Cerveja, uísque e cigarro. A medida que a noite aumentava, o hálito dos mortais tornava-se cada vez mais denso e perceptível. Conseguia distinguir o elemento que procurava entre o cheiro do álcool e da nicotina, mas era tão suave que ela sabia que pouquíssimo seria realmente nutritivo. Conhecia as necessidades de seu corpo. Corria o risco de matar a presa tentando sugar toda a cafeína que conseguisse. Ou, pior, quando saboreasse as primeiras gotas, ficaria nauseada, e com fome, o resto da madrugada. O sabor contaminado arruinaria seu apetite. Sentiu um toque cálido em seu ombro e se virou, um rapaz requeria sua atenção:

– Desculpa – ele cheirava a cedro, uísque e excitação. O rosto moreno estava a centímetros do seu e ela estudou suas feições tentando entender porque pediu perdão. Tantas pessoas ao redor afoitas em ganhar passagem na pista de dança e aquele garoto achou necessário pedir desculpas por encostar nela? Talvez o álcool afetou sua noção de força por pensar que o sopetão foi forte ao ponto de incomodá-la. Ou, bem, realmente foi, contudo ela sentiu como se apenas mais uma pessoa passasse vagarosamente às suas costas em meio ao caos. Desconcertado pelo olhar indagador, ele afastou sua mão e perguntou – te machuquei?

Ekaterina fingiu um sorriso benevolente e negou, balançando a cabeça. O tom da voz do rapaz era de preocupação, mas o olhar lascivo demonstrava suas reais intenções. Nunca entendeu essa aproximação dos humanos, havia várias formas de demonstrar o desejo por alguém, esbarrar na pessoa não deveria ser uma delas. Desprezava essa casualidade fingida. Sem falar nada, ignorou o garoto completamente, dando-lhe as costas, e voltou a andar pelo lugar abarrotado de pessoas.

Seus olhos cinza observaram atentamente a bandeja dos garçons e as mãos de quem se afastava do bar. Chopps, drinks e batata-frita. Concluiu que a escolha do lugar não foi a ideal. Em uma balada techno já teria se alimentado de vários adolescentes transpirando energizante. Acordou decidida a variar um pouco de ambiente, temia sua própria reação caso ouvisse mais um flerte infame citando a cor que sua pele adquiria sob a exposição da luz negra. Queria distância de eventos com aquela maldita iluminação. Desconfiava piamente que a Inquisição estava por trás da invenção, era ridículo o tom madrepérola que os imortais adquiriam sob aquela luz.

Hoje, ela queria andar tranquilamente pela casa noturna sem ouvir as mesmas piadinhas de um humano idiota. Pelo menos quanto a isso, não errou na escolha – somente uma pessoa, o rapaz que se desculpou há alguns minutos, ousou incomodá-la na última hora. Contudo, se a caça foi potencializada pela discrição, suspeitava que a qualidade do sangue seria bem abaixo do que desejava. Lucraria mais em uma cafeteria, mesmo que não encontrasse alguém com alta dosagem de cafeína, certamente conseguiria um sangue livre do álcool. Sorriu divertindo-se com a conclusão, sua alma era realmente velha.

Observou as diversas bebidas atrás do balcão do bar. Entendia a preferência dos presentes, era difícil ignorar algumas daquelas garrafas. Iluminadas por uma luz dourada, seus líquidos de cor azul, vermelha e amarela eram, de fato, tentadores. Uma pena que não tinha mais apetite algum por tais sabores. Bastavam aquelas bebibas para decorar o estabelecimento e garantir o lucro. E, claro, música.

Quando o som genérico foi desligado e os acordes da banda começaram, o tumulto aumentou, as pessoas se deslocaram até o palco. Ekaterina ignorou a movimetação e permaneceu de costas para o show,  observava a fila que era revistada pelos seguranças logo na entrada. Procurava dentre os recém-chegados alguém totalmente sóbrio, até que ouviu as primeiras notas da guitarra. Não conhecia a música, mas seus ouvidos apurados perceberam a rapidez do dedilhado e, principalmente, a precisão de quem manipulava o instrumento. Intrigada, Ekaterina virou-se para o palco. O jovem guitarrista ignorava a platéia e a banda, as mechas longas escondiam seus olhos enquanto inclinava-se sobre a guitarra, totalmente concentrado nas cordas.

A imortal afastou facilmente as pessoas pelo longo caminho até o fim do estabelecimento. Enquanto aproximava-se do palco, seus olhos curiosos não desviaram o foco do guitarrista. Era espantoso como aquele rapaz sentia a música, a entendia e, principalmente, a dominava, como há muito tempo Ekaterina também o fizera. Será que ele tinha consciência do quão rara era a conexão harmoniosa de seu tato, audição e… alma? Separada somente pelas caixas de som e a elevação do palco, Ekaterina conseguia sentir o cheiro da excitação do humano ao executar aquelas cifras. O loiro expôs o rosto redondo, tocava com as pálpebras cerradas, a boca contorcendo-se a cada acorde. A vampira molhou os lábios grossos e abriu um sorriso satisfeito, os dentes salientes quase aparecendo. Ela o queria.

Corpo robusto, olhos claros e barba cerrada. O sujeito não era feio ou particularmente bonito; não era sua fisionomia que a atraia. O prazer com que ele tocava lembrava-lhe de quando ela mesmo conseguia deleitar-se por horas ao praticar uma música sozinha. Demorou até o loiro perceber seus olhos atentos, e, da primeira vez, desviar o olhar, porém logo cedeu a curiosidade e voltou-se para ela, fitando-a por um bom tempo. O flerte se repetiu em várias músicas, e ele pareceu entender que sua admiração era pela maneira como tocava, pois fazia questão de observá-la em meio aos acordes mais difíceis. O guitarrista era só um pouco mais novo do que a vampira aparentava, mas ela tinha receio que lhe faltasse coragem para se aproximar de uma mulher tão diferente das garotas de beleza trivial da plateia.

Ekaterina não dançava lascivamente, muito menos levantava o braço urrando trechos da música. Vestia uma jaqueta de couro azul, uma blusa branca e calça-jeans, uma combinação simplória se comparada às figuras femininas produzidíssimas do lugar. O cabelo negro e cacheado pendia livre até o final de suas costas, sem um corte ou penteado especial, não usava jóias ou maquiagem. Sabia que muitos homens precisavam desses sinais de vaidade para ousarem flertar, mas nada em sua aparência demonstrava que viera ali disposta a sair acompanhada. Assim, a vampira investiu na intensidade de seu olhar, lascivo e insistente ele transmitia claramente suas intenções de… uma conversa íntima com o humano. Sorrir sem timidez toda vez que o guitarrista a encarou só reforçou sua sedução e, encorajado ou não por sua expressão, ele se aproximou na hora do intervalo da banda. Brincava com o isqueiro de prata, claramente nervoso:

– Você fuma? – disse, apontando para o maço de cigarros que retirou do bolso.

“Ah, não você não vai estragar esse cheiro delicioso com nicotina” a vampira pensou, apenas sorrindo. Pegou o maço roçando os dedos em sua mão cálida e puxou um cigarro. Colocou-o na boca do loiro, surpreendendo-o:

– Não, não fumo, mas posso te acompanhar – sussurrou disfarçando seu sotaque. Tomou o isqueiro e puxou o rapaz para a fora do lugar. Sua fome aumentava ao sentir a pulsação daquele toque quente. Não aguentaria esperar até um lugar mais discreto, até o sangue dele perder toda a excitação musical. Bendita lei brasileira que proíbe fumar em espaços fechados.

Logo antes da saída, apressou os passos e empurrou-o até a porta que comunicava a exclusividade do uso para os funcionários. Ora, ele era da banda, quem ousaria falar que não poderia entrar ali? Ekaterina o encostou na parede. O cigarro havia caído no chão pela brutalidade do movimento, mas os olhos surpresos dele não transpareciam medo algum, divertia-se e ansiava pelo próximo movimento dela. Sentiu os braços roliços em seu quadril, aproximando-a mais de seu corpo. Adorava vítimas assim, tão inebriadas pelo momento quanto ela. A porta levou-os ao início de uma escada, iluminada somente no segundo andar. Ekaterina não se preocupou se teria alguém da administração presente, seria rápida. Sorriu, sem receio de mostrar os caninos pontiagudos, e aproximou-os do rosto do guitarrista. Mordiscou de leve o queixo barbado e subiu até as bochechas, aproveitando cada segundo do cheiro que sua pele exalava. Ele tentou beijá-la, mas ela se afastou, dando um risinho. Sentiu a mão dele em sua nuca, reaproximando-a, e cedeu ao beijo. Controlou-se para não mordê-lo, independente dos séculos de prática, sempre era difícil evitar que seus dentes afiados abrissem cortes durante um beijo afoito.

Correspondeu ao ritmo que ele queria por mais alguns segundos e então passou a lamber seu queixo, até o pescoço, sentindo com a língua sua pulsação acelerada. Chupou a região da veia sobre a pele, seu corpo gélido enlouquecendo pela proximidade com o alimento. Ouviu os gemidos do loiro e decidiu que não esperaria mais: ele estava excitado o suficiente para não perceber o que ela faria em seguida. Ekaterina voltou para o queixo, chupando-o também, e então deixou que os dentes arranhassem a barba, abrindo cortes finos. Porém, ao primeiro contato com o sangue, ouviu um sussurro: Agatha.

“Agatha?!“ pensou sem afastar os lábios do líquido quente. Chupou os cortes e novamente ouviu outro sussurro. A frase rápida ecoava como se alguém a gritasse em um alto-falante, mas não foi ali, na escadaria. Ela ouvia o som abafado da boate passando pelas frestas da porta, as gotas de alguma pia mal fechada do andar de cima, os risos das pessoas que fumavam na rua. Sentia o cheiro de uísque e suor. O calor do líquido que molhava sua boca, o gosto de adrenalina. O gemido de prazer de sua presa, a gritaria dos garçons, o toque cálido em seu quadril. A confusão de sentidos começara a dominá-la. Ela não tinha mais certeza se o sussurrar que ouvira era real ou fazia parte do delírio que sempre envolvia os imortais  ao saborear o líquido vital. O loiro não ouvira a frase, assim como não percebia que ela sugava seu sangue em meio aos chupões em seu pescoço. Novamente a mesma sentença fugaz, porém a vampira não a entendia, sua consciência ignorava o significado, totalmente entregue ao deleite do líquido aquecendo seu corpo imortal, até que seus tímpanos arderam e ela afastou a vítima.

Instintivamente colocou as mãos na boca, omitindo o sangue que roubara, e deu passos para trás. Olhava para o chão, contendo a expressão de dor. Como se alfinetassem seus tímpanos com fogo, a frase se formou e ela entendeu que era um chamado. Nenhum vampiro saberia fazer isso. Atônita, murmurou:

– Hans…?

>> Foto por Ana Grave no Unsplash

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