Adrian calou; não havia mais nada para contar. Nicole tinha pedido que ele contasse como fora criado, e fora isso o que ele fizera. Não se estendeu demais, pois era doloroso lembrar daquela época. A mulher, que agora estava sentada na cama, os braços segurando um lençol de seda que lhe cobria a parte frontal do corpo, permaneceu muda. Os olhos que olhavam para Adrian não demonstravam o costumeiro ar de arrogância e lascívia, mas pena.

– Não me olha assim! – Pediu.

– Assim como?

– Assim, com pena. – Disse o vampiro, jogando as pernas para fora da cama e sentando-se no colchão.

– Desculpa… – Pediu ela, sabia, não por olhá-lo penalizada, mas por ter pedido que contasse a sua história. Ele não respondeu. Levantou-se, completamente despido, e foi até o aparador encostado na parede oposta e fingindo que remexia em alguma coisa nos seus pertences, mas seus olhos não prestavam atenção em nada.

– Você viu Roxanne depois disso?

– Não…

– Nenhum deles?

– Não.

– Como eram seus nomes?

– Você não precisa saber.

– Estou requisitando uma informação na condição de General que o acolheu, Adrian. – Disse ela, assumindo rapidamente uma postura autoritária e ríspida. Arrependeu-se no instante seguinte, mas sabia que era tarde demais.

– O que te faz pensar que pode me dar ordens? – Virou-se, as sobrancelhas alteadas. – Já disse para você maneirar na arrogância, por que sabe que eu não sou seu lacaio! Se você quer alguma coisa de mim, peça com educação…

– Eu já pedi, mas você não disse!

– Por que não quis! – Retrucou, quase gritando. A voz tremia, embargada. – Então respeite a minha decisão e cale a boca! Já fiz muito te contando minha história!

Num instante Nicole estava sentada na cama, a cabeça inclinada e o olhar mortificado, e no outro já estava sobre Adrian, prendendo-o na parede com a mão em sua garganta, a expressão completamente diferente da anterior. Seus olhos não mais expressavam piedade.

– Controle a sua língua, moleque! Posso ser benevolente contigo, mas não exceda os limites: o meu orgulho está acima do meu amor, então esteja bem ciente de que você arcará com as consequências da próxima vez que for ríspido comigo!

Adrian, apesar de sentir medo, não desviou o olhar insolente um segundo sequer. Ficaram se encarando por um minuto, ele suspenso alguns centímetros do chão, até que ela resolveu livrá-lo do aperto. Em resposta, ele desviou-se, interrompendo o contato visual. Ela voltou para a cama, calada, e o observou catar as peças de roupa e se dirigir à saída de seus aposentos. Adrian, ao chegar à porta, olhou por sobre o ombro, mas Nicole não o olhava de volta.

Ele saiu, batendo a porta atrás de si, e ela chorou.

 

xxx

 

– Que história é essa de que vamos passar três meses nessa cidade imunda?

Fora a primeira coisa que Adrian ouviu quando abriu as portas dos aposentos. Sabia quem era, reconhecera aquele tom de voz irritado e autoritário antes mesmo de ver a face branca e emoldurada por longas madeixas douradas. Suspirou, resignado, fechando a porta atrás de si e preparando-se para mais uma discussão.

– Boa noite para você também, Juls…

Juliet ergueu as sobrancelhas para Adrian e não respondeu. Estava sentada no parapeito da janela, os braços cruzados e os lábios crispados de maneira que só se via um risco vermelho no lugar da boca. Adrian caminhou um pouco para o lado e se sentou na cama de dossel que havia sido preparada para ela, encarando-a, e disse:

– Olha, Juls, eu sei que não estava nos planos…

– Não estava! A essa hora deveríamos estar a caminho de Budapeste…

– Já disse que sei! – Disse ele, fechando os olhos e tentando controlar a impaciência. Entendia o lado dela, mas ele tinha que fazê-la perceber a importância daquele reencontro, e o quanto ela poderia aprender na companhia de outros vampiros, da corte de Nicole.

– Você sempre faz isso, sempre! É tão imprevisível e irritante! Estava tudo acertado: iríamos entregar o maldito pacote para o General daqui e voltar, mas agora que você percebeu que o tal General é uma antiga namorada inventa de ficar por TRÊS MESES!

– Não é por isso…

– E é por que, então? – Inquiriu, saltando da janela e ficando de pé no meio do quarto, o rosto contorcido em uma careta de fúria e, ao mesmo tempo, repugnância. Era como se sentisse asco de Adrian por algum motivo que ele não entendia bem.

– Você está com ciúmes… – Ela pareceu escandalizada ao ouvir isso. Arregalou os olhos e o queixo caiu, deixando escapar uma exclamação de indignação.

– CIUMES! – Bradou, sobressaltando Adrian, que aprumou a postura e olhou-a com mais interesse ainda: nunca a tinha visto tão alterada! – Como você é presunçoso!

– Você não me engana, Juls! Sei que está enciumada, só não sei o por que…

– Não é isso! – Disse em um sibilo, entre dentes; a voz estava tremida e embargada. – Não é! É ódio! É raiva, Adrian, por você sempre fazer as coisas do seu jeito! Por você nunca me consultar… por me tratar como uma criança!

– Você É uma criança!

– Posso fazer minhas próprias escolhas!

– As escolhas erradas, certamente! Ouça, Juls…

Duas grossas lágrimas de sangue escorreram dos olhos de Juliet, unindo-se no queixo pontudo e gotejando no chão de madeira polida. Por um instante, Adrian vacilou. Os punhos da vampira estavam cerrados e tremiam.

– Você mentiu para mim, deixou que eu acreditasse que eles tinham realmente roubado a encomenda. Eu me senti um lixo. Como se não bastasse ter mordido aqueles garotos, como se a culpa não fosse esmagadora o suficiente…

– Aquela caixa fazia parte da encomenda, só não era a parte principal. – Disse ele, sem muita firmeza. – Desculpe por fazer você se sentir desta forma, mas mesmo que eu tenha mentido, o episódio em Santos não deveria ter acontecido. Nós dois pisamos na bola.

Ela continuou calada, olhando-o. Ódio.

– Vamos ficar só por um tempo, certo? Tenho uns assuntos pendentes com algumas pessoas nessa cidade, inclusive com Nicole, que preciso resolver antes de ir. E acho que os próximos meses nos reservam algumas surpresas… Talvez algo mais agradável do que esperamos. Vai ser bom para você conviver com algumas pessoas daqui, Nicole tem uma amiga artista com quem você vai gostar de conversar…

Adrian se levantou e caminhou até a cria e fez menção de abraçá-la, mas Juliet deu um passo para trás e disparou, ríspida:

– Não me toque! – O vampiro parou e ela virou-se de costas. Limpando as lágrimas com as costas das mãos, de maneira bastante infantil, continuou: – Odeio essa sua inconstância! Odeio o fato de não poder contar com você quando eu preciso… e odeio ser assim tão dependente de você!

Adrian permaneceu calado, olhando-a com a cabeça inclinada para o lado.

– Que você quer dizer com não poder contar comigo? Somos cúmplices, Juls! Você é minha filha e pode contar comigo sempre!

Ela não respondeu. Caminhou até a janela e pousou a mão na moldura de madeira envernizada. A brisa da noite embalou seus cabelos amarelos e as cortinas de tecido translúcido.

– Da próxima vez que for tomar uma decisão, faça o favor de me consultar antes. Se somos cúmplices mesmo, deixe-me a par de seus planos. Não me deixe mais no escuro, Adrian, por favor.

– Tá! – Concordou ele, aproximando-se um pouco. Olhava penalizado para a garota. – Me desculpe. Quando eu te transformei, não esperava que…

– Não pedi para ser transformada!

– Eu sei, Juls! Agora percebo quão egoísta eu fui. – Percebia, sim, que desde o começo tinha sido bastante egoísta. Desde o começo, a única opinião que prevalecia era a dele, embora ela sempre estivesse ao seu lado. Nunca a tinha levado a sério, talvez por puro orgulho, mas agora notara o quão nocivo aquilo estava sendo para Juliet. Ele percebia, com imenso pesar e também com um sentimento mais quente e intenso, que ela não ficaria muito mais tempo com ele. Em breve estaria só, novamente.

– Você me transformou num monstro!

Adrian revirou os olhos. Deja vu? Não, pois deveria ser, pelo menos, a centésima vez que tinham aquela mesma conversa. Sempre que Juliet se alimentava, ela se repetia, e o abismo entre os dois parecia crescer mais e mais.

– Te dei um dom, menina! Não seja ingrata!

– Me alimento de sangue! Vidas humanas! Você ouviu do que aquele mago me chamou? Sanguessuga! Uma única palavra para me definir!

Sempre a mesma história! Todos os vampiros recém-transformados que ele conhecia eventualmente em pouco tempo enveredavam pela mesma ladainha, mas com Juliet a coisa já estava passando dos limites. Talvez fosse uma conversa inevitável, que todos os mestres deveriam ter com suas crias pelo menos uma vez em toda a existência imortal, mas era sempre irritante e tedioso para Adrian. Simplesmente não tinha paciência para explicar coisas tão simples e óbvias, e todo o pesar que ele sentia por causa da mordida amaldiçoada dela se esvaia.

– Uma das razões pela qual escolhi você, foi por que me pareceu inteligente. Mas agora vejo que você é tão burra quanto as outras!

– Não me ofenda!

– Vampiros só matam para se alimentar…

– …matam humanos! Eu mato humanos!

– E humanos matam vacas! Qual a diferença? – Ela não respondeu, apenas o encarou com aversão. Ele sabia o que ela estava pensando: “Humanos são animais pensantes” – Em todo o mundo não existe um só ser que tenha a existência tão imunda que os homens, Juliet. Você sabe do que eu falo, por que por mais que se faça de idiota, você não é! Se há algum animal que merece servir de alimento para nós, são eles; a mesma característica que os diferencia dos demais é o que faz deles tão miseráveis. Diga-me um só animal que tenha alcançado um nível de podridão equivalente ao dos humanos e, eu juro, alimentar-me-ei apenas deles, de hoje em diante!

Juliet apenas encarava Adrian com os mesmos olhos acinzentados, incrédulos e a mesma expressão de indignação. Quando voltou a falar, embora ainda tremesse em fúria silenciosa, sua voz rebimbou clara e decidida no aposento:

– Existem vampiros ainda mais vis do que os homens!

– Por que também foram vis quando humanos, ou simplesmente por que escolheram sê-lo enquanto imortais. Ainda temos o livre arbítrio.

– Deus…

– Não me venha falar de Deus! Nem de Diabo! Nem de céu ou inferno. Se o que você tem é medo da punição divina, se é que você ainda acredita em Deus, então faça um favor a nós dois e desapareça daqui agora! Arrependa-se dos seus pecados e atire-se no fogo, se o que você quer é redenção. Ou então se isole e viva eternamente se alimentando de vacas e carneiros: alguém com a mente tão limitada e com uma visão tão reta quanto a sua merece uma vida miserável assim!

Adrian caminhou até a janela e empoleirou-se no parapeito, ao lado de Juliet, como um enorme pássaro negro. Virou a cabeça para ela e encarou-a por um tempo com aqueles olhos quase brancos, antes de dizer:

– Eu não quero que você vá, mas se é isso o que realmente pensa, creio que seja melhor ir e viver ou morrer do jeito que achar melhor. Não te criei pensando em fazer você, muito pelo contrário…

– …Sei. – Disse, sem olhá-lo ou sem expressar real entendimento.

– Não pedirei que fique. Alguém com um pingo de caráter nunca faria isso, mas…

Não chegou a completar a frase, pois ela agora o olhava com interesse. Era como se tivesse percebido, finalmente, que nunca fora a intenção de Adrian feri-la de qualquer maneira. Ele sorriu, mas Juliet permaneceu séria.

– Vou caçar! Preciso me alimentar. Você vem?

Juliet abanou a cabeça negativamente e resmungou, dando nova mostra de irritação e ressentimento: – Me alimentei o suficiente quando chegamos. Pensava que a essa altura estaríamos cruzando o mar.

Adrian abriu em enorme e genuíno sorriso que transformou seus olhos já estreitos em duas pequenas fendas negras e disse, no usual tom zombeteiro que utilizava com ela:

– Você tem sorte de vampiros não engordarem! Comendo desse jeito, além de megera e solteirona, seria também gorda e flácida!

Ela ergueu as sobrancelhas e abriu a boca para retrucar, irritada, mas quando deu por si, ele já tinha saltado da janela e agora ganhava a imensidão negra que se estendia acima, como se voasse.

Sorriu.

>> continue a leitura em CAPÍTULO VII – TEMPO