“Toda vizinhança tem um boato peculiar. O vizinho de cima trai a esposa nas escadas com a adolescente do 3º andar. A senhorinha do 807 é viúva não apenas de um marido, mas de cinco e sabe-se lá quais foram as causas de morte de cada um deles, se é que você me entende… O bebê do 11º chora muito, todo dia, o tempo inteiro, não é estranho? Você já ouviu a mãe gritar durante a noite para ele calar a boca? Ora, já a ouvi gritar que não queria que ele nascesse!

Quando se é uma criança, esses boatos ganham uma outra dimensão. Sabe a senhorinha do 807? Ela interfonou reclamando que nosso cão fazia muito barulho e uma semana depois ele morreu. Bruxa. Acho que ela é uma bruxa!

Ainda me lembro do temor que sentia daqueles velhos carrancudos do edifício ou dos barulhos esquisitos que ouvia no corredor quando ia colocar o saco de lixo na lixeira do andar. Algum dos moleques jurou ter visto um fantasma pelo olho mágico e todos rimos, zoamos com a cara dele o chamando de mentiroso, mas nem preciso falar que depois disso o caminho da lixeira para a porta do apartamento passou a ser percorrido mais rápido. E sem olhar para atrás. Durante o dia relembrando o que eu ouvira, eu acreditava mesmo que não era nada, talvez fosse o elevador ou alguém brincando nas escadas, porém, à noite, bastava ouvir aqueles sons que eu me arrepiava, e eu corria, o coração batendo rápido até fechar a porta atrás de mim. Pareciam passos, é, pareciam passadas felinas, mas nunca avistei gato algum por ali. Não conhecia direito os vizinhos do meu andar na época para saber se eles tinham algum bicho sorrateiro que poderia passear por ali , não havia crianças naquele andar para trocar alguma ideia. Se de dia eu encontrava as justificativas lógicas, à noite, no escuro do quarto, nada conseguia me confortar e eu rolava na cama, o pensamento era dominado pelas possíveis criaturas que passeavam pelo meu corredor às minhas costas.

Naturalmente me tornei insone. Não interessava o quanto eu estudava ou brincava durante o dia, o cansaço não abatia a sensação de que algo muito esquisito estava assombrando meu andar. Quando entrei de férias, busquei ignorar essa sensação jogando videogame na madrugada, o objetivo de zerar o jogo aquietava minha mente imaginativa e eu conseguia capotar na cama sem temer a escuridão. Até que… Era mais uma dessas noites jogando na sala, desesperado para completar  uma fase antes que minha mãe acordasse para ir para o trabalho. Eu não conseguiria dormir sem terminar aquele maldito jogo! Eu havia passado a semana inteira tentando zerá-lo e sempre cometia algum erro estúpido que me atrasava. Já dava para ouvir o som dos ônibus voltando a circular nas ruas, podia perceber que a temperatura da sala não estava mais tão fria e muito menos tão escura. Faltava pouco para eu ser pego no flagra então desliguei o videogame e me preparava para pegar uma água na cozinha quando ouvi uma pancada forte na parede. O som foi alto o suficiente para parecer que o armário do vizinho havia despencado. Bum, bum. De novo, dessa vez mais fraco, contudo, veio acompanhado de um gemido, aquele som dolorido me assustou muito mais do que o baque. Coloquei o ouvido na parede. No silêncio da madruga, era possível ouvir as vozes abafadas dos vizinhos, mas sempre eram conversas, eram risadas, nada se comparava com a voz áspera que eu ouvia, muito menos com os gemidos de dor.

Corri até a porta e fui ao corredor. As lâmpadas do corredor piscavam violentamente, deixando-me mais na penumbra do que na luz durante o curto percurso até o apartamento ao lado. É, eu não pensei, porra, uma criança de 8 anos não pensa. Não faço ideia do que eu achava que estava acontecendo, só sei que eu fui vagarosamente até a porta do vizinho.  Estava entreaberta e alguém lá dentro murmurava alguma coisa, algumas palavras que eu nunca entendi. E os gemidos… Outra pessoa respondia àquelas palavras com terríveis sons de dor. Ele repetiu aquela sequência esquisita com uma voz severa mais de uma vez antes que eu tivesse coragem de me aproximar e tentar enxergar pela fresta iluminada o que estava acontecendo, foi quando o homem silenciou e eu ouvi outro baque. E passos duros contra o chão, alguém começou a correr e meu medo me fez recuar ao ouvir as passadas se aproximando.

A porta se abriu em um supetão e o Sol que iluminava o apartamento substituiu a penumbra do corredor. Eu tentei me afastar mais, porém tropecei em meus próprios pés e não consegui fazer mais nada além de observar a criatura que saiu do apartamento do vizinho. Ela era uma massa de sangue, pele escurecida e fios negros. Inegável que o odor de carne queimada vinha das enormes feridas que cobriam todo seu corpo.  Não é um demônio, não é um espírito, pensei,  é  simplesmente alguém muito, muito, ferido.  Uma mulher. A fina camisola azul denunciava seus contornos femininos e que provavelmente foi pega de surpresa em seu sono.

O modo como ela se mexia me fez cagar de medo mais do que sua carne dilacerada. As pernas se moviam como se estivesse acorrentada, cada passada vagarosa parecia exigir um esforço tremendo de seus músculos. Uma de suas mãos ainda se apoiava no arco da porta quando ela ergueu o rosto em minha direção. Entre as longas mechas que cobriam seu rosto ferido seus olhos acinzentados me encararam e eu subitamente senti minha respiração falhar. Uma ardência  percorreu minhas narinas, minha garganta e alcançou os pulmões alastrando-se por todo meu peito. Percebi que eu inspirava, porém o ar não me alimentava, a cada movimento de meu diafragma podia sentir que eu sufocava mais e mais. Ela emitiu um som gutural, abrindo a boca não para falar, mas para deixar o oxigênio entrar desesperadamente em seus próprios pulmões. Naquele momento percebi que era ela quem roubava meu ar. Eu podia ler em seus olhos perversos que ela roubaria minha vida, mesmo a quase um metro de distância ela conseguiria sugar todo o ar que precisasse. Repentinamente, senti suas unhas rasgando o meu pé, não vi quando, como, ela se aproximou tão rápido e agarrou minhas pernas.   Observei sua expressão feroz enquanto se inclinava vagarosamente sobre meu calcanhar murmurando algo. Sinto muito? Foi isso o que ela disse? Meu pavor foi substituído por ódio. Eu a odiei e odiava minha própria estupidez por ter acreditado que ela era uma mulher frágil precisando de ajuda. Quem a atacara deveria saber muito bem que tipo de coisa monstruosa  ela era e que deveria morrer.

Estremeci com a proximidade de seus lábios gélidos em meu calcanhar esquerdo. Não havia calor algum em seu hálito ou em seu toque. Inesperadamente suas mãos se afrouxaram e seu corpo tombou sobre o piso do corredor sendo puxado brutalmente para  o interior do apartamento rapidamente com alguma força invisível.

Respirei. Nem por dois minutos ela me manteve naquele feitiço sufocante, porém já fora o suficiente para que eu não conseguisse levantar do chão, tamanha fraqueza envolvendo meu torso. Enquanto a vertigem tomava conta do meu corpo, pude ouvir novamente aquela voz masculina do apartamento. Fora ele que a puxara de volta. Não vi mãos, não vi luta, mas sabia que, assim como ela havia me dominado a distância, ele também o fizera com aquelas palavras indecifráveis.

Ouvi o barulho do elevador e as lâmpadas voltaram a sua constância habitual. Quem chegara no pavimento percorreu o corredor hesitante até que pude vê-lo e o reconheci quando se ajoelhou ao meu lado. Era o vizinho, o gringo, o que sempre dizia Bom dia com um sotaque esquisito quando esbarrávamos com ele. Minha mãe o detestava, bem, detestava seu riso pelo menos. Era comum ela xingá-lo durante a novela quando ocasionalmente sua risada calorosa invadia nossa sala e emudecia as falas do drama televisivo. Eu gostava dele, gostava daquele olhar acalentador cada vez que nos cumprimentava. A expressão sombria que ele exibiu ao me observar no chão foi bem distante da que eu costumava ver. Murmurando algo como O que aconteceu? Você está bem? Consegue andar? enquanto colocava a mão nos meus pés feridos. Sabia o que seus olhos procuravam em minhas pernas: uma mordida. O gringo tocou o meu peito. O coração batia forte e minha respiração ainda era ofegante, mas era óbvio que eu ficaria bem. Acho que era óbvio para ele pelo menos, pois rapidamente me abandonou e foi até o apartamento.

Não esperei para ver o que aconteceria, com toda a força que me restava, virei de bruços e apoiei os cotovelos no chão frio. Levei meu corpo até minha casa como dava, arrastando as pernas, engatinhando, me apoiando na parede. Não escutava mais as palavras esquisitas e os gemidos do apartamento do gringo, apenas uma discussão entre vozes masculinas ecoava no corredor. Quando cheguei no batente da minha porta, ouvi uma batida e as vozes foram abafadas. Tive coragem de olhar novamente o corredor antes de fechar minha própria porta, as lâmpadas não mais piscavam, o odor do mofo já voltava a ser mais forte do que o cheiro de churrasco, mas as manchas escuras de sangue ainda continuavam lá, demarcando as pegadas da mulher.

Ouvi minha mãe me chamando. Não lembro nada do que ela gritou furiosa por me encontrar acordado. Tudo o que eu conseguia pensar era no que estava acontecendo na parede ao lado. Ou melhor, no que tinha acontecido. O QUE aquela mulher realmente era?”

Jonas levou a cerveja a sua boca seca. O gosto amargo o fez voltar ao seu presente. Ele não tinha mais aquele andar desajeitado, o corpo mirrado ou o olhar constantemente assustado. Apesar de não haver nenhuma penugem de barba em seu rosto, ele já não era mais uma criança, ou melhor, segundo a legislação brasileira, ele nem se quer era mais um adolescente. As mudanças hormonais que passara nos últimos anos transformaram seu cabelo, antes liso, em ondulado; as bochechas brancas ganharam algumas marcas disformes, resquícios de cada espinha que brotara em seu rosto; sua voz esganiçada virara a voz de um homem, grave e áspera. Orgulhava-se que era a mais grave do seu grupo de amigos, e adorava exibi-la contando como cantara alguma garota, ou dando uma boa e alta risada ao ouvir um dos companheiros no bar. Porém nos últimos minutos, nada do que ouvira o fizera rir. E não, muito menos ele falara algo da estranha experiência que vivenciara e ainda nitidamente aparecia em sua mente.

Respirou fundo. O boteco cheirava a gordura, cigarro e maresia. O vento bagunçava seu cabelo oleoso, mas ele não se deu ao trabalho de tirar as mechas castanhas dos olhos. Não queria disfarçar o quanto estava insatisfeito pelo tema da conversa que acontecia na sua roda de amigos. Começou com histórias nostálgicas da infância, depois alguém comentou que viu alguma luz esquisita no céu em uma noite de muita chuva e aí… Há pelo menos meia hora todos se dispuseram a contar uma história esquisita que alguém contou para o amigo do amigo do primo. Todos, exceto ele e Cássio.

O amigo exibia um sorriso curioso a cada suposição que surgia para explicar os fenômenos malucos narrados pelo grupo de amigos. Jonas conhecia aquela expressão calma, não interessava o quão receptivo seu rosto estava, quando Cássio ajeitava o óculos no topo do nariz seus olhos de desdém o traíam. Ele estava odiando cada segundo daquela conversa de bêbado, não porque tinha medo, não porque desdenhava de quem acreditava no sobrenatural, mas porque sentia que o assunto era sério demais para ser discutido assim entre risadas nervosas e gritos de zombaria. Qual mesmo era a religião que ele seguia? Rosa Cruz? Espiritismo? Candomblé? Jonas não lembrava mais, a única vez que perguntou sobre qual religião o fazia ir toda a semana a uma reunião de horas, ouviu uma resposta tão longa (e ríspida) que mal compreendera no que Cássio realmente acreditava. Fora um sermão sobre a diferença entre fé, religião e doutrina que caiu no esquecimento logo que o amigo se calou.

Os enormes olhos azuis de Cássio observaram-no. Era uma pergunta silenciosa se Jonas contaria sua própria história essa noite. A história que ele narrou para Cássio quando eles eram adolescentes. Ao contrário do que esperava, seu amigo não o zombou como as outras crianças do prédio o fizeram quando ele contou. Ficou calado por alguns minutos até que pediu para que o levasse ao corredor e manteve seu silêncio por um bom tempo enquanto analisava o piso que por muitos dias exibira um estranho tom rosado, resquício das manchas de sangue daquela mulher. Ele não viu nenhuma marca no lugar, mas quando levantou o rosto simplesmente disse “Eu acredito em você”.

Nunca mais eles conversaram sobre isso, contudo o fato selou a amizade dos dois e de alguma maneira fez Jonas conseguir ignorar a assombrosa experiência que vivera. Não tentou mais procurar explicações lógicas ou narrar para quem estivesse disposto a ouvir. Já se conformara que nunca entenderia o que ocorreu, nunca acharia alguém que soubesse, portanto não deveria perder tempo pensando no assunto. Era passado… porém, toda vez que escutava alguma história sobrenatural, por mais absurda que fosse, sentia o estômago pesar. A cerveja desceu mais amarga dessa vez e ele se levantou murmurando:

– Não tô muito bem… – Se afastou da mesa e desceu do tablado de madeira vagabunda saindo do bar e caminhando até o matagal próximo. Sabia que os amigos não o seguiriam após essa declaração, nenhum dos 5 se preocupava quando um deles ia vomitar. A intimidade de anos de amizade era suficiente para saber que todos detestavam serem acompanhados quando passavam mal. Seu estômago doía, porém ele não acreditava que realmente vomitaria, só precisava se afastar daquele assunto. A noite já estava insuportável o suficiente para o seu passado vir atormentá-lo em sonhos também mais tarde.

Jogou a latinha de cerveja na caçamba de lixo e respirou fundo fechando os olhos.  Inspirava vagarosamente, apreciando cada parte que o ar tocava até preencher por completo seus pulmões. Senti-lo fluindo pelas vias respiratórias apagava aos poucos a sensação de impotência que lhe dominava o corpo toda vez que se lembrava daquele acontecimento de sua infância. O cheiro de cigarro despertou-o do relaxamento e ele ouviu a voz de Cássio ao seu lado:

– Deixe-me adivinhar, seu enjoou passou?

Jonas fez uma careta e soltou o cabelo bagunçado sem encarar o amigo. Arrumou as mechas longas encarando o céu estrelado e, somente quando as prendeu e deixou seu rosto livre de qualquer fio escuro, abaixou o rosto para o amigo:

– Que merda de noite, cara.

Cássio deu uma risada debochada. Ele saíra de São Paulo avisando que dessa vez eles não seguiriam os planos de Eduardo, lembrando o grupo do quão chato fora da outra vez que o visitaram… e aonde eles estavam agora? Exatamente no mesmo lugar que da outra vez, seguindo uma promessa absurda que essa seria a noite mais incrível da viagem. Jantar em um restaurante reconhecido? Bar na beira da praia? Balada universitária? Ah, não, isso tudo era muito normal, muito enfadonho para Eduardo. Começara com umas cervejas na casa dele e depois aos poucos convenceu um por um a passear sem rumo pela cidade.Precisava mostrar que Santos tinha mais do que os turistas almejavam conhecer, contudo, Jonas via todos os motivos pelos quais esses lugares inóspitos eram evitados. Na primeira vez ele relevou todos os aborrecimentos, pois afinal, a companhia dos amigos era sua prioridade. Os cinco eram muito unidos no colégio e quando cada um tomou seu rumo após o vestibular, tentavam se rever pelo menos uma vez por ano. Porém, sempre quando Eduardo assumia o reencontro tudo desandava:

–  Sério, é a terceira vez que a gente cai nessa furada?  – perguntou observando a ruela escura. Ocupada esporadicamente por alguns bares vagabundos, a rua era o lugar ideal para quem quisesse se drogar ou conseguir uma prostituta. Cássio riu novamente e lhe ofereceu um cigarro. Jonas aceitou levando-o a boca e esperou o amigo acendê-lo para murmurar  – Eu tô muito velho para isso!

– Nós dois nunca achamos muito divertido sair por aí sem um objetivo, Jonas… – Cássio ajustou o óculos no nariz e alargou seu sorriso arrogante – Mas eu realmente não tenho mais idade para beber essa cerveja vagabunda.

Os dois riram e Jonas se lembrou do gosto aguado do que bebera no resto da noite, sentiu o estômago revirar novamente e concluiu que não era apenas as histórias de assombração que provocaram seu enjoo. Já passara da hora dele começar a substituir a cerveja pela água:

– Acho que lembro do caminho para voltar para a casa dele… – Cássio jogou o cigarro no chão e passou a olhar o carro de Eduardo estacionado no fim da rua:

– Ele não vai querer voltar agora, cara.

– Quem disse que ele ou os meninos precisam ir?

– Acho que não é uma boa ideia só nós andando a pé por aqui.

Cássio não retrucou, provavelmente nem escutara o que ele dissera, seus olhos azuis ignoravam-no e se concentravam no horizonte logo atrás de Jonas. Estreitou as pálpebras seguindo seu olhar e pôde perceber a movimentação dos mendigos que habitavam o terreno próximo a esquina da rua.  Uma cidadã bem vestida passava por eles. Ela ignorou todos os pedidos de esmola, mesmo dos que lhe tocaram e continuou a caminhar calmamente pela rua. Os rapazes do carro que bebiam na frente de um dos bares mexeram com ela, Jonas não conseguiu ouvir o que lhe falaram tamanha a barulheira da música do chevet e das risadas dos botecos chinfrins. As únicas mulheres que ele viu perambulando por aqui até agora eram prostitutas e provavelmente o grupo achava que esse seria o caso, ou não. O longo cabelo dourado brilhava com a fraca iluminação do lugar e mesmo longe, Jonas conseguia distinguir bem seus traços ao ponto de considerá-los belos. Ela era linda, não precisaria ser prostituta para despertar a ousadia de qualquer um dos bêbados daquela rua:

– Linda, não? Será que é maior de idade? – escutou Cássio falar quando inesperadamente, a ardência em seu estômago voltou e ele não conteve a náusea. Mal conseguiu afastar o cigarro antes de sentir a cevada alcançando sua boca. Ele se ajoelhou na grama, deixando sair tudo o que seu estômago queria se livrar. Fora mais breve do que ele esperava, mas o alívio imediato em sua barriga lhe dizia que ele podia se levantar, pois nada mais sairia. Não por enquanto. Cássio, que havia se afastado quando a crise começou, se reaproximou e ajudou-o a levantar:

– Jurava que era só blefe… – Jonas não fitou o rosto do amigo, contudo ao ouvi-lo sabia que ele esboçava uma expressão de nojo. Sentiu suas mãos em seus ombros guiando-o até o bar, até o banheiro, e obedeceu-o silenciosamente.

Queria procurar a loira, saber se ela havia dado moral para algum daqueles caras ou se continuara seu caminho, mas se sentiu envergonhado pelo vômito. Independente do volume da música, era fácil distinguir o som de alguém passando mal, não havia como não chamar a atenção. Ele odiava chamar a atenção. Manteve os olhos concentrados no caminho até o estabelecimento e só levantou o rosto quando viu os azulejos imundos do banheiro. Molhou a boca e se limpou, puxou para frente o cabelo preso e observou se algum resquício tinha ficado em seus fios. Observou o espelho e procurou o mesmo em sua camisa preta e sua calça jeans.

Ouviu a risada de Cássio,  ele não entrara no banheiro minúsculo, contudo estava perto, pois suas palavras ecoavam nos azulejos. Ele falava… em inglês? Jonas apagou a luz e antes que desse mais um passo viu o amigo e a loira que o escutava atentamente logo a frente do balcão do bar. Em apenas um segundo a reconheceu, era ela, a garota que minutos antes passeava próxima aos mendigos e os tarados da rua. Entre o escuro do banheiro e as luzes amareladas do bar, ele a observou. O cabelo de um loiro acinzentado escorria liso até a altura dos ombros e ganhava um leve ondulado até as pontas logo abaixo dos seus pequenos seios. As bochechas destacavam-se na face redonda e davam-lhe um ar extremamente jovial, quem a olhasse de relance possivelmente acharia que ela teria 15, 16 anos, contudo, os olhos felinos exibiam tamanha desconfiança que tiravam qualquer dúvida de sua maioridade. Usava roupas escuras que lhe cobriam todo o corpo esguio o que reforçava sua seriedade. Jonas notou o tecido aveludado presente na jaqueta e na saia longa, o material tinha um tom roxo peculiar e provavelmente custava mais do que o refrigerador vagabundo daquele lugar. Ela destoava de tudo, até mesmo de Cássio, que, independente de estar usando camiseta branca e jeans, nunca conseguia disfarçar sua origem bem afortunada. A estampa era sempre diferente, a calça nunca amassava, a lente dos óculos nunca sujava, ah, e seu cavalheirismo… Sempre um verdadeiro cavalheiro, como agora, tentando intermediar a conversa entre a gringa e o atendente do bar. Sério? Ele tinha mesmo que se meter e exibir seu inglês perfeito em um botequim de quinta categoria na puta que o pariu?

Jonas observou a cena por mais um tempo até que a garota o fitou. Não era possível que ela conseguia ver seu rosto na escuridão do banheiro, mas Jonas sentia seus olhos amendoados cravados precisamente no seu olhar. Cássio percebeu que não era mais o alvo de sua atenção e olhou para atrás, não o deixando com outra escolha a não ser sair de vez do banheiro e ir encontrá-los. Cássio segurou seu braço e lhe apresentou:

– Jonas, essa é a Juliet. Juliet, esse é o meu amigo Jonas! – ambos responderam a apresentação exibindo um leve sorriso enquanto Cássio continuava – A Juliet não sabe falar muito bem português e eu estava a ajudando a escolher uma bebida.

Isso, Jonas já havia adivinhado, o que ele realmente queria saber era o que uma gringa estava fazendo sozinha nessa espelunca? Como chegara até aqui?

Agora, próximo, era possível perceber como sua pele estava pálida e seus lábios rachados. Ela brincava com a cerveja passando os dedos na boca da lata e ocasionalmente observava seu conteúdo. Algo em sua expressão vaga o fez ter certeza que, assim como ele, a loira não prestava atenção ao que Cássio falava…

Ignorando-o completamente, Jonas tocou no ombro da garota e perguntou:

– Você está bem?

Surpresa com a pergunta, Juliet crispou os lábios e forçou um sorriso, claramente escolhendo cada palavra que diria.

– Sim. Estou, por quê? – Sua voz soou tão suave, tão tranquila, que o moreno sentiu-se constrangido pelo questionamento abrupto. Colocou as mãos no bolso, envergonhado :

– Desculpe, é que … você acabou de passar por aqueles mendigos no fim da rua e, bem, não é fácil andar por essa região sozinha, não é?

Juliet observou as pessoas barulhentas da área externa do bar, as paredes sem acabamento e com enormes rachaduras na área interna, o balcão gorduroso e, por fim, direcionou seus olhos amendoados para a lata de cerveja que segurava:

– Não é fácil andar sozinha em lugar algum. – Declarou, o sotaque acentuou cada “z” e cada “r”, mas não foi isso que mais chamou a atenção de Jonas. Cada palavra foi pronunciada com tamanha melancolia que ele teve certeza que ela estava bêbada.

Os amigos se entreolharam, Cássio, pela primeira vez desde que a estranha conversa começara, exibia preocupação no rosto. Finalmente ele percebera que havia algo de estranho com a garota. Molhou os lábios e ajeitou os óculos, nervoso por não saber o que falar após essa confissão, séria demais para pessoas que acabaram de se conhecer. Como se percebesse a frustração de ambos, ela entregou a lata de cerveja para Cássio:

– Eu preciso ir. – murmurou puxando um bolo de notas azuladas e entregando para ele. O fato que aquela moeda não valeria no bar não a preocupava, muito menos se a cerveja valia metade daquilo, pois se levantou e se afastou sem fitar os dois. –  Thanks for the drink. Nice to meet you guys. Goodbye.

Acenou fracamente com a mão, por cima do ombro, e caminhou até a área externa do bar. Seus passos eram calmos e firmes, porém Jonas podia prever como certamente ela andaria cambaleante e fraca quando passasse na esquina. E se os mendigos fossem agressivos dessa vez? Combinado com a bebedeira, isso poderia dar muito errado, já conseguia até ver a manchete estampando a capa de algum jornal sensacionalista.

Sem pestanejar, Jonas a seguiu e escutou as passadas de Cássio ao seu encalce. Ignorou a gritaria dos amigos bêbados quando passou na frente da mesa que há minutos estava sentado. Cássio, por sua vez, parou e pôde ouvi-lo contando para eles que iriam acompanhar a garota até um lugar seguro e não voltariam, iriam embora a  pé mesmo. O moreno não aguardou a resposta de Eduardo, não apenas porque queria alcançar a loira, mas principalmente porque não tinha mais paciência para a estupidez do amigo, esta noite ele já o fizera perder tempo demais.

Juliet seguiu pela rua escura sem mudar o ritmo de suas passadas calmas. Como da outra vez, mais de um rapaz gritou insinuações e novamente ela ignorou todos seguindo determinada até o fim da rua. Faltava alguns metros para chegar até a aglomeração de mendigos quando Jonas a alcançou e passou a caminhar ao seu lado. Ela o olhou de rabo de olho enquanto ele murmurava, nervoso:

– Olha, não sei como você chegou até aqui, mas não dá  para deixar você andar por aqui assim, desprotegida… Nós vamos te acompanhar, ok?

Ela parou e olhou Cássio se aproximando, molhou os lábios rachados dizendo para os dois:

–  Isso não é uma boa ideia. Eu não preciso de companhia.

“Você não reclamou que estava sozinha agora pouco?” Jonas pensou em dizer, mas conteve-se  tocando o queixo e sorrindo paciente:

– Nós já estávamos indo de qualquer maneira, não custa nada andar um pouco com você.

Observou-os em silêncio por alguns segundos, apesar da feição indiferente, seus olhos amendoados a traíam exibindo insegurança. Parecia analisar se os dois seriam de confiança, se o que Jonas falara era verdade. Como se respondesse a essa dúvida, Cássio tirou do bolso da calça as notas que era lhe entregara anteriormente e lhe mostrou esboçando um sorriso caloroso:

– Seu troco.

–  Troco? Change? – Ela questionou, ríspida e se virou afastando-se – Isso não é o troco, é exatamente tudo o que eu te dei. Pode ficar.

– Ei, você pode fazer boas compras com isso, é sério, convertido em real isso deve ser o lucro daquele bar em uma noite!

– Dê para os mendigos, se não quer para você – ela murmurou, sem encará-lo e seguiu pela rua.

Jonas não se assustou com a resposta, já imaginava que ela era desse tipo de pessoa que não precisava se preocupar com dinheiro. Provavelmente uma garota riquinha que vivia enclausurada e viera ao país tropical em busca de algum tipo de emoção, talvez até mesmo em busca de algum problema que despertasse a atenção dos pais. Cássio podia até compartilhar dessa mesma classe alta, contudo tinha juízo o suficiente para não discutir sobre dinheiro na frente dos indigentes e, assim, ao invés de insistir em lhe devolver os euros, rapidamente escondeu as notas no bolso. Sua expressão calorosa perdera o sorriso ao perceber o quão próximo já estavam do grupo. Jonas não podia julgar o preconceito estampado no rosto do amigo, ele próprio tinha dificuldades em disfarçar completamente o desconforto perante o eflúvio do aglomerado de pedintes. Coçou o nariz, se forçando a não deixar a expressão de asco se formar e percebeu que Cássio fizera o mesmo, apenas Juliet, caminhando logo a frente dos dois, parecia não esboçar reação qualquer perante aquele odor.

Ele e o amigo naturalmente reduziram seus passos, receosos com a reação dos mendigos; a princípio, eles conseguiram ignorar os pedidos de dinheiro, mas quando alguns pedintes abandonaram seus lugares e se levantaram ficou impossível não respondê-los. Falaram vários “não tenho” seguidos de “desculpa” tentando continuar pela rua o mais rápido possível, desviando braços e ombros das mãos imundas dos que se aproximavam demais. O moreno considerava-se experiente em passar por dezenas de miseráveis assim e sair ileso ignorando seus pedidos insistentes, afinal, ele não apenas morava na capital do estado, como morava próximo a um dos viadutos mais cheios de mendigos da cidade. Fazia parte de seu cotidiano urbano, porém, não havia como negar que temia que a abordagem se tornasse violenta. Desviava das mãos e dos hálitos podres da maneira mais gentil que conseguia, acreditava que não os maltratando sairiam ilesos dali. Observou Juliet e se surpreendeu o quanto à frente dos dois ela já estava. Sem pestanejar, ela ignorou todos os indigentes que cruzaram seu caminho,  passando habilmente entre eles sem diminuir a velocidade de suas passadas. Como ela conseguia andar com essa indiferença entre tantas mãos e braços? Rápida, se afastou do aglomerado e sumiu na penumbra no final da rua deixando-os para atrás.

Quando finalmente eles passaram pelo último mendigo e alcançaram a escuridão da esquina, Cássio murmurou o que ele próprio pensara:

– Bem, ela finalmente conseguiu se livrar da gente… – Não passou mais que um minuto, desde que ela desapareça de sua visão, porém, Jonas tinha certeza que não a veriam mais.

Havia pouquíssimos postes iluminando os contornos dos pequenos imóveis que formavam a ruela, nenhuma deles tinha uma fachada com iluminação própria ou qualquer tipo de sinal que havia algum trabalhador por ali. Se Juliet quisesse, poderia se esconder em qualquer um dos guetos entre um estabelecimento e outro. Ela claramente não queria a presença deles, então porque deveria esperá-los?

Jonas não sabia o que dizer, se antes estava interessado em acompanhar a garota misteriosa, agora sua única preocupação ao observar aquela ruela escura e silenciosa era se Cássio sabia mesmo como fazer para chegar até a casa de Eduardo. Se não sabia, ele fingia muito bem, seu andar recuperara a confiança anterior ao aglomerado de indigentes e agora ajustava concentrado o GPS de seu celular. Jonas ouviu-o murmurar o endereço de Eduardo e manteve seu silêncio, recusando-se a esboçar seu pessimismo em relação ao plano. Forçou os olhos tentando ler o que cada fachada dizia e, entre uma letra e outra, concluiu que a rua era repleta de estabelecimentos de transportes de carga:

– Porra, estamos perto do Porto! – Cássio afirmou, ajeitou os óculos no nariz observando a penumbra que os cercava. Jonas odiou o tom animado de sua voz, queria esmurrá-lo por conseguir dizer isso como se não significassem que estavam a mais de 20 km do seu objetivo. Inopinadamente, o sorrisinho maroto desapareceu de seu rosto, o loiro tocou tocou seu braço e murmurou, o tom tão baixo que fez Jonas se  inclinar para ouvi-lo – Ora, podia jurar que não a veria mais.

O mais alto da dupla demorou para enxergar o que Cássio vira nas grades mais a frente, contudo quando a figura esguia tomou forma em sua íris, seu estômago voltou a pesar. Por alguns segundos achou que não era Juliet, a escassez de postes nessa nova rua deixava tudo tão fracamente iluminado que ele só teve certeza de sua identidade quando a aproximação era de poucos metros. Estranhou como a forma e cor de seus olhos amendoados eram nítidas naquele breu, não que brilhassem, mas definitivamente roubavam a atenção do restante de seu rosto envolto em sombras.

Sentiu as pernas estremecerem, a náusea começara a virar vertigem e ele reduziu as passadas, sem conseguir acompanhar Cássio com a mesma velocidade. Observou-o ficar a frente a frente com Juliet:

– Achei que você iria embora sem dizer tchau.

– Eu deveria – a estrangeira sussurrou e Jonas viu seus olhos sumirem na escuridão.  Subitamente sua silhueta feminina desapareceu da grade e seu vulto misturou-se a forma robusta de Cássio. Braços, mãos (garras?),  pernas e fios loiros… Estava a poucos metros dos dois, contudo não conseguia distinguir os dois corpos, e muito menos o movimento de cada membro que via de relance. E o som. Que som era aquele? Murmúrios… de prazer?

Algo bateu no chão e percebeu o óculos do amigo próximo aos seus pés. Fitando as lentes trincadas, sua mente finalmente assimilou o que ouvia. Era o som de alguém se deliciando com um banquete. Por que não ouvia um pedido de socorro de Cássio? Não emitiu nem se quer um gemido. Jonas  deveria correr para socorrê-lo, mas a única coisa que conseguiu fazer foi dar um passo para trás. Ou melhor, tentar dar um passo para trás, pois antes mesmo de encostar o calcanhar no chão, sentiu agulhadas no antebraço e seu corpo flutuou.

Viu o muro metálico aproximar-se de seu rosto, entretanto desapareceu de sua visão tão rápido quanto aparecera.  Ele era puxado, a velocidade era tamanha que o vento começara a abrir cortes nas bochechas e no queixo. Seus olhos ardiam e foram inundados por lágrimas, a paisagem transformou-se em um borrão fluído azul e cinza. O garoto não distinguia o caminho, mas reconheceu o cheiro fétido de água suja e teve certeza que a estrangeira levava-o pelas docas do Porto de Santos. Sim, ele tinha certeza que era Juliet quem cravava as unhas em seu  pulso e o arrastava desafiando os limites de seu corpo mortal contra o atrito do ar.

Bruscamente, ela  parou e cada célula do corpo de Jonas pareceu tremer com a inércia da velocidade interrompida. Os tímpanos ensurdeceram, os músculos retesavam e doíam. Uma dormência espalhava-se por todo seu crânio, começara no centro da testa e rapidamente alcançou sua nuca. A vertigem dominou-o. Sentiu cheiro de vômito e abriu os olhos. A  iluminação amarelada era fraca, mas, agrediu sua retina, acostumada com a escuridão dos últimos minutos. Mantendo as pálpebras semi-cerradas, reconheceu os resquícios esbranquiçados sobre a estampa da blusa preta. Não se lembrava de haver  vomitado naqueles segundos em que desafiara o ar, entretanto, o forte gosto gástrico em sua saliva comprovava que ele era sim o dono daquele vômito.

Observou de relance o lugar em que seu corpo fora jogado. A visão desfocada permitiu-lhe julgar que era pequeno e suas paredes eram acinzentadas e refletiam a luz de maneira peculiar, talvez fossem metálicas. Havia um amontoado de coisas espalhado por todo o cômodo, sua visão estava prestes a conseguir focar em uma daquelas formas, quando sentiu um peso no peito e mechas claras caíram sobre seu rosto.

Não foram unhas que perfuraram sua pele dessa vez. As agulhadas afiadas que rasgaram seu pescoço foram provocadas por dentes. Ao contrário de Cássio, sua reação não foi silenciosa, ele gritou. Seu sangue queimava-lhe como ácido ao  umedecer a ferida que Juliet abria. A ardência da mordida era tenebrosa, todos seus sentidos pareceram despertar conforme seu berro ecoava pelo cubículo cinza. Não conseguia fechar os olhos lacrimejantes, permaneceu com as pálpebras abertas observando os fios loiros dançarem a frente do teto metálico.  Toda superfície que encostava em seu corpo provocava-lhe uma sensibilidade anormal, como se estivesse nu. Suas costas estavam apoiadas em uma pilha de caixas cujas pontas pareciam lhe ferir ao leve contato, a frieza do chão tornou-se insuportável e suas pernas adormeceram. Apesar de seu grito soar alto, mais alto do que ele jamais gritara, seus ouvidos insistiam em ignorá-lo e prestavam cada vez mais atenção em sua própria pulsação. A fraca batida soando em suas veias seguia o ritmo de um outro som, uma ressonância intensa, grave e gutural. Era a garganta de Juliet engolindo seu sangue.

Um estalido abafou momentaneamente o som dos músculos e ele soube que não viera dela, pois a loira o largou:

– Adrian? – perguntou levantando-se.

Gemendo, ele tentou levar uma das mãos ao ferimento do pescoço, mas mal conseguiu mexer os dedos. A dor latejante diminuíra assim que a agressora o largou, porém seu corpo estava em choque, dominado por uma fraqueza que mal o deixara movimentar direito os olhos para acompanhar Juliet se afastando. A estrangeira caminhou rapidamente pelo cubículo, claramente procurando a origem daquela batida. Quando voltou a se aproximar de seu campo de visão, o garoto percebeu que os olhos amendoados observavam atentamente as cargas espalhadas a suas costas.

Jonas estremeceu ao fitar o vermelho vívido nos lábios grossos da mulher, era seu sangue, era o sangue de Cássio. Aonde o amigo estava? Será que era ele que a loira procurava? A expressão em sua face júvene não era mais indiferente como há alguns minutos perante aos mendigos, franzia a testa desconfiada até que arregalou os olhos e crispou os lábios, furiosa. A origem do ruído não parecia lhe preocupar mais, era a ausência de algo na pilha de caixas que a intrigava . Xingou alguma coisa e em seguida se afastou. Ouviu-a chamar a mesma pessoa de outrora:

– Adrian! Where are you?!

Jonas conseguiu movimentar a cabeça e pôde vê-la saindo do cubículo. Logo ao lado da porta notou um volume diferente de todos os caixotes ao redor. Era um corpo estirado. Reconheceu a calça Jeans, a camiseta branca e o cabelo castanho claro: Cássio.

Controlando o tremor que percorria seus membros, apoiou as mãos e joelhos no chão e foi engatinhando até o amigo caído a alguns metros. Um tom arroxeado coloria seus lábios, a pele perdera o tom bronzeado que ganhara ao longo do dia na praia, nunca vira seu rosto tão branco ou tão úmido de suor.. Colocou a mão sobre o peito de Cássio, para seu alívio, havia um leve pulsar e o diafragma também movimentava-se lentamente. Tocou na mancha avermelhada em sua gola, afastando-a para observar a gravidade do ferimento na jugular. A área esquerda próxima a traquéia tornara-se um aglomerado escuro de pele e sangue. Imediatamente, tocou seu próprio pescoço estranhando a superficialidade do ferimento, o qual pulsava, doía, mas não passava de dois furos precisamente abertos sobre a carne. Imaginou a dor que o amigo estava sentindo e cerrou os punhos, frustrado por não saber o que fazer. Deveria conter a circulação da ferida aberta? Como poderia fugir carregando aquele corpo moribundo? Decidiu começar pelo básico, protegeria o ferimento aberto, o manteria vivo e depois pensaria no resto. Ia começar a cortar um pedaço da própria camisa quando ouviu um estrondo e um tremor percorreu o cômodo.

As placas metálicas logo abaixo de seu joelho sacudiram, alguns caixotes desequilibraram-se de suas pilhas e a lâmpada enfraqueceu. Ele caiu sobre Cássio com o susto e o medo gritava pessimismos em sua mente, porém se recusou a continuar ali como uma vítima idiota. O ódio por toda aquela situação impulsionaram-no a ignorar as dores e a náusea e Jonas se levantou para ver o que estava acontecendo. Ele sairia dali com Cássio, agora. Cauteloso, aproximou-se da porta e a abriu. Observou pelo vão o lugar que abrigava o cubículo que estavam. Era um enorme  compartimento de carga, hora sombrio, hora iluminado pelas luzes afixadas na parede. As lâmpadas amareladas brilhavam por 1 ou 2 segundos e, então, reduziam sua luz até quase se extinguir por completo. Apesar da inconstância dessa iluminação, ele pôde visualizar as paredes compostas das mesmas placas metálicas inclusas no pequeno cômodo, havia diversos caixotes empilhados e enfileirados metodicamente por todo o compartimento. Jonas era ruim em medir dimensões, mas comparou a altura do salão com a casa de 2 andares que morava, aliás, poderia ver sua morada ali facilmente, com o pequeno jardim e garagem incluso. Ele estava em um navio? Era isso?

Sentindo os membros mais fortalecidos, pegou Cássio pelos ombros e tentou colocá-lo de pé:

– Vamos, cara. Me ajuda, precisamos sair daqui – murmurou, se sentindo patético por ter tanta dificuldade em segurar o amigo desacordado. Naturalmente seus braços sedentários não aguentavam muito peso, agora, depois do que passara, essa condição só piorou e ele precisou voltar o corpo do rapaz ao chão.

Agarrou-o pelos ombros e decidiu arrastá-lo. As roupas faziam barulho ao atritar com o piso, contudo ele tinha fé que o som que acompanhava o acender e apagar das luzes abafaria sua fuga. Aquele ruído da potência da corrente elétrica variando lembrou-lhe o estampido que afastara Juliet de seu pescoço e ele teve esperança que, enquanto aquela ressonância continuasse, ela estaria ocupada procurando a origem da falha elétrica.

Rapidamente ele se afastou do cubículo, observou que a mancha na camisa do amigo aumentava e tentou em vão rasgar um pedaço da própria manga para executar a ideia de cobrir o ferimento. Independente da força que fazia, não conseguia rasgar parte alguma de sua vestimenta apenas com as mãos; sem pestanejar, tirou a camisa e enrolou-a ao redor do pescoço de Cássio. Não sabia nada de primeiros socorros, talvez cobrir um ferimento tão profundo assim causaria alguma infecção, mas era a quantidade de sangue circulando no corpo de Cássio que virara sua prioridade agora. Continuou o percurso procurando alguma porta que indicasse a saída até que um retumbo novamente acelerou seu coração.

Pow, pow, pow.

Ele não parou, não podia pensar e muito menos procurar a origem daquele som.

Pow. Pow. Pow. A batida dessa vez foi acompanhada de uma voz abafada. Um grito?

A cada novo passo, novas batidas. Era difícil ter muita noção do espaço andando de costas e guiando o corpo de Cássio, portanto, não conseguia ver mais do que 2, ou 3 metros sobre o ombro e de relance.  Um brilho acobreado apareceu de relance e ele piscou, confuso com a visão no canto de seu olho. Moveu a cabeça, observando o caminho por cima do outro ombro, o direito, e nenhuma cor além do colorido das caixa despontou em sua íris. Aliviado, manteve os passos até que o cintilar avermelhado apareceu novamente, dessa vez,  percebeu nitidamente que era um rastro próximo a um dos caixotes.

Parou e virou-se, temendo o que veria. Contudo, apenas caixas e paredes preenchiam sua visão e ele escutou:

– Eu te disse. Há mais alguém aqui.

A voz era grossa e ríspida, a declaração não fora um murmúrio, aquelas palavras ecoaram perfeitamente pelas paredes metálicas. O homem que falara não temia pela descoberta de sua presença como Jonas. Como se em resposta a fala, mais um fragor escandaloso repercutiu pelo lugar e dessa vez manteve sua frequência. As batidas eram um incentivo para o garoto continuar, ele não podia ficar parado. Segurou Cássio pelos braços e o arrastou mantendo seu tronco mais de lado do que de costas, precisava ver melhor o que acontecia nas galerias mais a frente.

Forçou a vista e mais uma nuance acobreada desenhou o ar metros a frente. O cintilar sumira tão rápido quanto aparecera, porém ele pôde distinguir que dessa vez aparecera no vão que ligara a galeria que estava com a próxima. Conforme aproximava-se da porta que limitava esse ambiente,  duas silhuetas masculinas formaram-se em sua retina. Um dos homens estava agachado, inclinado sobre uma escotilha, suas costas largas ocultavam o que fazia, contudo o garoto supôs ser de extrema importância, pois ele ignorava completamente a aproximação barulhenta do arrastar do corpo de Cássio. O outro homem, por sua vez, estava de frente, austero, encarando-o. Ele acabara de mover suas pernas para deixá-las logo a frente de um caixote vagabundo e manteve o olhar em Jonas quando escorregou o casaco pelos braços robustos e jogou sobre aquele invólucro, como se o protegesse da aproximação do jovem. Não esboçava surpresa alguma pelo estado da dupla, havia apenas desconfiança em seus pequenos olhos escuros. Era só um pouco mais alto que Jonas, mas pareceu ganhar estatura quando arqueou o queixo redondo em desafio. As tatuagens com formas animalescas expostas em seus antebraços pareciam fortalecer sua intimidação, especialmente no momento em que ele retesou os braços e crispou as mãos. Sem dúvida, sua reação não seria nada passiva se Jonas continuasse sua aproximação.

O garoto parou e engoliu em seco, sem saber o que dizer.  Há poucos metros de distância, avaliou o homem que o desafiava: as bolsas flácidas logo abaixo dos olhos não apenas denunciavam sua idade, uns 40 anos, como também demonstravam um cansaço de dias. Tanto as rugas profundas entre as sobrancelhas arqueadas, como os lábios finos severamente contraídos atestavam que ele levava suas responsabilidades muito a sério e, pelo visto, Jonas estava atrapalhando uma delas. Se não estava surpreso com sua presença, certamente a desaprovava. Limpou com a palma da mão o suor que escorria em sua têmpora e balbuciou fitando o pescoço de Jonas:

– Ela fez duas vítimas, tsc, que ótimo… – Mal-humorado, olhou para o companheiro agachado que ignorara seu comentário –  Ackart?

O alçapão deu um solavanco sobre os pés do outro homem e os sons das pancadas se repetiram seguido por uma voz furiosa. Era dali que vinham os fragores. As juntas da prancha metálica exibiram o cintilar cobre que Jonas vira anteriormente e um calafrio percorreu suas costas. O garoto temeu que eles libertariam alguma coisa daquele buraco.

– Só mais um pouco…- O outro homem, ainda de costas, murmurou despreocupadamente. O modo como ele pronunciou o “um” fez o garoto desconfiar que o português dele não era nativo. Merda, outro estrangeiro. Seriam cúmplices de Juliet? A expressão azeda que o moreno continuava a esboçar não demonstrava preocupação alguma por haverem encontrado pessoas feridas no convés de um navio, ou muito menos com aquela estranha frequência elétrica que que fazia as lâmpadas tremeluzirem de 3 em 3 segundos.

Contudo, quando uma nova batida se fez contra a porta do alçapão, a porta não trombou mais sobre os pés do estranho, as juntas brilhavam como se fossem brasa e finalmente o estrangeiro se levantou. Virou-se, sorridente:

– Feito. Vai demorar 3 horas para ela conseguir sair daí.

O homem tinha o corpo robusto e estatura alta, as rugas marcando o rosto arredondado denunciavam que, assim como o outro, sua idade era pelo menos o dobro da de Jonas. Seus olhos avelã exibiam uma curiosidade, uma leveza, rara de se ver em adultos depois de uma certa idade. Dejá Vu. Aquela expressão jovial e calorosa despertou uma sensação familiar na memória de Jonas, apesar de nada concreto aparecer em sua mente de imediato.

Usava roupas similares ao do moreno ao seu lado, jeans e camiseta escura, um ornamento em seu braço esquerdo despertou a atenção do garoto. O polegar e o dedo indicador estavam totalmente cobertos por um material que cintilava na mesma cor avermelhada que Jonas observara no caminho e no alçapão. Protegendo parte da mão e do pulso, o molde cobre lembrou-lhe o de uma manopla, mas uma incompleta, já que ela não vestia os outros dedos, estes eram cobertos por um tecido claro estampado.

O interesse, e temor, de Jonas pelo objeto foi percebido por Ackart já que este aproximou-se colocando o braço para trás, ocultando-o, a medida que chegava mais perto dos dois:

– Você está bem, garoto? O que está sentindo? – Jonas emudeceu com aquelas perguntas. Simples, diretas, mas a voz…O modo como os olhos de cor rara se contraíram enquanto observava a reação de Jonas. Ele conhecia esse sujeito, concluiu observando as sombras envolverem seu rosto conforme a iluminação fraquejava. O cabelo castanho estava bem mais curto, a pele estava marcada pelo tempo, contudo, sua mente suprimiu as diferenças e uma memória concreta se formou. As lâmpadas voltaram a revelar os detalhes de sua cútis bronzeada e Jonas percebeu uma nuance na expressão calorosa. Quando o sorriso simpático desapareceu por completo, Jonas soube que ele também o havia reconhecido.

– Você acha que ele consegue… andar, Rafael? – ouviu-o perguntar analisando o pescoço de Jonas. Viu que colocaria a mão no ferimento provocado pela mordida e instantaneamente, o menino repeliu o toque.

– Não! – Ordenou, raivoso. Não interessava o quão caloroso era o olhar daquele sujeito, ele não confiava nele. A impressão que tinha era que não conseguiria confiar em ninguém mais.

O homem chamado Rafael já estava ao lado do outro e fitava-o com azedume:

– Andar ele consegue, mas o outro… Tem certeza que temos 3 horas?

– Pfff… – Foi a resposta de Ackard, seu sorriso esboçava desdém misturado com uma leve irritação. Parecia que ignoraria a pergunta, até que murmurou, misterioso – 3 horas e 21 minutos.

Havia passado por Jonas e agora se inclinava sobre Cássio, tocando seu peito. O garoto observava-o descrente da casualidade daquela conversa. Eles o ajudariam, é isso? Ele conseguiria sair dali? Incrédulo, afrouxou os dedos trêmulos que seguravam os ombros do amigo e deixou Ackart afastá-lo. O estrangeiro levantou o corpo ajustando-o deitado nos braços. Cintilando sobre os joelhos de Cássio, a estranha luva voltou a chamar a atenção dos olhos de Jonas.

– Qual seu nome, garoto? – a voz áspera de Ackart o fez piscar. Toda a dor que ignorara nos últimos minutos de adrenalina esmagou seus membros quando percebeu que os olhos do homem, pela primeira vez, demonstraram que realmente o enxergava, que ele não era apenas um infortúnio a ser resolvido rapidamente. Molhou os lábios secos e preocupou-se por senti-los tão quentes:

– Jonas

Ackart deu um sorriso triste olhando Rafael:

– Pech Haben… – murmurou e sua face melancólica voltou a serenidade juvenil – Eu sou o Hans, esse é o Rafael.

Virou-se sem esperar resposta alguma e se afastou a passos largos. Confuso, Jonas não o seguiu, observou Rafael pegar o caixote de tapume no chão e questionou:

– O que foi que ele diss… – o volume da pergunta morreu em sua boca conforme o azedume voltava ao rosto mal-encarado de Rafael. Ele segurou a caixa com uma das mãos e, com a outra, forçou Jonas a andar pressionando seu ombro. O jovem não resistiu, e caminhou ao seu lado, confuso com o que aquelas palavras desconhecidas significavam. Para sua surpresa, o moreno respirou fundo e disse:
– Pech Haben? Má sorte. – Olhou Jonas de relance e balançou a cabeça em negação esboçando um sorriso soturno, incrédulo – Seu nome, garoto, significa má sorte.

>> continue a leitura em CAPÍTULO I – CONVITE