho, mas tinha a nítida impressão de que Nicole poderia, mesmo, emergir daquelas águas naquele momento. Olhou para a própria sombra, que dançava hipnoticamente no fundo do termas, embalada ao som das marolas. – Desculpe-me se a ofendi, cara amiga, não tive a intenção.

– Acho extremamente difícil acreditar nisso. Mas a sua recomendação será seguida e a cria de Adrian sairá de minha cidade ilesa no que depender de mim. – a mulher permaneceu em silêncio por um pequeno período, como que pesando as palavras que diria a seguir. O imortal podia quase ouvir os pensamentos dela, o eterno conflito entre a razão e o coração. Sabia que o que estava por vir tinha a ver com Adrian. Sempre tinha. – Em troca, gostaria de algumas informações acerca de Mikhail e o seu bando. Pelo que sei, ele é irmão do seu criador, estou certa?

O sorriso de Ashtaroth alargou-se ainda mais, ao ouvir o nome do General de Moscou. Era bom demais para ser verdade.

– Eu apenas pedi para você poupar a criança, Nicole. O que você me pede é muito mais… valioso do que a vida da garota.

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>> Foto por TJ Holowaychuk no Unsplash