“Doze minutos”

Pensou, sem parar de raspar o pedaço metálico na algema. Uma gota de suor escorreu pelo seu rosto. Agoniado por não poder limpá-la, respirou fundo e abriu os olhos. Privaram-no de muitas coisas nesse calabouço, mas a visão era a que mais lhe fazia falta. Dois dias e um pouco mais de oito horas observando basicamente esse maldito tecido roxo. Movimentou os pulsos presos e sorriu. Faltava pouco para se livrar das amarras.

“Talvez em dez minutos…”

Disse para si mesmo, concentrando-se em raspar o traço final da última letra no invólucro de ferro. Durante esse enfadonho período trancafiado, Hans Ackart dedicou-se a descobrir como escaparia daquele lugar. Refletiu sobre quem o capturou, quais seriam seus pontos fracos e como os exploraria para conseguir sair. Claro que ocasionalmente alguns questionamentos atrapalharam-no a elaborar essa fuga. Se perguntava o que Rafael planejava para tirá-lo dali, como o faria sem provocar uma guerra aberta contra os vampiros de São Paulo. E, o que mais lhe aflingia, pensava em como sua filha reagiria com sua ausência, justamente hoje haviam combinado de se encontrar para começarem a aproveitar  suas férias da escola. Era difícil ignorar as consequências de seu ato imprudente, entretanto não deixava a culpa apoderar-se de seus pensamentos, há anos concluíra que o remorso não era uma ferramenta útil para a resolução de um problema.

Que bem lhe traria pensar em possibilidades de um presente que não era o seu? Ou culpar-se por um passado que não podia voltar para consertar? O mago pensava no que poderia controlar agora, nesse instante: o seu próprio futuro. Ele precisava sair dali e só assim poderia voltar a influenciar diretamente o que acontecia ao seu grupo ou a sua criança. Respirou fundo e voltou a se concentrar na letra que terminava de esculpir. Passou o dedo indicador no entalhe áspero, assegurando se o traçado estava correto, antes de continuar. Fazia às cegas, apenas seguindo os arranhões da palavra que escreveu inicialmente na superfície escura.

Deixaram-no isolado nos últimos dias, nenhum imortal o visitou desde de sua captura. Esperava algum tipo de interrogatório, do tipo que envolvesse uma dolorosa humilhação para obter o máximo de informações possíveis, antes de o General não resistir mais ao cheiro de seu sangue e o dilacerar rapidamente. Não haveria outro procedimento para um ato tão ousado como o que fizera. Somente uma única justificativa lhe parecia crível para tanta demora em torturá-lo. Eles aguardavam uma ordem do dono da encomenda que tentou roubar, o General de Praga, Ashtaroth. Lembrou-se do sorriso asqueroso que ele dera quando Hans anunciara sua saída da Ain Soph, era um aviso silencioso que ele se arrependeria de largar sua pesquisa. Ou que ele o faria se arrepender. Imaginou o imortal adentrando o recinto, sua voz traiçoeira gabando-se que fora capturado tentando roubar o objeto que ele mesmo abandonara anos antes. Que merda. A ansiedade para fugir o fez acelerar a fricção com o metal. Faltava pouco agora.

Oito minutos era o que restava para um de seus carrascos entrar no recinto para lhe alimentar e reforçar suas amarras. Trinta minutos foi o que ele demorou para finalizar cada símbolo necessário para sua soltura. E em menos de um minuto finalizaria a base do “E”. Não interessava o quanto estava cansado, ele tinha certeza desses dados temporais. Hans tinha uma preciosa “habilidade” facilmente diagnosticada como um transtorno obssessivo pela contagem dos segundos, porém, ao contrário dos mundanos que enlouqueceriam com essa capacidade, o prisioneiro convive e tira proveito dela como se fosse o pulsar de seu coração.

Sentia seus dedos enfraquecidos pelas últimas duas horas totalmente dedicadas a esculpir na algema, mas as pontadas de cãimbra não o intimidavam. Mordeu o tecido fétido que lhe tampava a boca, excitado pelo desafio de escapar a tempo. Largou a lasca metálica e tocou como conseguia na algema. Os dedos tremulavam sobre a superfície fria e ele murmurou pausadamente. As palavras alemãs foram abafadas pela mordaça, o gosto de saliva velha do tecido amargava sua lingua, mas ele insistiu. Mordeu o tecido e falou entre dentes:

Zeit, Zeit. Die ‘neue’ wird zur ‘alten’. Zeit, Zeit. Eisen zu Rost *

O movimento dos dedos tornou-se vagaroso a medida que uma textura enrugada começava a preencher as lacunas das insígnias mágicas. Em alguns minutos, a ferrugem tomou conta do objeto e o mago ouviu um ruído. A algema rachou afrouxando seus pulsos.

Ele colocou o objeto no chão e rapidamente retirou as fitas que prendiam seus ombros ao peitoral. Levou a mão ao rosto, tateando a barba por fazer, e puxou sua mordaça. A fraca iluminação irritou sua vista quando tirou o véu, porém, sem hesitar e sem perder o sorriso, continuou a retirar as fitas roxas que o imobilizavam em pontos estratégicos.

Notou as tábuas escuras sobre seus pés, perfeitamente enceradas, elas refletiam a figura difusa de Ackart em meio a luz amarelada do pequeno cômodo. O calabouço lembrava um quarto de despensa de uma casa antiga: o teto era baixo e não havia janelas ou qualquer tipo de passagem de ar no local, as paredes de um branco fosco tinham painéis de madeira, pintada de mesma cor, formando seu acabamento na parte inferior.

Apoiou-se nos painéis amarelados e vagarosamente se levantou. Ignorou os músculos doendo e insistiu em caminhar desengonçado até a porta, o ouvido atento a qualquer barulho diferente das gotas de chuva. A ansiedade poderia lhe fazer errar a contagem, talvez estivesse adiantado ou atrasado. Um sorriso astuto se formou em seu rosto cansado. Não importava mais, o que interessava é que conseguiu se livrar antes do carrasco chegar:

– Faltam no máximo dois minutos – afirmou em um sussurro.

Agulhadas incomodaram sua nuca e o sorriso se desmanchou conforme a estranha pressão percorreu sua coluna. Desconfiado, tirou a mão que se apoiava na parede e fitou a pintura branca que a revestia. O General lhe privara da fala e da visão, entretanto o que fazia aquele calabouço eficiente não era aparente em sua superfície opaca. Ela, como um Cruentus Umbra, uma devoradora de sangue mago, sabia muito bem que conter os cinco sentidos de seu principal inimigo não era o suficiente. Já sentira aquela sensação anteriormente no calabouço, ocasionalmente o latejar em suas costas enfraquecia seus membros durante a noite lembrando-o que o local em que estava tinha um dono, ou melhor, uma dona, e ela poderia usar seu poder como bem entendesse em sua morada. Hans reconhecia a reação de seu corpo na presença de um poder vampírico dessa magnitude.

O barulho próximo a porta o despertou e uma nova expressão cínica se formou na face do alemão. A maçaneta girou e a robusta porta do cômodo rangeu. Hans esperou os primeiros passos de seu carrasco para, então, colocar rapidamente todo seu próprio peso contra a madeira escura. O corpo do vassalo bateu com força no arco e uma pequena bandeja tombou no chão. O sujeito quase caiu para fora da cela, mas o mago não deixou, puxou-o pela gola e o levou até uma das paredes do ambiente estreito:

– Shiuuu – seus lábios emitiram em um sopro. O pedido suave contrastava com a frieza violenta com que imobilizava o outro.

Pressionava a traquéia com o antebraço, aumentando a pressão com a outra mão, sua face animada encarava confiante a do humano assustado. Esse tentou se desvencilhar do prisioneiro, empurrando-o inutilmente; logo seus olhos fecharam e ele desmaiou. Hans o arrastou e retirou sapatos e meias, calçando-os em seguida. O acessório ficou largo em seu pé, entretanto era melhor que correr por aí descalço. Debochado, arqueou as sobrancelhas observando suas roupas. Estava ridículo, vestindo uma blusa surrada, um jeans imundo e calçando sapatos de brilho impecável.

Há quanto tempo ele não tomava banho? Isso também pululava por trás da expressão jovial, mas segurou a contagem de tempo que iniciara em sua mente quando viu o copo caído ao lado da bandeja metálica. Se pudesse ter algum luxo cotidiano agora, seria o de beber água, concluiu.

Molhou os lábios e espiou pela fresta da porta entreaberta: a falta do óculos limitava a visualização de detalhes mais a distância, contudo conseguia distinguir o desenho das portas que rompiam o suntuoso forro floral que cobria as paredes. Somou-as, eram cinco portas no pequeno ângulo de visão que observava, seria pelo menos o dobro no restante do túnel. Impossível achar tempo hábil para entrar de cômodo em cômodo para procurar qualquer coisa que serviria para defender-se do que enfrentaria em breve.

E se a caixa da Ain Soph estiver aqui?” se perguntou, os olhos avelã estreitando de curiosidade. Mordeu o lábio inferior rachado, se convencendo a esquecer de procurar a caixa verdadeira que Ashtaroth enviara. Sim, Hans tinha certeza que o maldito vampiro enviara alguma coisa importante para o General de São Paulo, se não era um item da Ain Soph, era algo digno de ser roubado. Contudo, não agora, agora sua prioridade era sair daquela casa.

Voltou-se para os itens esparramados e pegou o copo de plástico rígido. Não para beber as poucas gotas que sobraram, mas aquela matéria poderia lhe ser útil. Abriu a porta de sopetão e invadiu o corredor a passos acelerados.

O ar rarefeito confirmou que o General o prendera em um andar subterrâneo de sua mansão colonial. As portas passaram de pequenas a grandes e duplas, e Hans forçou a visão na parede ao final do corredor, frustrado pela ausência de uma escadaria. Diminuiu a corrida e molhou os lábios, nervoso por não achar alguma porta que indicasse a saída do andar. Parou subitamente. Uma delas estava entreaberta e o mago jurava que viu um lance de escadas em espiral, o destino estranhamente lhe presenteara? Não, antes que pudesse voltar para confirmar o que vira, Hans sentiu seus ombros serem agarrados e foi arrastado pelo corredor no sentido contrário ao que corria.

Ajustou o foco de sua visão para encarar o rosto pardo a poucos centímetros do seu. Viu os olhos castanhos, as enormes cicatrizes de varíola marcando a pele escura e, por último, os dentes amarelados. Recuou o rosto com a visão tão próxima dos enormes caninos expostos e prontos para abocanhá-lo caso quisesse. Não havia fúria na expressão do vampiro, apenas severidade, determinação para levá-lo rapidamente de volta a sua cela. Ele deveria ser o responsável por vigiar Hans e cumpriria seu dever sem lhe causar grandes danos. Os dedos frios tensionavam seus ombros, mas não o suficiente para conter o movimento dos braços do alemão. Talvez outro mago, confuso com o ataque repentino, não conseguisse se livrar do abraço. Contudo agir, sem pestanejar, era um hábito para Hans. Assim, rapidamente, ele desferiu o copo contra o peitoral do mestiço murmurando três palavras:

– Plastik. – Quando a primeira palavra terminou de ser murmurada o plástico do copo já havia derretido em um líquido transparente e borbulhante.

– Erdöl. – Quando a segunda foi enunciada, a mão de Hans alcançara o peitoral do vampiro e o objeto fervescente obteve uma tonalidade escura e espessa e, então, em menos de um segundo, clareou e ganhou rigidez entre seus dedos.

– Gebein. – Antes que o vampiro pudesse esboçar qualquer reação à finalização do feitiço, as lanças esbranquiçadas e pontiagudas perfuraram sua carne.

Hans ignorou o rosnado furioso que o vampiro emitiu e continuou a pressionar a arma recém-criada. Sentiu os espetos recém moldados rasgando os músculos do peitoral do inimigo até que uma pancada atingiu seu rosto.

Foi sua vez de urrar. A dor no nariz espalhou-se por toda a face enquanto seu corpo era jogado longe com a força do soco desferido. O sangue já inundava suas narinas quando ele caiu em um baque surdo no chão. Confuso com o nocaute, levantou-se cambaleante e encarou a forma inquieta postada alguns metros a frente. Sua visão defeituosa não lhe permitia ver exatamente o que o vampiro fazia, mas julgando os sons e movimentos de sua silhueta desfocada, ele tentava tirar os espetos fincados em seu peito. Sua voz raivosa ecoou no corredor:

– É melhor “cê” voltar agora pra cela, seu merda. – dita em uma entonação mais acelerada e informal do que o português que estava habituado a falar, Hans estranhou a frase. Porém, independente da língua que o vampiro falasse, a entonação da sentença deixara era evidente que ele não pouparia sua vida por muito tempo caso o alemão continuasse a “passear” pelo corredor. Antes que elaborasse qualquer reação a ameaça, um estranho olor chamou sua atenção. Carne putrefata? O cheiro provocou ardor em suas vias respiratórias e uma náusea tomou conta de seu estômago. Observou o que restara da arma em sua mão, já sabia pela leveza que a massa disforme se rompera quando foi afastado com o soco. Ele moldara quatro pontas de osso entre seus dedos e só restava consigo a base de duas dessas pontas, o resto ficara dentro do corpo do inimigo. Essas que restaram, exibiam os resquícios do ferimento: respingos negros e densos escorriam pela superfíe amarelada. Não tinham a cor rubra que ele esperava, o sangue que saíra do vampiro era muito mais escuro . E fedia como um cadáver em putrefação:

– Um… Labyrs? – Hans murmurou lembrando-se da criatura animalesca que o dominara ferozmente na presença do General. Quando o vira anteriormente, não tinha certeza se era um cão sobre o efeito de sangue vampírico ou algum tipo de ilusão criada por um súdito. Não passou pela sua cabeça que a criatura poderia ser um Labyrs. Os boatos é que estavam extintos depois da revolta contra a família que os humilhava. A cor e o cheiro peculiares, a forma animalesca… Sorriu. Quais eram a chances dele encontrar uma criatura dessas acompanhando um General na Europa? Caralho, que azar – Você é aquela criat… ahm, aquele cão, não é? Bosco?

Perguntou em um português perfeito. A resposta foi um tilintar contra o chão e Hans logo imaginou que o “cão de guarda”, conseguira retirar os pedaços cravados em seu peito. O alemão olhou de relance as portas ao redor e constatou que estava mais próximo de sua cela do que gostaria, rapidamente Bosco poderia trancafiá-lo lá novamente. Fitou a porta entreaberta à esquerda, a que achou ter visto uma escadaria, estava a apenas alguns passos a frente, justamente no caminho entre ele e o imortal. A melhor chance dele sair dali agora seria tentar entrar naquela sala, sem pestanejar, sabia que o vampiro não tinha permissão para matá-lo; vigiá-lo nessa forma humanóide era praticamente um atestado de que Bosco não passava de um guarda de sua cela e não seu carrasco. Transformado na besta que vira anteriormente, sua força e velocidade seriam descomunais, a probabilidade de matá-lo com uma abocanhada seria enorme, especialmente considerando o estado débil que Hans se encontrava após ser trancafiado:

– Minha Senhora mandou não te matar. Não estragar o teu coração. – A voz áspera, grossa, de Bosco ecoava sem esforço no corredor, ele não precisava gritar para intimidar seu opononente. Faladas pausadamente, cada palavra demonstravam um tom que prometia sofrimento. Hans não esperou que ele terminasse a nova ameaça, começou a correr em direção a sala que esperava ter uma saída para o andar superior. – Mas quebrar a tua cara, pernas e braços eu posso. E faço isso da próxima vez que me chamar de cão, seu merda.

A advertência ecoou pelo corredor enquanto o alemão alcançava a sala. Viu de relance que Bosco começara a movimentar-se para enfrentá-lo, mas quando alcançou seu objetivo e tocou a maçaneta da porta, não vislumbrou mais a forma robusta do mulato no túnel.

O mago se preparou para o ataque iminente, acreditando que Bosco o alcançaria com grande velocidade, concentrou-se em colocar toda a sua força no ato de fechar a porta. As palavras para entoar uma magia que impedisse Bosco de interromper sua entrada arco já se formaram em sua mente, porém, conseguiu levar a porta de encontro ao arco sem dificuldade. Enquanto trancava-a, nenhum baque atingiu a madeira, nenhuma fala furiosa veio do corredor. Nada indicava que o mulato o seguira. O som da tempestade o fez piscar e a estranha sensação percorreu sua coluna novamente. Ele soltou a maçaneta, não ousando lançar nenhum feitiço que despertasse a atenção do General. Se virou, ansioso para finalmente encarar a escadaria, contudo ela não estava lá.

A parede era completamente diferente do forro pomposo que decorava o corredor. Formada por pedras enormes e irregulares, essas sim pareciam ser de um calabouço de verdade. Os olhos avelã encaravam os itens que preenchiam o lugar: estantes abarrotadas de livros, quadros espalhados por uma mesa, jarros de cores variadas e caixas. Muitas e muitas caixas de diferentes materiais e tamanhos diversificados. Não, isso não parecia um calabouço, lembrava-lhe na verdade o interior de um castelo medieval. Um depósito de itens raros.

Andou vagarosamente pelo cômodo, notando como a luz lhe parecia estranhamente quente e acolhedora, como de uma lareira, mesmo ele sabendo que o lugar era iluminado por uma luz de… teto? Não, não havia luz de teto alguma, a iluminação era proveniente de lamparinas espalhadas pelas superfícies. Ele reconheceu aquele lugar. O cheiro úmido e a frieza das pedras envolveram seus sentidos, os ruídos da tempestade agora lhe pareciam mais os de rajadas de neve castigando as torres (torres?) do castelo. A lança estava ali. Alguma dessas caixas guardava a lança.

“Todas tem um objeto proibido, não é Siegfried?” uma frase veio em sua mente, emitida por sua própria voz, há muitos anos. Um gosto amargo espalhou-se por sua boca, exatamente como acontecera quando ele constatara aquela verdade anteriormente, há muito tempo. Havia algo errado.

O som das rajadas gradativamente diminuía e ele pôde ouvir risinhos infantis. Oh, não. Mordeu o lábio inferior concentrando-se para não pensar nas lembranças referentes àquelas calorosas risadas. Automaticamente pensou em outra coisa e uma voz suave ecoou no ambiente:

– Dr. Hans Ackart, você realmente adora uma confusão…

A frase o fez arregalar os olhos. “Péssima escolha, Hans” pensou, enquanto fitava de canto de olho uma criatura ganhando forma próxima a parede. Ou já estava lá antes? Não, ganhava forma, seus contornos não eram nítidos como os demais objetos do lugar. “Pensei rápido demais para se formar completamente, não é?” . Virou-se e se aproximou sem medo, a adrenalina pela corrida até aqui não conseguia mais mantê-lo imune ao cansaço ou à frustração e ele simplesmente deixou-se levar para poder vislumbrá-la novamente. Os braços da criatura estavam cruzados delineando o volume dos seios e a curva dos quadris, as vestimentas eram escuras e cobriam-lhe toda a pele, qual tecido ou qual costura elas tinham, ele não conseguia distinguir. O cabelo escondia seus olhos, o nariz e a boca não correspondiam a realidade, pertenceriam a qualquer mulher que passara por ele na rua, mas era assustadora a semelhança do formato do rosto oval que destacava o maxilar ossudo e as bochechas carnudas. Tocou em uma das longas mexas negras que caíam sobre o ombro, a textura impecável do cabelo, exatamente como se lembrava, o surpreendeu:

– Incrível essa habilidade, vampiro. – ele murmurou buscando rastros de magias nos fios de cabelo. O filho da puta não deixava resquício algum de sua manipulação – se eu quisesse, eu conseguiria até ter um orgasmo com ela, não é?

Subitamente, Hans puxou forte a mexa que segurava e sentiu a poderosa e detestável energia vampírica moldando-se a sua pele, escorria fria e pegajosa por seus dedos. Não precisou entoar nada, aquele breve contato fora o sufciente para que seu corpo reagisse liberando uma energia completamente oposta a de todo o ambiente. Por breves segundos ele sentiu os objetos, a luz, os aromas e a umidade e entendeu as breves impressões que o ilusionista teve com o pouco que conseguiu roubar de sua mente. As caixas e as lamparinas chacoalhavam agora, obedecendo-o:

– Uou, isso sim é incrível – O mago ouviu alguém falando atrás de si. A voz masculina era tão audível em relação ao chacoalhar dos objetos, que Hans teve certeza que fora a primeira coisa real que vivenciou desde que pisara ali. Virou-se usando toda sua mágica para jogar os objetos no inimigo. Porém, antes mesmo que ele pudesse vislumbrar o vampiro, os objetos explodiram no ar em cristais de gelo, o ambiente ganhando uma cor mais e mais branca enquanto seu corpo involuntariamente era jogado até a parede. A medida que o rosto era comprimido contra a superfície, as pedras se desmanchavam ao seu redor ganhando um tom branco e fosco similar ao calabouço de outrora. 

– E não, pelo visto, você explodiria a garota antes de conseguir tirar a roupa dela, hehehe – ouviu, o tom de voz cada vez mais perto. O vampiro girou vagarosamente o corpo do mago e Hans gemeu de dor, não por ter se machucado ao bater contra a parede, mas por sentir a sincronia com o ambiente abandonando-o, a matéria desmanchando-se e voltando para o seu dono original.

Encarou o imortal e reconheceu suas feições. Era um dos Vox que Ashtaroth enviou ao Brasil. Seu nome era Adrian? Os lábios do rapaz esboçavam um sorriso indecifrável. Não parecia apenas se divertir por ter subjugado o mago, os olhos verdes se estreitando revelavam que ele tentava mapear sua mente.

Apesar de fraco, Ackart estava consciente o suficiente para trancafiar suas memórias, confiava que o inimigo não conseguiria tirar mais nenhuma informação de sua mente. Tudo o que ele usara até agora eram sensações muito superficiais do que o mago pensara desde que estivera preso. Anteriormente o ilusionista buscara uma referência direta no que Hans pensara ao sair do quarto. Ele lembrou da lança quando saiu, a lança naturalmente ligava-o a Ain Soph, ao seu almejado depósito de mistérios, aos dias que ele passava confinado naquele castelo gélido estudando e fazendo experimentos enquanto a neve caía incessantemente, isolando-o do mundo. A neve, o inverno, lembrava-lhe dos dias que sua criança aprendera a dar seus primeiros passos. Mas isso o ilusionista não conseguiu roubar, não é? Era íntimo demais. Se conseguisse fazer uma ilusão com algo importante, o rosto da figura teria se formado nitidamente quando pensou na amante para proteger a existência de sua filha:

– Às vezes acho que é uma tradição idiota dos Regius… tentar ler a mente de alguém prendendo-o à parede? – ousou debochar, a voz soou tão fraca que ele mesmo mal pôde ouvi-la. Pigarreou forçando a garganta seca para falar mais alto – A eternidade inteira em mãos e nenhuma criatividade contra suas vítimas…

– Talvez não sejamos criativos mesmo, não sei se tem como competir com a criatividade que os Cruentus tem quando capturam um inimigo como você. Da sua “espécie”. – Adrian criou aspas no ar e se aproximou, a expressão jovial e sorridente provocava calafrios em Hans. Encostou a mão no peito do mago – Você só consegue imaginar como seria, não consegue realmente saber como é ter o seu coração arrancado do peito enquanto ainda bate. Não sei, mas imagino que por alguns segundos você permaneça vivo, pelo menos até ver os lábios do vampiro tocando o que bombeava sangue pelo seu corpo. Imagine o quão aterrorizante deve ser, saber que em um piscar de olhos você vai estar morto. Que você é apenas a refeição de um vampiro que, com a força que seu sangue proverá, ele ceifará dezenas, centenas de vidas. Imagine o quão doloroso deve ser. Pelo menos acabaria rápido, eu acho… mas vocês magos, devem acreditar em um tipo de vida após a morte, não? A sua seria amarga, pode apostar, por saber que o seu sangue trouxe tanta dor…

Atônito com as falas, Hans observou-o tirar a pressão sobre seu peito levando os dedos na altura dos próprios olhos, como se seu coração estivesse ali. A expressão repleta de maldade não se manteve, virou asco e confirmou o boato entre os magos que a maioria dos Vox Regius detestavam sangue mágico:

– Hehehe, a minha criatividade depende inteiramente de você. Acho que serei uma companhia melhor que a daquele Labyrs lá fora, não é? Podemos passar bons momentos juntos, se você estiver disposto a cooperar. Venho de peito aberto – hehe, desculpe, não resisti – e peço que você me… divirta. Quem sabe em troca, eu possa convencer o General que já chega de corações por esse ano? Quem sabe eu consiga um pouco de… tempo, para você?

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