O som da música do celular rompeu o silêncio da madrugada. Rafael abriu os olhos sonolentos, os móveis empoeirados ao redor ganhavam forma conforme a melodia alegre aumentava de volume. O sofá de couro encardido, as prateleiras empenadas pelo excesso de livros e a cortina ao seu lado exibindo grandes manchas de mofo… Tsc. Contorceu o rosto, rabugento, lembrando-se vagarosamente da situação em que se encontrava. A gaita estridente parecia zombar da deterioração do lugar e, principalmente, zombava das suas noites mal-dormidas naquele apartamento. Moveu os olhos avermelhados para cima, observando o batente da janela, onde o celular tremia, e torceu para que desistissem logo da ligação.

Quando seu desejo foi atendido e o silêncio pairou no apartamento, sua consciência acordou por completo e em um sobressalto o moreno voltou sua atenção para o objeto reluzente do outro lado da sala. Assustados, os olhos castanhos buscavam qualquer alteração de posição desde a última vez que observara o cômodo. Nada, o baú cobreado continuava inerte sobre o piso tanto quanto os cadeados espalhados no local. Deixou-o exatamente como estava no momento em que Hans foi capturado, temeroso com o que aconteceria se o tocasse.

Esticou os membros espantando a dormência do corpo dolorido e se levantou, ainda observando atento os objetos que obviamente serviram de isca para capturá-los. Aproximou-se e seguiu o círculo que fez com as páginas de seu pequeno bloco de notas, cada folha exibindo um símbolo azul escuro desenhado às pressas no momento em que o susto passou. Não interessava o quão amador aqueles rabiscos à caneta aparentavam, Rafael confiava em sua eficiência para bloquear qualquer coisa que ousasse sair do baú. Portanto, não era por medo das sombras voltarem que desde o ocorrido o mago dormia sentado, no chão, com a luz acesa:

– Merda – xingou ao ouvir os acordes animados anunciando um novo chamado. O que ele realmente temia era o questionamento do dono daquele telefonema, não poderia arriscar que descobrisse o que estava acontecendo. Uma reles ligação poderia ser evitada, mas o líder de seu grupo usava métodos muito particulares para obter uma resposta caso alguém quisesse ignorá-lo ao telefone. Uma boa noite de sono e todos os seus segredos poderiam ser revelados. Segurou o telefone e mordeu os lábios ao ler o nome que desconfiava que o procurava.

Precisava de um plano antes de respondê-lo, um bom plano e não um que envolvesse invadir a morada do General utilizando todos os recursos mágicos possíveis. Seria uma declaração de guerra não apenas aos vampiros da cidade, mas aos Cruentus e às famílias antigas, aos sanguessugas mais temíveis. Ninguém queria deixar mais hostil a inimizade dos magos contra essas criaturas, seria em vão argumentar sem o próprio Rafael estar convencido de que seria possível resgatar Hans sem colocar em risco tanta coisa. Passara o último dia entando elaborar qualquer plano cujo resultado seria diferente disso e nada lhe pareceu ser uma solução decente. Engoliu em seco, pesaroso e culpado ao ver o nome sumindo do visor. Novamente o apartamento estava em silêncio e Rafael apressou-se em mudar o perfil do toque do celular. Não queria saber se estavam procurando-o. Já sentia pressão o suficiente sem ser tentado a mentir para um mago que respeitava.

Olhou o próprio reflexo no vidro da janela, sentindo-se mais velho do que realmente era. A exaustão pareceu se materializar ao encarar os traços cansados de seu rosto, não demoraria muito para que cedesse a um sono profundo. Era ridículo, a experiência que adquirira ao longo dos anos não adiantou de nada para evitar uma isca tão óbvia. Seus argumentos foram ignorados por horas durante a viagem, tamanha teimosia que Hans tinha em desafiar a Ain Soph. Porque ele agia como um tolo toda vez que os objetos de Siegrified estavam em jogo?

Não entendia essa faceta de seu passado, parecia uma obsessão tanto quanto fora Ekaterina. Quando Augusto sugeriu chamá-la, todo o rancor pelas péssimas decisões de Hans veio à tona. Contudo após algumas horas digerindo aquela sugestão ele passou a considerar seriamente que talvez fosse a única solução para resgatar o amigo. Como entrar em contato com a assassina, porém, ainda era um problema. O brilho do celular lhe chamou a atenção, a coincidência o fez dar um sorriso triste. Antes de se quer falar algo, a voz do telefone já perguntava:

– Novidades? – tom de Augusto era um pouco mais alto que o normal e, pelo som de vento, Rafael desconfiou que ele estava dirigindo.

– O garoto ainda está vivo. – respondeu sem enrolação – Falou com seu contato?

– Sim, mas você não vai gostar…

O moreno ficou em silêncio imaginando o que faria o mago mais velho hesitar em falar mais detalhes. A essa altura, o que mais poderia ser pior? Ouviu um barulho de portão abrindo e só então Augusto continuou:

– Vou precisar levá-lo. Os inquisidores têm a cura.

– O quê?! – Rafael não conteve o tom ríspido e um palavrão. Mais uma sugestão polêmica para lidar. Detestava surpresas, se tinha um motivo para nunca querer ser líder era isso, resolver problemas inesperados o deixava maluco. Ao contrário de Hans e Augusto, era completamento averso à mudanças. Considerava esse papo de ter jogo de cintura uma desculpa esfarrapada de incompetentes. E agora lá estava ele cogitando a possibilidade de precisar da ajuda de dois inimigos declarados dos Magos. Merda:

– Rafael?

– E como você vai fazer isso sem ser morto? – questionou a contragosto. Há anos não vivia no Brasil e São Paulo tornara-se uma cidade cada vez mais difícil de visitar. Augusto sobrevivera ali e ainda conseguia fazer seu trabalho acompanhado de novatos. Rafael já começara a ligar os pontos, não era preciso ser muito esperto para concluir como o velhote sobrevivera tão bem ali. Ainda assim, ele insistiu em saber – Seu contato, é um inquisidor, não é?

O som de chave e porta se abrindo antedeceram a resposta indiferente do gaúcho:

– Preciso resolver algumas coisas agora, mas amanhã por volta de meio dia eu vou passar aí e conversamos.

A ligação foi cortada e Rafael se conteve para não jogar o celular longe. A sensação de impotência chegara ao seu limite e ele pensou em todas as possíveis consequências de ficar mais dias ali. Em como sua Ordem o expulsaria por mentir. Ou quanto tempo de vida Hans ainda teria… E foi no meio dessa confusão de pensamentos que finalmente se lembrou de uma magia que poderia ajudá-lo:

– Dane-se! – murmurou.

Ele se retirou-se da sala, abrindo e fechando as mãos compulsivamente, como se aquecesse os dedos atrofiados. Abriu a porta do quarto que Jonas se encontrava, a luminosidade do corredor iluminou o rosto do garoto adormecido e, então, ele hesitou.

Há anos, quando entrou no cômodo disposto a eliminar a criatura adormecida, não hesitou assim, não havia dúvidas sobre o certo e errado. Ele era jovem, cheio de ideias de como as pessoas deveriam se comportar, era um tolo radical. Lembrou-se das acusações que fizera a Hans na época, lembrou-se das respostas do mentor, e constatou que não se arrependia do que argumentou; ele não mudara de opinião, continuava não concordando com nada do que Hans fizera, contudo, entendia o porquê. Percebeu que estava apoiado no batente da mesma maneira hesitante que o amigo ficou quando terminaram de colocar Jonas na cama dias antes. Rafael ignorara o olhar melancólico, não tinha coragem de lhe perguntar o que estava pensando. Naqueles segundos, ficara nítido todo o desconforto que sentira ao entrar naquele apartamento. A lembrança do que Rafael fizera ainda o assombrava.

Seria hipocrisia chamá-la?

Respirou fundo e acendeu a luz. O certo e o errado ou a ética da Ordem não lhe interessavam agora, só queria que o amigo saísse das mãos de um Cruentus.

Jonas abriu os olhos lentamente e observou a aproximação de Rafael. Sua face e vestes não exibiam mais o suadouro excessivo de outrora, contudo as olheiras escuras e a pele pálida denunciavam que a fraqueza continuava. O mago tocou na testa febril e disse:

– Sua temperatura diminuiu. Melhora a noite, não é? – não esperou que a resposta do garoto se formasse, entregou-lhe a garrafa de água e forçou-o a beber. Observou o quarto repensando o que faria a seguir. – Eu…- crispou os lábios. Eu preciso do quarto, quase disse. Preciso achar algo dela. Afastou a garrafa de água. –  Você consegue tomar banho sozinho?

– Ahm, acho que sim. – Jonas murmurou, arqueando o corpo para se sentar. – Só acho que não vou conseguir comer.

Rafael assentiu com a cabeça. A última tentativa de alimentação provocara não apenas vômitos, mas o aumento da febre. Não estava disposto a provocar aquela reação agora, ele precisava usar o quarto imediatamente, depois poderia voltar a se preocupar com a saúde de Jonas. Ajudou-o a se levantar e acompanhou-o até o corredor. Percebendo que ele conseguiria se manter em pé sem ajuda, deixou-o caminhar sozinho no trajeto final até o banheiro.

Jonas fechou a porta do banheiro e o mago aguardou o som do chuveiro para voltar ao quarto. Observou a cama de casal, as cortinas, e as tábuas de madeira, respirou fundo torcendo para que houvesse qualquer resquício do que ele fizera há tantos anos. Tirou o tapete vagabundo postado em frente a janela e agaixou-se, olhando cauteloso as manchas discretas que o tecido acobertara sobre a madeira escura. Sentiu a textura de uma delas, era uma camada fraca, sutil demais para que pudesse aproveitá-la. Alguém se dera ao trabalho de limpar muito bem aquele piso… Rapidamente desistiu e voltou sua atenção para a janela, contudo antes mesmo de encostar em uma das venezianas, reparou que sua cor estava diferente de outrora, a pintura esverdeada cobrira a camada de metal escuro original. Levantou-se e olhou para a cama, não tinha certeza se era o mesmo móvel da outra vez que pisara ali, ele não se lembrava daquela cabeceira, mas tinha que tentar. Jogou os travesseiros no chão, retirou a coberta e o lençol, sem se ater a nada, ele mesmo havia trocado aqueles itens desde que Jonas dormira ali. No primeiro dia, trocou-os mais de uma vez em poucas horas, tamanha a quantidade de suor que saíra do garoto doente. O colchão, contudo, permanecera intocável. Ficou um tempo encarando a capa de proteção que o revestia, até que puxou o elástico de uma das extremidades murmurando:

– Por favor, tenha alguma coisa, por favor… – logo que o tecido amarronzado começou a expor a superfície florida do colchão Rafael soube que conseguira o que queria. O vermelho das gotas era tão vívido que parecia fresco e por alguns segundos o mago achou que sentia o cheiro do líquido sobrenatural que manchara o algodão. A sensação logo passou e ele se convenceu que era só uma lembrança.  Impossível que a fragância ainda estivesse presente, certo?

Seguiu o caminho que as gotas vermelhas faziam por todo o colchão a medida que o descobria. A determinação começara a se abalar pela culpa do ato covarde praticado há anos e ele hesitou ao chegar próximo ao centro, local em que a aglutinação de gotas virara uma enorme mancha disforme. Como ele fora um filho da puta radical. Se culpa tivesse cheiro, a sua teria exatamente aquele odor de sangue carbonizado que novamente achava que saía do colchão. Não precisava ver mais, era material suficiente o que tinha na sua frente. Tirou o canivete do bolso e cortou o tecido descoberto. A lâmina formou precisamente um quadrado na superfície; forçou-a uma segunda vez, mais fundo em cima da linha recém-traçada e puxou a camada de espuma. Sim, era possível que o sangue ainda exalava aquela peculiar fragrância, Rafael o sentia tão forte agora que temeu que o pedaço que puxara ainda estivesse úmido. Apertou-o e, para seu alívio, sentiu somente a espuma mais áspera que o seu normal, o sangue estava seco, mas na quantidade suficiente para fazer o que ele queria.

Afastou-se da cama e a empurrou até a parede da janela, ignorando se os vizinhos reclamariam do barulho. Precisava de espaço e não queria perder tempo. Abriu seu bloco de notas e começou a desenhar frenéticamente em vários papéis, um atrás do outro, a caneta porosa azul criando formas variadas em traços grossos. Arrancou as folhas uma a uma, oito no total e as espalhou ao seu redor, esticou o corpo e pegou novamente o pedaço espesso de espuma que retirara da cama. Ajoelhado, entoou as palavras, uma, duas, três vezes. Seis vezes. Somente na décima vez sentiu que todo o seu corpo acreditava que o que ele estava fazendo daria certo, a energia fluida espalhava-se por sua coluna, aquecendo seus membros até atingir as extremidades. Ele nunca vira essa energia como Hans e tanto outros magos enxergavam, mas sentia-a pulsante em seu corpo, revigorando-o e preenchendo as tatuagens de Salamandra em seus braços. Apertou a espuma que tinha em mãos e uma palavra indecifrável se formou em sua boca. Flácida e morna a textura parecia prestes a derreter e se fundir com seus dedos agora. Tirou facilmente um pedaço daquela massa e o colocou sobre um dos papéis.

Repetiu o ato para cada folha que o contornava, uma palavra para cada símbolo, seus braços ganhando peso como chumbo. Após o último papel, nada mais restara em suas mãos a não ser um líquido viscoso e escuro semelhante a tinta de urucum. Sentia com grande incômodo seu corpo repelindo aquela textura, sua pele parecia em chamas como se tentasse se defender do que cobria suas mãos, todo o calor da energia que iniciara aparentava ser sugado pela região tingida pelo líquido. Não era uma reação normal, mas Rafael não esperava menos de um sangue amaldiçoado. Torceu para que a incompatibilidade de energias não causasse ruído de comunicação e, trêmulo, uniu os dedos formando uma concha. Manteve essa forma ao levar as mãos aos lábios e sussurrou sua mensagem. 

>> continue a leitura em CAPÍTULO IX – ATRAÇÃO

>> Foto por: Kyle Johnson, Unsplash