Falhei de novo! Eu tenho sido um mestre miserável… Talvez eu devesse deixá-la ir. Ou forçá-la a isso. Talvez devesse simplesmente entregá-la para um Membro mais competente do que eu, já que é mais do que óbvio que não sirvo para esse tipo de coisa. Deus! Como é difícil perceber que não importa o que você faça, está fadado à eterna solidão… E eu que pensava que dessa vez seria diferente, mas está sendo igualzinho. Igualzinho!”

Decidira não se alimentar naquela noite; sua fome fora saciada graças às duas criadas do General que tinham lhe servido de alimento mais cedo, quando o sol ainda não tinha se escondido atrás do horizonte. Ao invés disso, de caçar, decidira simplesmente caminhar um pouco… e pensar. Era uma noite realmente fria, apesar de Adrian quase não senti-la. Caminhava devagar, as mãos enfiadas nos bolsos do casaco de veludo negro e olhando para os pés, calçados com sapatos sociais impecavelmente engraxados.

Restavam poucas horas até o sol despontar no céu, e em consequência do dia que tivera, estava exausto! Sentia os membros pesados e dormentes, e sabia que tinha leves olheiras embaixo dos olhos, que deveriam estar bastante acentuadas por conta de sua pele naturalmente macilenta. Tateou um dos bolsos internos e tirou de lá um par de óculos escuros, enfiando-os no rosto e continuando a caminhada. Provavelmente agora devia estar ainda mais estranho, caminhando por ruas mal iluminadas com os olhos cobertos por lentes negras, mas não deu ouvidos aos risinhos debochados das pessoas ao redor: era estranho, sim, mas tinha certeza de que não estava feio. E isso bastava, afinal, antes chamar atenção por estar bem vestido a chamar atenção por exibir a cara marcada com olheiras enormes e por estar enfiado em trapos.

– Uuuh, é estranho, mas é muito lindo! – Comentou uma mulher em voz alta, de propósito, claro, fazendo Adrian erguer os olhos para encará-la. – Estou falando com você.

– Eu sei! – Respondeu o vampiro, abrindo um sorriso educado. Não agradeceu.

– Não é nem um pouco modesto… – Comentou uma outra mulher, mais bonita do que a primeira, mas com um ar demasiado arrogante e cínico que não lhe caía bem. Adrian sorriu para ela também.

– A modéstia é para os medíocres.

– Concordo! – Disse a primeira, arrebatando o cigarro das mãos da amiga e tragando demoradamente.

A mulher fez menção de protestar, mas claramente não encontrou as palavras certas para tal, então se calou. Adrian abanou a cabeça, concordando que o silêncio era a melhor atitude. Fez uma pequena reverência para elas e continuou a caminhar. Uma delas chamou-o de volta, oferecendo serviços que ele, definitivamente, não necessitava. Ele virou-se, com um enorme sorriso malicioso, e caminhando de costas, as mãos ainda nos bolsos, respondeu algo como ‘atire-me ao sol quando eu precisar pagar para ter esse tipo de tratamento!’ e continuou seu caminho sob os protestos das duas.

Um quarto de hora depois despontou em uma bem iluminada e movimentada avenida. Piscou demoradamente, apertando as pálpebras, mal acreditando que pudesse haver tanta luz e movimento àquela hora da noite em uma cidade tão feia e miserável: era algo digno das grandes capitais europeias, e definitivamente não estava preparado para vislumbrar uma pequena parcela de “civilização” naquele pedaço de terra esquecido por Deus.

Jogou os cabelos para trás, afastando-os do rosto pálido e encovado, e ajeitou os óculos que deslizavam pela ponta do nariz afilado. Permaneceu sério, olhando ao redor, e ficou satisfeito ao perceber que não chamava tanta atenção ali. De fato, ele não era nem de longe a pessoa mais estranha que transitava pela avenida.

Quanta gente feia! – Resmungou em sua língua-materna, enquanto tomava a direção contrária à maioria, que descia por uma escada subterrânea que ele sabia levar ao metrô. Ele não queria descer ali, definitivamente. Não gostava de lugares baixos, muito pelo contrário: seus olhos agora fitavam o topo de um imenso arranha-céu que se erguia na margem oposta da avenida, como um enorme dedo inquiridor apontado para o firmamento negro e pontilhado de estrelas que nem pareciam mais brilhar. Luz demais, pensou ele. – Preferia que não usassem tanta luz, mas quem sou eu para reclamar? Humanos às vezes me parecem tão simplórios!

No segundo seguinte havia se transformado em um borrão negro e desaparecido: ninguém pareceu notar aquela pequena anormalidade, exceto um mendigo ébrio que, jogado na sarjeta, fitava com os olhos vidrados o local onde Adrian estivera até então. Piscou e balançou a cabeça, então, pensando que talvez tivesse sonhado, afinal, estava bêbado demais.

Adrian, agora dezenas de metros acima, com os braços abertos e o rosto virado para o céu, sorriu. Respirou fundo, aspirando um pouco de ar frio e menos poluído e abrindo os olhos. Dava para ver melhor as estrelas dali de cima.

– Ah, maravilha!

__________

Ainda me lembro o que ela vestia na noite em que me levou para caçar pela primeira vez, como também me lembro do brilho lascivo de seus olhos castanho-esverdeados ao ver minhas presas enterrando-se no pescoço de uma jovem moça da aldeia: ela a escolhera para mim e observara de perto como eu me comportava diante da minha primeira presa. Perto demais, e não tardou para eu perceber que a moça, por algum motivo, não a via. Natalie piscou um olho para mim, e ao observar eu me banquetear com o sangue da donzela, ela também abriu um talho em seu pulso e bebeu. Eva acompanhava a cena de longe, a expressão indecifrável.

– Muito bem… – Disse Natalie, afastando os lábios da pele morena da moça e perfurando-me com o olhar. Não havia sequer uma gota de sangue em sua boca, nem nos dentes incrivelmente alvos e brilhantes que exibia ao me brindar com um daqueles sorrisos que eu aprendi a amar tão rápido e buscar quase o tempo todo. Eu, por outro lado, estava lavado de sangue. Ela roçou os dedos em meu queixo molhado e lambeu-os em seguida, então disse: – Mas você desperdiçou demais. Da próxima vez, crave melhor os dentes e una os lábios à pele como em um beijo de amor. Isso ajuda.

– Certo. – Concordei, também sorrindo, mas bastante encabulado. Ela pareceu captar o que eu pensava e logo disse, afastando os dedos umedecidos de saliva e sangue da boca e limpando-os em um lencinho de linho que carregava consigo.

– Não precisa se preocupar, doce Adrian. Não são raros os que retornam para casa cobertos de sangue, durante as primeiras noites. A culpa foi minha por não ter te alertado antes. Peço perdão pelo meu descuido.

Por algum motivo eu sabia que aquelas palavras não eram inteiramente verdadeiras, apesar de acalentarem por um momento a vergonha que eu sentia. Sabia que ela fizera aquilo para que eu pudesse aprender com meus erros. Uma professora nata. Mais tarde eu dominaria seus métodos, mas naquela noite eu não consegui sentir nada a não ser frustração e raiva, que ela, sabiamente, decidira não aplacar. Não que eu apresentasse alguma ameaça, pois ainda hoje sei que não sou páreo para ela, mas por que cada um deve lidar com os próprios demônios. Ela sabia disso, e hoje a agradeço por me tratar daquela maneira. Há batalhas que um homem, ou um vampiro, deve travar sozinho.

Nas noites que se seguiram à minha transformação, ela sempre saía comigo para a caçada, embora se alimentasse ao despertar: possuía um rebanho imenso de humanos que usava para todos os fins, que iam desde afazeres domésticos à alimentação.

Era incrível que alguém com o rosto tão cândido pudesse ser tão concupiscente. Seus olhos, sua boca, e até mesmo o jeito que se movia exalavam uma lascívia que me parecia quase venenosa, tamanha a influência que exercia sobre mim.

Os primeiros meses passaram bem depressa, e a minha rotina como um noturno fora, aos poucos, se estabilizando; quatro noites na semana saía para caçar, nas outras três permanecia no castelo e me alimentava do rebanho de Natalie. Ela e Eva, por sua vez, se empenhavam em sanar todas as minhas dúvidas acerca desse novo mundo, ensinar-me como me comportar e até mesmo preencher o imenso vazio que os anos de reclusão haviam deixado em minha mente. Rapidamente eu me tornava, enfim, alguém – ainda que tenha sido necessária a morte para isto acontecer, pois em vida sempre fora medíocre.

Lia de tudo: matemática, ciências, filosofia. Eva ensinava-me um pouco de gramática e línguas. Em pouco tempo já sabia latim, francês, alemão, russo e italiano, além de inglês, claro. Era incrível a minha capacidade de assimilação que, mais tarde a pequena me dissera, ser decorrente da minha nova condição. Não sei por que, mas tal revelação não me fez muito bem: teria sido melhor continuar pensando que tamanho talento fosse algo único e somente meu.

Natalie inteirava-me sobre minhas novas capacidades, falava sobre nossa raça, nossa família e sobre os demais também. Ensinava-me tudo o que sabia, e logo eu já achava natural utilizar o sangue que eu ingeria para executar tarefas humanamente impossíveis. Também aprendi a ser parcimonioso com minhas reservas, mas sempre conseguia bons resultados. Talvez essa fosse uma capacidade única, afinal: utilizar pouquíssimo sangue para efetuar feitos grandiosos.

– Não seja apressado, você tem todo o tempo do mundo para aprender. –  Era o bordão preferido de minha senhora, e eu sempre respondia-lhe com um sorriso cordial e uma breve reverência, mas continuava me dedicando a aprender o que quer que estivesse fazendo na hora. Não me lembro de uma única vez que Natalie me dissuadiu de aprender algo, e fico grato que ela nunca tenha insistido que eu parasse: teríamos um grande problema se ela começasse a me podar demais, e a solução provavelmente não seria muito agradavel para mim.

Os anos se passaram, demasiadamente ligeiros, e eu me tornava mais poderoso e inteligente. Cada vez mais cientes de minhas capacidades, dos meus limites, que pareciam inexistir. Logo éramos como uma pequena família: eu, Natalie e Eva, nossa pequena -embora eu fosse o mais criança dos três, era ela que desempenhava o papel de filha.

A companhia delas me confortava, me fazia mais forte e mais feliz. E seria duradoura. Seria eterna! Inquebrantável, imutável, perene.

A conversa sobre ‘ética vampírica’ que tivemos fora bastante tardia, creio. Completava uma década que eu  caminhava sobre esta terra como um noturno quando indaguei à minha Senhora sobre o fato de beber de humanos. Ela riu.

– Ora, meu amor, pensei que tivesse entendido esta questão por si só, mas vejo que me enganei.

Ela acomodara-se no braço da poltrona que eu estava sentado e roçou os dedos pela minha tez e cabelos, acariciando-me, e quando voltou a falar, a boca ainda contorcida naquele sorriso que eu tanto apreciava, havia algo que beirava a doçura em sua voz.

– Você é sensato o suficiente para perceber que nem todos os vampiros são maus, isso eu vejo claramente. Embora intrinsecamente a nossa raça seja, sim, maligna. Predadores da noite, criaturas humanóides dotadas de presas, habilidades sobre-humanas e uma sede insaciável de sangue. Certamente não podemos ser bem vistos aos olhos de Deus, se é que Ele exista. Não somos mais humanos, mas uma coisa é certa, Adrian: o livre arbítrio permanece. Você só será considerado um demônio inescrupuloso e cruel se desejar sê-lo. E esta é uma escolha inteiramente sua. Sempre foi. Nem mesmo eu, como sua criadora, poderei me interpor entre você e o caminho que escolher.

Quando abri a boca para dizer algo ela ergueu a mão pedindo silêncio. O gesto autoritário, mas bastante gracioso e belo que ela sempre usava quando não queria ser interrompida.

– Em contrapartida, você pode viver mil anos se alimentando de sangue humano sem tirar uma única vida. Caçando apenas para se alimentar, sem sugar a sua essência por completo. Você não precisa carregar sobre os ombros o peso de um assassinato, se esta não for a sua vontade. Embora, na minha opnião, não faça diferença alguma, uma vez que acredito que não haja julgamento, condenação ou absolvição para criaturas como nós. Nossa única penitência é também a nossa maior dádiva: a eternidade.

As imagens dos rostos de Mikhail e seu bando formaram-se em minha memória. Lembrei-me dos maus tratos que sofri em suas mãos, e antes que pudesse perguntar, embora já soubesse a resposta, ela falou novamente:

– Humanos podres se tornam vampiros podres, Adrian. Há também aqueles que se estragam quando percebem que o medo de pecar em vida era apenas um artifício para refrear os seus impulsos mais doentios e profanos. Hipócritas. Estes são os piores, pois enquanto mortais viveram em uma realidade mentirosa, e na condição de imortais simplesmente a distorcem e manipulam da maneira que melhor se adeque aos seus ansios. Estes, Adrian, estão fadados à mediocridade eterna, pois existem apenas para povoar o mundo com suas existencias vazias e sem sentido real. Você vai perceber que este tipo de humano geralmente não é transformado, devido aos critérios que adotamos antes de escolher uma nova cria, e os que são não duram muito tempo. Alguns vampiros mais antigos não são muito tolerantes com neofitos inconsequentes, especialmente entre as três famílias principais.

Aquela talvez tenha sido a conversa mais proveitosa que tive com Natalie até então. Não me recordo de nenhuma com tamanha vivacidade e precisão, portanto, julgo que nenhuma me foi tão marcante quanto aquela. Exceto a que tivemos na minha primeira noite, quando estávamos indo para o meu banquete, mas dessa eu guardo somente a essência, e as palavras exatas empregadas por ela me fogem, como quando tento agarrar um punhado de fumaça que espirala diante de meus olhos. Apenas memórias desbotadas de um passado distante.

– Você é um vampiro nobre agora, Adrian. Um Vox Regius, e deve comportar-se como tal. Nós fazemos parte da elite, somos realeza dentre as três principais famílias de vampiros, e todos os que nos rodeiam devem se prostrar como que diante de reis. Caso não o façam, quebrem-lhes os joelhos, pois um rei não precisa de servos subversivos. Você pode ser benevolente sem parecer tolo, entende o que eu digo?

– Sim.

– A partir de hoje, até a sua eventual e definitiva morte -se é que ela virá-, você vai se alimentar apenas de um tipo de sangue: isto é o que nós, os Vox Regius, chamamos de Orgulho Real. É uma tradição de nossa família. Escolha o tipo de presa que mais o apetece, mas escolha bem, pois uma vez que os seus lábios tocarem o sangue eleito, o contrato de sangue será selado e você nunca mais poderá se desvinculhar do enlace.

Optei por algo bastante genérico, porém eficaz: bebo apenas de mulheres que querem viver. Alimento-me, além de seu sangue, de suas esperanças, desespero e dor. Sejam elas negras, ruivas ou loiras, ou que possuam olhos azuis, verdes ou negros como o céu noturno. Não importa, desde que anseiem pela vida, desde que sejam humanas e possam sentir, que chorem com a possibilidade da morte iminente, que clamem por misericórdia e que fiquem agradecidas no desfecho, quando as liberto do abraço. Além do sangue, o que elas têm a me oferecer, uma humanidade que nunca mais possuirei, é o suficiente para saciar minha sede.

As outras tradições da família foram-me ministradas com parcimônia, aqui e ali, soltas de forma quase displicente, enquanto ela explanava sobre qualquer outro assunto. A principio não entendia muito bem o motivo disto, mas hoje percebo que nem mesmo ela seguia à risca os tabus impostos pelos Antigos; não chegava a ser uma traidora do sangue, mas certamente não era o que os nossos semelhantes poderiam chamar de Fiel. Era apenas mais uma, embora para mim e para os que a conheciam de perto, fosse única.

Muitos invernos vieram e partiram, e eu já era um vampiro feito, experiente, mas não o suficiente, é claro. Nunca seria o suficiente. Nunca seria suficientemente forte, nem suficientemente capaz. Era algo que eu havia percebido muito facilmente: enquanto eu evoluía, todos os outros evoluíam também. Era o tempo, ele se encarregava de tudo; apurava ainda mais os sentidos, potencializava a força, exigia menos de nós em troca de feitos grandiosos. Muitos anos depois de eu começar a vagar pela noite, finalmente pude conhecer outros de nossa espécie. Além de Natalie e Eva, eu só conhecia os vampiros do bando de Mikhail, que definitivamente não se podia classificar como ‘vampiros decentes’. Se bem que, logo perceberia, ser decente era apenas uma questão de perspectiva.

Estávamos de passagem por Estocolmo, não passaríamos mais do que duas noites na cidade, mas logo chegou aos ouvidos de minha senhora que se realizaria um Soiree Macabre na Mansão do General, uma especie de sarau de vampiros. Não sei como ela descobriu isso, mas não me recordo de tê-la visto tão contente desde que a conhecera: trazia no rosto um enorme sorriso de felicidade, com a perspectiva de encontrar com antigos conhecidos e desfrutar da companhia de iguais. Confesso que me senti incomodado com tanta alegria, e creio que Eva tenha sentido o mesmo, pois observava tudo com o cenho franzido e os braços cruzados na frente do corpo, calada.

Pouquíssimo tempo depois, ela trajava um vestido vinho com bordados prateados e negros que era tão longo que arrastava no chão. As mangas longas terminavam em um pequeno corte triangular que cobriam as costas das mãos brancas e prendiam-se em torno do dedo médio. Um decote, obviamente bastante ousado para a época, deixava o seu colo exposto, onde descansava uma gargantilha de ouro branco cravejado com pequenos rubis. Em torno da cintura, um espartilho rubro e negro que parecia se fundir com o vestido e chegava até os seios, sustentando-lhes e deixando-os ainda mais empinados e convidativos. O rosto estava perfeito, como sempre, e a leve coloração rosada em sua pele indicava que ela já havia se alimentado. O sorriso ainda estava ali, enorme, emoldurado por cachos cuidadosamente desarrumados que caíam do coque apertado e elegante, e os olhos contornados por uma maquiagem mais escura, porém delicada, o que realçava ainda mais a cor amarelo-esverdeada dos mesmos.

– Você está linda! – Foi a única coisa que consegui dizer ao vê-la descer as escadas do hotel que estávamos hospedados. A maioria dos hospedes que estavam no saguão também pararam o que estavam fazendo para observá-la, mas a reação não demorou muito; logo todos eles já estavam entretidos novamente em seus afazeres, e eu a tinha só para mim. Sorri, tomando sua mão quando ela chegou à base da escadaria e dando um beijo breve nos nós de seus dedos. No segundo seguinte, busquei sua boca, enlaçando o braço ao redor da cintura e arrancando-lhe um beijo apaixonado. Atraímos os olhares de alguns outros hospedes: as mulheres nos olhavam com censura, e os homens, com cobiça. Mas nem eu nem ela, nos importamos. Quando a soltei, ela parecia ainda mais corada e sorridente. – Você é a única mulher que eu conheço que consegue parecer uma deusa mesmo tendo pouco mais de meia hora para se aprontar.

– Isso por que não sou uma mulher qualquer, Adrian.

– Sei que não, minha senhora. Digo apenas que  você consegues se fazer estonteante em qualquer situação.

Ela riu, mas não respondeu.

A morada do General era, definitivamente, suntuosa, embora não possa dizer que mais imponente do que o castelo que até então nos servia de abrigo: era uma mansão bela, branca, com enormes portas e janelas em arcos. O jardim que rodeava a propriedade era pontilhado de árvores, flores e esculturas de mármore. Uma enorme fonte que retratava sete ninfas banhando-se nuas, cobertas apenas com eventuais pedaços de tecido, erguia-se bem diante das portas do palacete. Portas de folhas duplas, enormes, escancaradas para fora, dispostas a admitir a entrada de qualquer um que tivesse coragem suficiente, imortal ou não.

Eu nunca tinha visto tantos vampiros reunidos em um só lugar antes. Havia dezenas! Uma musica suave ecoava pelo ambiente, vinda de algum lugar à direita da entrada principal, onde alguns músicos mortais tocavam letargicamente, como se a ponto de cair, adormecidos, do pulpito. Acho que estavam hipnotizados, e tenho certeza que estavam exaustos. Pelo enorme saguão, aqui e ali, pontilhava algumas rodinhas de imortais que pareciam demasiado entretidos para notar a nossa chegada.

– Bastante indiferentes a estranhos. – Comentei, já que esperava que muitos virassem o rosto ao perceber três vampiros desconhecidos adentrando o tal Soiree Macabre. Mas fora muito diferente. Eva confirmou com a cabeça, mas Natalie pareceu não ouvir a minha observação, pois virara o rosto e cravara os olhos em um imortal alguns metros adiante.

Estava recostado displicentemente num divã de madeira desbotada e tinha os cabelos ruivos, alguns dedos abaixo dos ombros largos. Eram levemente ondulados e caiam ao redor de seu rosto branco como cortinas, emoldurando os olhos de um azul profundo e faiscante. A boca estava arqueada em um sorriso, revelando dentes muito brancos e alinhados, e a mão direita estava pousada sobre as coxas de uma das inúmeras mortais que o rodeava. As moças lançavam-lhe olhares de admiração e desejo, enquanto absorviam cada palavra que ele dizia. Riram juntos, todos eles, e foi então que o vampiro virou rapidamente o rosto em nossa direção, como se atraído por um magnetismo inexplicável. Sorriu largo e piscou para Natalie, que retribuiu o cumprimento com um pequeno aceno de cabeça.

– Quem é ele?

– Um amigo. – Respondeu ela enquanto o rapaz desvencilhava-se dos braços das moças e se erguia. Era uma cabeça mais alto do que eu e usava uma bengala de madeira negra e brilhante, embora não mancasse. Com a mão livre, jogou os cabelos para trás e se aproximou. Movia-se de forma destra e graciosa, etérea. Se não fosse um vampiro, com certeza seria arrebatado com a imponência daquela criatura, mas naquela situação a única coisa que eu conseguia sentir era uma desconfiança causticante e avassaladora!

Tenho certeza que Eva se sentia da mesma forma, pois quanto mais ele se aproximava, mais ela apertava os dedos em torno dos meus.

– Alexia! – Exclamou ele, abrindo os braços e inclinando a cabeça para frente. Os cabelos deslizaram, ocultando os olhos frios. Natalie deu dois passos, o abraçou, e o vampiro lançou-nos um olhar malicioso por cima do ombro de nossa Senhora, enquanto acariciava os cabelos dela. Senti-me ao mesmo tempo confuso e irado.

– Sabe que ninguém mais me chama assim… Sou Natalie, agora.

– Mas eu prefiro Alexia! – Disse, largando-a e piscando de forma lasciva. Eva estava a ponto de esmagar meus dedos. – Você está linda!

– Eu sei.

Ele não disse nada a respeito do comentário, apenas sorriu e assentiu. Deslizou uma mão pelo braço de Natalie, até encontrar a dela e levá-la aos lábios, dando um beijo cortês, mas que me eriçou muito mais do que se ele a tivesse agarrado e despido na frente de todos ali presentes. Limpei a garganta em um claro gesto de aviso, que Natalie captou imediatamente.

– Ah, Ashtaroth, essas são as minhas crias… – Disse ela, voltando a si e percebendo a expressão perigosa que havia em ambas as faces. A de Eva muito menos sutil que a minha, e por um ínfimo segundo me pareceu que Natalie nos olhara com olhos de quem se desculpa. Mas a sensação fora ligeira, e quando a fitei novamente consegui vislumbrar apenas a enorme muralha de arrogância e desdém de sempre.

Duas crias? – Perguntou ele, erguendo as sobrancelhas para Natalie. Ela fez um gesto de descaso com a mão que ele acabara de beijar. Ele pareceu deliciado por um motivo que me era alheio até então. O fato é que, seguindo as tradições da família, um Vox Regius só pode fazer um novo vampiro durante toda a sua existencia. Eu só saberia o motivo do espanto de Ashtaroth, bem como as consequencias daquela transgressão de Natalie, anos mais tarde. – Sou avô, então? Que felicidade! – entoou, cínico, abrindo os braços e nos abraçando rapidamente. Eva parecia tão estarrecida quanto eu.

Não tinha como eu saber, mas naquela ocasião eu conhecera alguém que nos anos posteriores seria tão presente em minha vida como Eva e Natalie eram agora. Quando eu as deixasse… Quando ele me seduzisse para segui-lo, abandonando quem eu tanto amava em troca de um mundo de possibilidades e de nenhuma certeza a não ser a solidão. A tão temível e desesperadora solidão. Mas como poderia eu saber?

Naquela noite, ao invés da afeição que eu aprenderia a nutrir por ele, a única coisa que queimava as minhas entranhas era o ciúme e a desconfiança.

– Ashtaroth! – Chamou uma voz aveludada, fazendo todos os presentes virarem-se para vislumbrar a nova figura que chegara ao local: era uma vampira loira, esguia e altiva que parecia tão jovem quanto Eva. Os olhos, enormes e expressivos, fixavam-se na criatura a quem ela havia chamado segundos antes, enquanto descia as escadarias duplas da mansão, a mão enluvada elegantemente pousada no corrimão.

Percebi na mesma hora de quem se tratava.

– O General? – Sussurrei confuso para Eva, e ela concordou, explicando-me:

– Sim. Trata-se de um título livre de gênero. O soberano de uma cidade, seja ele macho ou fêmea, é chamado de General.

– Ah.

Quando a Senhora de Estocolmo estava apenas a três degraus do mesmo nível que os demais, ela parou. Ninguém falava ou sequer se mexia. Por algum motivo, ela instigava uma espécie de temerosidade avassaladora em cada um ali presente; exceto, aparentemente, ao seu interlocutor. Os olhos dela desviaram-se lentamente dele para o pequeno séquito que o acompanhava, e o sorriso que a vampira trazia nos labios pareceu estremecer, restabelecendo-se em uma fração de segundo.

– Charlotte, minha cara, que bom vê-la.

– É muita ousadia da sua parte trazer humanas para o meu Soiree Macabre! – Disse. Apesar da voz suave e baixa, os pelos da minha nuca eriçaram. Era medo?

– Ora, alteza! As portas do Soiree estão abertas para quem quiser entrar, não? Eu mesmo, sou um Vox Regius, assim como a minha cria e as crias dela, e mesmo assim estamos aqui para prestigiar a sua grandeza! Sem falar nos zumbis ali, que estão praticamente babando em cima dos instrumentos. – Apontou com o polegar, por cima do ombro, para os músicos.  

– Eu não me importo que vocês compareçam, ao contrário da maioria dos Ingenium, acredito que não deva perder tempo desprezando membros das outras famílias. Entretanto, os humanos que se aventuram em meus territórios não sobrevivem muito. Você sabe o quão perigoso é deixar que mortais tenham ciência de nossa existência. Eles podem entrar, mas sair de um evento como esse é algo fora de cogitação.

– Aaahn… – Começou Ashtaroth, dando alguns passos à frente. Todos ainda olhavam para a mulher, tendo conhecimento da presença dele apenas ao ouvir sua voz ou o som da bengala estalando no chão de madeira. – Bom, se não é do seu agrado, mate-as, então. – Havia uma despreocupação irrefutável em seu tom de voz. Charlotte arqueou os cantos dos lábios e balançou a cabeça afirmativamente. – Mas… seria realmente corajoso de sua parte privar um Deus de seu séquito de fiéis, não?

A mulher ergueu as sobrancelhas, escandalizada com a atitude do outro, e apertou o corrimão com força. A madeira trincou e rangeu em protesto. Todos os presentes viraram os rostos para Ashtaroth, inclusive Natalie, que o fitava boquiaberta, e sua comitiva de donzelas, que lhe devotava agora olhares de verdadeira adoração.

– Deus? Enlouqueceu de vez?

– A não ser, é claro, que a Senhora se dispa de seu orgulho… – Fez uma reverência rápida e continuou: – E desempenhe o papel de meu rebanho. Pelo que me lembro, enquanto humana este foi um dos seus mais ardorosos desejos, não foi? Jamais poderia esquecer daquela Festa dos Horrores, em que juntos enfurecemos a sua adorável criadora. Lembra da cara dela?

Alimento e adoração. Ele não precisou dizer mais nada. A presença do General agora era completamente ignorada, pois todos olhavam para o rapaz ruivo com assombro e, alguns, com admiração por sua audácia.  Ashtaroth abriu um enorme sorriso mordaz.

– As mortais ficam, então, ou terei o prazer de tê-la novamente ajoelhada diante de mim, Charlotte? Posso garantir que receberá um tratamento diferenciado. Em nome dos velhos tempos.

– NEM MAIS UMA PALAVRA, INSOLENTE!!! – Berrou ela. Uma janela lateral se estilhaçou, e o corrimão explodiu sob os seus dedos, atirando estilhaços de madeira ao redor.

– Não preciso de palavras para te fazer perder a cabeça, minha cara! – Piscou para ela, jogando os cabelos para trás e caminhando até a base da escada. Ofereceu a mão para ajudá-la a galgar os últimos degraus, mas fora completamente ignorado. – Vamos para um local mais reservado, para acertarmos os detalhes?

– Retire-se.

– Perdão?

– Retire-se! Agora. – Disse ela, incisiva. O sorriso de Ashtaroth se apagou no mesmo instante, e ele recolheu a mão. Bateu a bengala no chão e engoliu em seco, estreitando os olhos e fitando-a com desdém.

– As mortais ficam, então. Assim como eu. – Respondeu, fazendo a mulher piscar duas vezes, atordoada, e empertigar-se.

– Você é surdo? Eu mandei SAIR!

Ashtaroth fez um gesto desdenhoso com a mão e afastou-se, reunindo-se novamente junto de seu séquito de mulheres, que o receberam com suspiros e olhares acalorados, mas não ousaram tocá-lo. – Se não deseja a minha presença no seu arremedo de Festa dos Horrores, então venha e me expulse!

– Então que assim seja!

A mulher olhava-o com verdadeira fúria. De repente o ar se tornou mais denso, sufocante. Ela estalou os dedos, e no mesmo instante um urro bestial e ensurdecedor encheu a sala. Depois mais um, mais outro. As portas laterais se abriram com estrondo e seis vultos negros e altos irromperam dela, vagarosamente, arrastando-se e deixando para trás uma trilha gosmenta e mal cheirosa. Todos olhavam para aquelas criaturas com horror. Os humanos cobriram a boca e nariz, tentando não respirar o ar putrefato, mas não conseguiam desviar os olhos de tão horripilantes criaturas.

– Oh! – O sorriso já estava novamente no rosto de Ashtaroth, que agora analisava as criaturas com um ar de desinteresse. Eu não sabia do que se tratava, pois apesar de possuírem traços humanoides, aqueles seres estavam longe de qualquer homem que eu já tenha visto até então. – E você me critica por trazer mortais para o Soiree, hein?

>> continue a leitura em CAPÍTULO XI – BARGANHA 

>> Foto por Sebastian Pociecha no Unsplash