Ambos permaneceram em silêncio por longas horas depois que a noite caiu. Luzes foram acesas, derramando sobre todo o aposento uma luminosidade dourada e aconchegante, e das cortinas entreabertas podia-se vislumbrar um pequeno pedaço da enorme lua que se erguia no céu, que pululava de pontinhos cintilantes; uma noite realmente diferente da anterior. Definitivamente mais bela e igualmente quente.

– Não gosto daquela Juliet… – foi a primeira coisa que Nicole falou. A cabeça ainda apoiada no peito nu de Adrian, os cabelos negros espalhando-se por sua pele branca e cheia de cicatrizes antigas. Estavam naquela posição há tempo que eles já haviam até mesmo secado e agora colavam-se à sua tez como se fizessem parte dela. Os dedos finos e delicados da mulher dançavam sobre ele, acariciando-o gentilmente, passeando pelas marcas misteriosas, feitas quando ele ainda era humano.

– A Juls é legal. – disse, acomodando-se melhor, colocando um braço atrás da cabeça e acariciando o ombro dela com a mão livre. – Mas sei que é impossível para você encará-la como uma súdita comum, ainda que não exista nada sexual entre nós dois.

Nicole permaneceu calada, os olhos castanhos mirando o rosto de Adrian, como se tentasse decifrá-los.

– Muito tempo se passou, Nic. – declarou, sério.

– Por que a criou? – havia certo ressentimento em sua voz. As unhas dela roçaram mais intensamente sua pele, lacerando-as, mas as feridas se fecharam tão logo foram feitas. – Você sabe que pode criar apenas um vampiro, porque logo ela? Alguém tão…

– Por que eu me sentia só.

– E eu, Adrian? Você tem a mim, eu sempre fui sua.

– Eu não tenho a capacidade de prever o futuro, minha querida. Quanto tempo mais eu demoraria até te encontrar? Antes do Indulto, você sumiu por mais de dez anos…

– Eu estava ocupada demais planejando a queda do Imperador. – declarou ela, com uma ponta de amargura na voz.

– E após o fim da revolta, por mais algum tempo…

– Nos encontramos pouco tempo depois, em Praga. Não é disso que estamos falando…

– …e quando Alexis assumiu o posto de General você desapareceu novamente por, veja só, mais de vinte anos! Só agora tive notícias suas, e não foi porque você quis, foi por puro acaso. Se é que dá para chamar a intervenção do Ash de acaso.

– Todas as vezes que eu desapareci, não foi para ficar longe de você! Se pudesse, você estaria sempre comigo, mas as coisas não funcionam desta forma e você sabe disso. Eu sou a filha do Imperador e uma Cruentus Umbra! Quanto tempo você acha que sobreviveria, estando ao meu lado logo após a derrocada dos Vox?

– Entendo as suas motivações, mas elas não são o suficiente para me convencer de que eu deva levar uma vida solitária, só porque você não pode estar presente.

Duas grossas lágrimas vermelhas pontilharam o peitoral de Adrian, que permaneceu em silêncio por algum tempo.

– Não chore… – Pediu Adrian, segurando-a pelos ombros e içando seu corpo. Os olhos se encontraram, e as marcas de lágrimas ainda escorriam pelo seu rosto moreno emoldurado pela cascata de cabelos brilhantes e negros. Ficaram em silêncio, apenas se encarando, até que o homem se curvou para frente e lhe deu um beijo cálido. – Nós dois sabemos que se fosse diferente, não tardaria e um dos dois se cansaria e faria o outro infeliz. Deixe-me livre, que eu prometo sempre voltar para os seus braços.

A resposta que ele esperava não viera e as horas se arrastaram sem que nenhum dos dois falasse qualquer coisa ou sequer movessem um músculo. Quando a lua não podia ser mais vista da janela e as estrelas pareceram perder um pouco do brilho, quando a noite se tornou opaca, e o prazer de estar com ela se apagou, lentamente, como uma brasa que se extingue após queimar com intensidade, Nicole falou. Finalmente falou, e sua voz soou fraca e rouca:

– Como a criou?

– Hmm… – Ele ergueu os olhos para o teto, como se puxasse na memória fatos há muito ocorridos, e depois disse, da maneira mais sucinta que conseguiu: – Ela era uma universitária francesa que gostava de ir ao cemitério à noite para estudar. Como você pode perceber, é bastante bonita e inteligente, além de possuir um senso de humor bastante peculiar. Gostei dela. Mostrei-me, conversamos por pouco mais de uma semana, todas as noites, então decidi transformá-la. Ela não sabia que eu era um vampiro, e na verdade eu mais ficava observando-a do que falando. Gosto da companhia dela.

– Como assim transformou-a? Sem o consentimento dela?

– É…

– E nem o de um Vox mais velho? Ela não é nobre, pelo que percebo.

– Pois é.

– Há quanto tempo foi isso?

– Dois anos.

– Você é louco! – Os olhos dela arregalaram-se, chocados. Por mais que fosse de uma família diferente, estava profundamente familiarizada com as tradições dos Vox, tanto pela companhia de Adrian e Alexis, quanto pelo fato de ser a soberana de um pólo vampírico que abrigava representantes de todas as famílias existentes no mundo. Os Vox Regius estavam praticamente extintos, mas os poucos que existiam eram muito orgulhosos para deixar as tradições de lado, especialmente no tocante à criação de novos vampiros.

– Sou sozinho, é diferente.

Nicole se ergueu e, apoiando-se nos braços, encarou novamente Adrian. Este sorriu, um sorriso triste e melancólico. O sorriso de alguém que não conseguiria viver só. Era como se ele sempre precisasse de alguém para vê-lo brilhar, mesmo que esse alguém não fosse ela. Isso a entristecia, e a ele também, mas nenhum dos dois chegou a falar nada. Por fim, ela esboçou um sorriso plácido e acalentador. O sorriso de alguém que sentiria uma alegria ímpar pelo simples fato de tê-lo por perto, embora soubesse que, fatalmente, em poucos meses ele lhe escaparia novamente. Como sempre. Talvez para sempre. De repente as palavras de Alexis, repetidas à exaustão, lhe vieram à memória – o que fazia dela, Nicole sabia, um mero joguete nas mãos do ascendente de Adrian.

– Mas acho que talvez eu devesse ter pensado um pouco melhor antes de tomar esta decisão. Aparentemente o que dizem sobre transformar alguém contra a sua vontade é verdade…

– Como assim? – Perguntou ela, franzindo o cenho.

– Eu tenho certeza que ela escovava os dentes direitinho antes de ser transformada. Quer dizer, você viu como são brancos? – Um ensaio de sorriso melancólico. O vampiro desviou o olhar para tentar esconder a culpa que sentia.

– As mordidas dela…

– …não cicatrizam. Infeccionam. As vítimas morrem em dois dias, no máximo. Não é uma coisa bonita de se ver. Pergunto-me se tudo aquilo é verdade – tudo o que os pacificadores falam – ou se ela só teve azar, mesmo. Bem, nós tivemos azar, porque ela nunca me deixa esquecer que eu a transformei em um monstro.

– Por isso ela ficou tão irritada quando eu falei dos humanos. – Comentou a vampira, pensativa.

– Creio que seja mais fácil fingirmos que não estamos fazendo nada de errado quando não temos o peso de centenas de vidas sobre os nossos ombros, especialmente nos primeiros anos de noite, quando a forme é tão… pungente.

– Todos nós temos os nossos próprios demônios para alimentar. Ela vai se acostumar.

– Não é só a isso que ela precisa se acostumar… – murmurou o vampiro. Juliet a esta altura estava furiosa com ele.

– Você terá que ensina-la… a ser mais do que um mero peão nas mãos de vampiros como Alexis…

– Vampiros como nós.

 

Silêncio.

 

– E você nunca me contou como foi a sua transformação.

– Ah… Não há muito que contar. – Disse ele, um pouco desanimado. Seus olhos tornaram-se subitamente obscuros, como se a simples lembrança de tais fatos fossem dolorosas demais. Mas ela não pareceu notar. Se tivesse, certamente calaria, mas a ignorância instigou-a a insistir:

– Eu gostaria de ouvir.

– Não é interessante! Podemos voltar a falar da Juls?

– Não, não podemos. E eu julgo se foi interessante ou não quando tiver ouvido a historia.

Ele suspirou, resignado, e se sentou. Ela continuou deitada em suas pernas, a cabeça descansada sobre a pélvis dele, olhando-o interessada. Engoliu em seco e fechou os olhos, tentando afastar da própria mente toda a dor que lhe acometia quando se recordava daqueles acontecimentos e se ater apenas aos fatos. Seria simples, ele pensou. Demasiado simples, se ele apenas narrasse o acontecimento com calma e objetividade.

Abriu a boca uma ou duas vezes, mas nenhum som saiu de sua garganta, que parecia fechada por um nó apertado e impossível de se desfazer. Por fim, na terceira vez, reuniu a coragem necessária e iniciou a sua narrativa.

 

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Não sei ao certo quanto tempo se passou desde que fui transformado, nunca me interessei em fazer as contas. Não faz muito tempo, não tanto quanto você, isso é certeza.

Na época, eu tinha pouco mais de 23 anos.

Minha família, bem como todos os habitantes do vilarejo onde eu nasci e cresci, serviu de alimento para um odioso bando de vampiros que cruzara por ali. Seis vampiros, em uma única noite, abateram dezenas de pessoas… e sabe-se lá porque apenas eu fui levado como escravo para o ninho deles, um castelo em uma ilha um pouco distante da costa.

Como eu disse, eram seis vampiros; duas fêmeas e quatro machos, que gostavam de brincar comigo todas as noites. Essas cicatrizes que você tanto acaricia são a prova de que aquilo não foi um sonho. Perceba que não existem marcas de dentes na minha pele, mas queimaduras, cortes, arranhões. Era assim que eles se divertiam. E havia também os jogos psicológicos, cruéis e inumanos. Mas o que poderia eu esperar de criaturas que não eram, em nenhum aspecto, humanas?

O chefe deles, que geralmente apenas observava os seus asseclas se entreterem, vez ou outra também se juntava à diversão. Com aquele maldito cetro de ouro que simulava a luz do sol, queimava a minha pele, me deixava em carne viva. Eles não usavam de seu sangue para curar as minhas feridas, pareciam até mesmo temê-las, quando feitas pelo… Ignis Divine, como costumavam chamar aquele artefato. Talvez fosse impossível, até mesmo para eles, curar queimaduras do sol. Ou, o que é mais provável, eles simplesmente gostavam de me ver arder.

No fim daquela década, como você pode imaginar, o meu humor e o meu corpo estavam em frangalhos. Mas o que mais me incomodava nisso tudo não eram os abusos que eu sofria noite após noite, em silêncio, pois a certa altura até mesmo a dor pareceu agradável. Simplesmente não me aborrecia mais, nem havia mais lágrimas para chorar.

O que mais me entristecia era a ausência de alguém. Qualquer um. A ausência da minha família, principalmente. Creio que se os tivesse comigo tudo seria tão mais fácil e suportável… A angústia era tamanha, causticante, e qual era a minha surpresa quando um dos meus senhores demonstrava alguma ponta de afeto por mim? Agarrava-me a ela como me agarrava ao desejo de viver, pois embora, por ora, a vida não me brindasse com momentos prazerosos, eu sabia que a minha hora ia chegar – agarrava-me também a esta ideia.

Mas a afeição que me dispensavam era sempre parte de mais uma brincadeira doentia e logo findava. Passado um tempo, eu sabia que os sorrisos e carícias ocasionais culminariam em novos maus tratos e humilhações. E logo eu aprendi a não me iludir, ainda que meu coração e mente sempre ficassem tentados a ceder aos apelos fingidos dos vampiros – em especial as mulheres, que partilhavam de um senso de humor completamente macabro e cruel. Acabei me fechando completamente. Era apenas um brinquedo desprovido de sentimentos ou vontade, como deveria ser desde o princípio, nada mais. Um brinquedo que derramava sangue, mas que não derramava lágrimas.

E os dias em que eu passava trancado nos meus aposentos – que, nem é necessário dizer, faziam jus aos de um escravo- eram ainda mais dolorosos. Pelo menos, quando eu estava com eles, me esquecia de minha mãe e irmãos; mas quando solitário, no escuro, todos os segundos que eu tinha comigo mesmo eram dedicados aos lamentos silenciosos e ao desejo desesperado de tê-los mais uma vez. Chorava, então, as lágrimas que negava aos vampiros. Tudo de uma vez. Lamúrias soturnas e amargas.

Mas eles estavam mortos e eu sabia. Eu estava sozinho, talvez para sempre.

E de vez em quando uma vampira ia ao meu encontro. Chamava-se Roxanne. Era a mais cruel de todas, mas por alguma razão era a que eu mais gostava. Era como se cada momento que ela perdesse comigo, me torturando e maltratando, fosse precioso. Afinal, pensava eu, ela estava ali, não estava? Fazia-me companhia, de alguma forma; estava comigo. Talvez apreciasse a minha pessoa. E era a ela que eu me dedicava a agradar incondicionalmente.

Roxanne significa aurora, ela me disse certa vez. E embora eu pudesse vislumbrar o azul do céu em seus olhos, e o ouro do sol em seus cabelos, aquela criatura não fazia, em nada, justiça a tão belo nome. Era cruel e desumana, falsa e manipuladora. Era uma víbora, tal qual as que ela tanto amava e carregava frequentemente consigo, seja em forma de acessórios a lhe adornar o corpo esguio e branco, seja uma verdadeira, viva e fria, que usava para instilar em mim medo e pavor.

Eu suportava tudo calado. Vez ou outra falava alguma coisa, mas somente com ela; os outros ouviram a minha voz apenas nos primeiros anos, e aquela era a minha única diversão: vê-los irados por eu lhes negar algo tão simplório e singelo como lágrimas ou minha própria voz. Bradavam, irados, contrafeitos, e por dentro eu ria. Uma espécie de prazer doentio sempre se apoderava de mim, e eu sentia meu corpo se encher de uma sensação quente e confortante quando via que eu também, a meu modo, podia causar-lhes algum desconforto. Feria seu orgulho, corroia o ego inflado daquelas criaturas odiosas. Eu mesmo havia absorvido um pouco do senso deturpado de diversão que aqueles seres semearam em minha alma.

E os anos foram se passando. Eu não contei. Esqueci-me de contar, ou cansei, não me recordo ao certo. Mas meu corpo se alterou: o que era fraco e franzino logo se tornou forte e robusto. Com minhas mãos eu podia perceber, tateando, que meu próprio rosto também se alterara. Meus punhos se tornaram fortes, meus cabelos mais longos e escuros e meu corpo, em um aspecto geral, mais anguloso, rígido, mas sem a penugem espessa que eu sempre via nos machos da minha espécie, quando ainda era pequeno.

Tornara-me bonito, Roxanne sempre dizia: – Tão belo que me tenta a tomá-lo eternamente para mim. – Você sabe o que isso significa, obviamente. Ela sugeria me transformar, mas na época eu não fazia ideia do que aquelas palavras queriam dizer. Eu não fazia ideia que aqueles seis demônios foram, em um passado longínquo, humanos. Era como se tivessem sido concebidos como eu sempre os vira: meus semelhantes apenas na aparência, mas com habilidades e anseios completamente alheios aos dos homens de bem. Existências fundamentalmente malignas e desprovidas de qualquer sentimento bom.

Eu não era religioso, de forma alguma. Geralmente quando se ouve histórias de humanos molestados por vampiros, se escuta também muitos pedidos de ajuda aos céus, a Deus ou a quem for. Eu não pedira, nunca, nem por um segundo sequer. Não fora moldado para aquele tipo de atitude, embora minha mãe fosse uma mulher direita e devota: eu nunca acreditei em Deus, desde o princípio, e me pareceu uma hipocrisia tremenda chamar por Ele logo quando eu estava precisando, uma vez que o ignorara por toda a minha vida. Não. Mas hoje agradeço aos céus e a quem quer que esteja nele, se é que realmente existe alguém lá, por não ter sido transformado por Roxanne nem de nenhum outro daquele grupo. Acho que teria me tornado algo pior do que eu já sou.

Agressões físicas, torturas e humilhações logo não me afetavam mais em nada. Era como se meu invólucro tivesse se tornado tão calejado que nem mesmo praticamente mutilado eu exibia sequer uma faceta de dor. Mas me doía, sim, quando eles me jogavam de volta às trevas e solidão. E passado tanto tempo, meu sangue também lhes pareceu azedo e pouco apetitoso. Eu já não servia para meu propósito. Era apenas um brinquedo quebrado e desinteressante, e logo eles me descartaram.

Ah! Como eu teria desejado que apenas abrissem as portas do castelo e me deixassem ir: eu nadaria de volta à costa, de bom grado, e me deitaria exausto às areias da praia. E apreciaria o sol a tostar minha pele tão pálida quanto a de um cadáver. E riria! Sim, tenho certeza que riria. E depois procuraria algum alimento. E depois viveria. Após uma década de reclusão e esquecimento, verdadeiramente viveria! Mas não fora exatamente assim…

Abriram as portas do castelo, sim, e me deixaram sair de lá. Roxanne me levou, junto com Aretha, a outra fêmea. Jogaram-me dentro de uma vala imunda, nas proximidades da aldeia costeira. Praticamente sem sangue nenhum – eles tiveram o cuidado e a decência de drená-lo quase até o limite antes de me libertar. Elas simplesmente me colocaram lá para morrer. Ainda me lembro do olhar de Roxanne, os cabelos anelados caindo sobre o rosto arrogante, ao me dizer, em um sussurro sibilante que pareceu muito o de uma serpente: – Eis a liberdade com que tanto sonhou, pequeno imundo. Vai e vive o resto de sua vida miserável da forma como bem entender.

Nunca mais a vi.

Pareceu-me bastante ingrato de sua parte que se livrasse de mim de uma forma tão indigna e nem ao menos expressasse pesar nisso. Mas o que eu poderia esperar? Afinal, a suposta afeição que ela nutria por mim não passara de um pretexto meu para justificar as maldades dela, nada mais.

Fiquei ali, jogado naquela vala a noite toda. O sol veio, e com ele o saudoso azul celeste, que nos últimos anos eu vislumbrara apenas nos grandes olhos daquele demônio. Arquejei, tossi, minhas costelas fraturadas quase perfurando os meus pulmões frágeis, mas mesmo assim consegui sorrir. Ah, sim, finalmente eu estava livre! Mas me pareceu bastante injusto que, após levar uma vida tão sofrida e solitária, eu fosse morrer também sem ter ninguém ao lado do meu leito. Ninguém para segurar minha mão. Era injusto, eu pensava, às lágrimas, ainda que sorrisse, viver e morrer tão só. E, pouco a pouco, o ar começou a rarear. Eu sequer vi o sol; teria de esperar até o meio-dia para vê-lo a pino, sobre meu corpo, mas sabia que não tinha tanto tempo, e o azul me bastava. Fechei os olhos, e pela primeira vez em minha vida, depois de mais de duas décadas de existência, falei com Deus:

– Muito obrigado…

Foi a única coisa que consegui murmurar. E pensando bem, acho que comecei da maneira correta: sem pedidos, sem cobranças, sem egoísmo. Apenas agradeci, nada mais. E antes que pudesse abrir a boca para falar qualquer outra coisa, desmaiei.

Quando tornei abrir os olhos vi o teto do que seria uma casa bastante simples, constituído basicamente de palha seca e ripas de madeira. Virei o rosto para o lado e antes que pudesse virar-me novamente para ver o interior da morada ou procurar pela pessoa que me acolheu, apaguei.

– Eu o encontrei na vala oeste… estava quase morto. Quase sem sangue.

Estas palavras foram repetidas incansavelmente pela voz grave do homem que eu julgava ser o meu salvador, às pessoas curiosas que chegavam a procura de notícias; mas eu estava fraco demais até para abrir os olhos, nos dois primeiros dias.

Ganhei saúde logo, e em menos de um mês já estava ajudando a pessoa que me acolhera, Aaron, em seu ofício de pescador. Eu sei, bastante simplório, mas era aquele tipo de vida que eu queria para mim. As pessoas vinham conversar comigo, interessadas, e eu era o mais dócil e gentil possível, apenas para não afastá-las. Era uma postura egoísta e mesquinha, mas nunca me importei em sê-lo. E pela primeira vez, desde que minha família fora brutalizada e arrancada de meu convívio, eu não estava sozinho. Isso era uma grande coisa. Era tudo, na verdade. E eu era feliz.

Logo eu fiquei plenamente curado das feridas físicas, ainda que o rosto de Roxanne, Aretha e dos demais me atormentassem toda noite. O meu emocional continuava estilhaçado, embora aquelas pessoas e aquele lugar fosse um bálsamo para mim. Logo, muito em breve, eu estaria completamente curado. Muito em breve, pensava, eu sequer me lembraria que um dia fora refém de criaturas demoníacas e bebedoras de sangue.

Tsc, quão tolo eu fui.

Mal sabia eu que havia atraído outra daquelas criaturas. De uma maneira diferente, é claro, mas ainda assim. E durante uma noite, quando eu caminhava pela praia, as ondas roçando meus pés descalços, ela se mostrou…

Vinha caminhando na direção contrária a minha, de mãos dadas com outra menina que chegava a altura de seus ombros. Os cabelos castanhos e lisos dançavam ao sabor do vento, ocultando parcialmente a sua pele que, eu podia ver de relance, era branca como madrepérola – pareciam refulgir ao luar. Caminhavam devagar, a pequena com um sorriso nos lábios e a mais alta com o rosto impassível e arrogante. Quando chegaram a poucos passos de mim, pararam. Eu estaquei, também, e olhei-as intrigado. Alguns segundos se passaram, onde o barulho do vento e das ondas eram as únicas coisas a serem ouvidas.

– Finalmente é chegada a hora, Adrian… – murmurou a mulher, o rosto de mármore se iluminando em um sorriso que mesclava malícia e excitação. Os grandes olhos castanho-esverdeados cravados no meu rosto. Alteei as sobrancelhas, confuso, e ela estendeu a mão para frente. As pontas dos dedos roçaram meu rosto, e ela continuou: – É tão belo! A sua ascendência é nobre, embora não saiba, e consigo ver nos seus olhos a nobreza dos teus antepassados… Você merece a eternidade, meu jovem. Merece muito mais do que a medíocre e efêmera vida dos mortais.

– É o suficiente para mim, e você está enganada. Não sou nobre. – Respondi, assumindo uma postura defensiva. Sabia o que ela queria de mim. Sabia muito bem qual era o meu destino, caso me envolvesse novamente com criaturas daquela espécie. Um calafrio percorreu minha espinha quando eu finalmente percebi o que elas eram – aparentemente a rotina morosa tinha me cegado, pois não pude reparar antes que eram duas sugadoras de sangue.

– Sei que sim! Conheço as suas aflições, e sei que não conheceu vampiros decentes. – Sorriu uma vez mais, largando a mão da menina, que observava tudo com olhos interessados, e se aproximou de mim. Ficou na ponta dos pés, sua mão fina e delicada pousou-se em meus cabelos revoltos pelo vento e seus lábios quase tocaram minha orelha. Corei absurdamente. – Prometo que ao nosso lado você não precisará temer a solidão nunca mais, Adrian. Terá a nossa companhia eterna e gozará de prazeres que não desfrutou na presença de Mikhail e de seus asseclas. Venha conosco, meu jovem, e te prometo: vamos te mostrar o paraíso envolto nas sombras da noite.

Hoje, não entendo como pude ser demovido da resolução de permanecer humano de maneira tão simplória, mas fui. Em um minuto, estava completamente inclinado a aceitar a proposta. Eterno, e em companhia daquela mulher fascinante! Parecia bastante diferente dos demais vampiros que eu conhecera, uma vez que, pelo menos aparentemente, ela demonstrava algum interesse em mim; ao contrário de Roxanne, que nunca me olhou como uma pessoa de verdade. Sempre como um objeto, um brinquedo. Não sorri, apenas a encarei, quando se afastou e sorriu novamente, ajeitando os cabelos com a mão. Era linda!

– Sou Natalie, e a pequena é Eva, minha cria… – Acenou com a mão livre para a menina que, à menção do seu nome segurou as pontas do vestido e fez uma breve reverência, inclinando a cabeça para frente. A menina não deveria ter mais que 16 anos, possuía um corpo pequeno e esguio e tinha longos cabelos amarelados que lhe caíam sobre os ombros cobertos pela renda do vestido. Sorria de uma maneira doce, e por um segundo eu duvidei seriamente de que uma criatura de aparência tão inocente poderia ser uma filha da escuridão. Inclinei também a minha cabeça, ainda acanhado, e murmurei o meu nome para elas que, era mais do que óbvio, já o sabiam:

– Adrian Alphonse Bertram.

Senti os dedos dela enlaçarem a minha mão e olhei-a, surpreso. – Vem! – Murmurou, puxando-me com aquele sorriso cortês e eu, entorpecido, obedeci. Caminhamos por algum tempo, a menina no meio, de mãos dadas comigo e com sua mentora, sem nada dizer. Eu não sei explicar bem, mas havia uma conexão entre nós, como se nos entendêssemos mutuamente sem precisar de palavras. Como se uma corrente elétrica cruzasse nossos corpos, me engolfando em uma miríade sufocante de sentimentos, e eu praticamente ouvia a voz da pequena, de Eva, sussurrar em meus ouvidos: “Fique conosco!”

Olhava-a surpreso e ela, desviando os olhos da imensidão negra à frente, fitava-me e sorria. Um sorriso puro e cativante. Como não ceder? Como eu disse há pouco, sentia medo e aversão à ideia de me transformar em um noturno, mas a pequena exercia sobre mim uma influência absurda, como se estar com ela, seguir suas palavras e fazer suas vontades fosse o certo, o irrefutável.

Tsc, mais uma vez fui ludibriado!

Não preciso dizer porque Eva exercia tamanho fascínio sobre minha pessoa, preciso? Eu era apenas um humano, e ela uma encantadora jovem que, de alguma forma, possuía poderes persuasivos muito além dos padrões vampíricos. Não voltei para casa aquela noite, e nem durante o dia. Quando a alvorada despontou no horizonte, eu estava sentado nas ameias da torre mais alta do palácio em ruinas que Natalie e Eva habitavam, as pernas para fora, os cabelos ao vento. Era a última vez que veria a luz do sol, sabia, então procurei apreciá-lo da melhor maneira possível. Procurei guardar na minha memória a intensidade daquele azul e daquela ofuscante luz dourada que parecia ter-me sido negada desde que nasci: afinal, por que diabos eu não poderia ser apenas um humano normal?

Mas a escolha era minha. Sempre fora…

Agora que Eva estava longe, minha convicção vacilava e eu tinha medo.

Fiquei o dia todo ali, sentado, apenas apreciando o céu. Meus olhos poucas vezes se voltaram para o viçoso prado abaixo. Parecia hipnotizado por aquela cor celeste que eu nunca mais vislumbraria. E quando o céu se tornou vermelho e o sol começou a se esconder e o calor do dia me foi roubado da pele; quando tudo ficou escuro e frio, uma única lágrima furtiva escapou de meus olhos, passeou pelo meu rosto, dependurou-se no queixo e… caiu para a imensidão abaixo. E como se isso fosse a deixa para que elas aparecessem, no segundo seguinte senti a mão de Natalie roçar minha perna. Olhei-a como se nunca a tivesse visto em toda a minha vida. Ela sorria para mim, um daqueles sorrisos acalentadores, mas que ao mesmo tempo abrasavam a minha alma e me faziam querer ficar com ela por toda a eternidade.

E ficaria, não? Era aquela a promessa que ela tinha feito para mim noite passada: companhia eterna.

Eva estava do outro lado, as mãos pousadas sobre as ameias, olhando o horizonte. Os últimos resquícios vermelhos já sumiam, deixando todo o firmamento com uma cor escura e homogênea. Era uma noite sem nuvens, aquela. Só estrelas.

– Ficou aqui desde que fomos nos deitar? – Perguntou Natalie em um tom admirado. Confirmei. – Percebo… Típico dos humanos querer vislumbrar a luz do dia uma última vez. Se tivessem me dado escolha, também o teria feito, mas não a tive. Talvez por isso eu nem me recorde direito como eram belas as coisas banhadas pelo brilho do sol. Sei apenas que eram belas. Agora que aquela luz me foi negada, sinto falta. A sua decisão foi acertada, Adrian, mas não precisa se sentir tão triste: a noite também tem seus encantos, e quando vislumbrar o mundo com os novos olhos, verá que não existe nada mais belo.

Não respondi, apenas desviei meus olhos dos seus e pousei o olhar em minhas mãos entrelaçadas sobre as pernas. Assenti, engolindo em seco.

– Está pronto? – Perguntou ela, acariciando minha coxa, e eu assenti. – Prefere que seja aqui?

Não respondi, em vez disso fiz uma pergunta bastante tola, mas pertinente:

– Dói?

– Dói. – Ela respondeu, passando para trás de mim e enlaçando meu tronco em um abraço suave, porém vigoroso. Sua pele, apesar de fria, era macia e cheirosa. Senti seus lábios roçarem minha nuca e passearem até o ombro. – Dói, mas logo passa, e depois não sentirá mais nada a não ser prazer…

– Não existe prazer sem dor… – Murmurou Eva, falando pela primeira vez naquela noite. Sua voz soou como um bálsamo para meus nervos e acalmou meus temores. As mãos de Natalie passearam pelo meu abdome e foram descendo; e a pequena entrelaçou os dedos nos meus, dando-me algum conforto.

Aquele era um ponto sem retorno. Eu tinha feito a minha escolha, e agora teria de arcar com as consequências. Em algum momento da convivência com Roxanne e os outros, compreendi as principais características dos vampiros, e naquele instante a realidade me acertava como uma bofetada. Eu estava a um passo do abismo que era a eternidade. A um passo da maior dádiva e da maior maldição que conhecera até então. Naquela época eu não sabia, e Natalie fora esperta o suficiente para esconder que um vampiro pode viver em bando, mas ele estará sempre sozinho. Pois os humanos morrem, e os vampiros simplesmente não se importam com os outros de sua espécie o suficiente para desenvolver uma relação verdadeira. Não me olhe assim, meu amor. Você sabe que era diferente quando éramos humanos. Sabe que o que eu e você temos não é muito comum entre vampiros. Os humanos amam de uma forma que a nossa espécie pareceu esquecer.

Natalie me empurrava para aquele abismo sem deixar que eu desse o último passo, e quando eu caísse nele estaria sozinho. Não imediatamente, mas em poucos anos. E encontraria alguém, e logo este alguém morreria ou me deixaria novamente, e depois eu encontraria outra pessoa… E assim o ciclo se estenderia por toda a eternidade. Eu não sou um vampiro comum, nós não somos, quero dizer. Você sabe disso. Todos nos olham com curiosidade, porque precisamos um do outro e apreciamos a companhia um do outro. Porque nos amamos. Porque fazemos sexo. Porque somos amigos. É estranho, é contra a nossa natureza, e eu mesmo sinto a necessidade de explorar outras possibilidades às vezes, de me relacionar com outras pessoas, de procurar outros vampiros como nós, mas sempre acabo voltando para os seus braços porque sei que você é como eu. Que você sempre será minha, e eu sempre serei seu.

Você sabe que existem vampiros que se gostam, que se aceitam, ou que podem até mesmo dizer que se amam, mas são poucos. E a nossa é uma forma diferente de amor, não concorda? Alguns conseguem conviver por muitos anos, como foi o caso de Natalie e eu, mas é… simplesmente diferente. E eu demorei alguns anos para entender isso. Naquele momento, eu só pensava no fato de que eu nunca mais precisaria ficar sozinho novamente, por isso respirei fundo e balancei a cabeça, assentindo. Eis o último passo, eis o imperceptível empurrão em direção ao abismo.

– Feche os olhos. – Pediu Natalie, a língua passeando pelo meu pescoço e enterrando os caninos pontiagudos na minha carne suada e trêmula. Ofeguei no mesmo instante que as mãos dela apertaram minha região pélvica. E um gemido de dor e prazer, amalgamados, escapou de meus lábios entreabertos.

Não sei quanto tempo durou, e tudo o que se seguiu ainda me é bastante confuso. Meu corpo tombou para trás e fora amparado pela mulher que me roubava a vida. Fui deitado no chão frio, os olhos abertos fixos nas estrelas acima, que se desfocavam rapidamente, tornando-se apenas um borrão esbranquiçado.

Então um líquido fora despejado em meus lábios frios. Um fluido quente, escaldante, que escorreu pela minha garganta e, chegando ao estômago, pareceu se expandir e devolver o calor para todo o resto de meu corpo, até a ponta dos dedos.

Pareceu que meu corpo todo estava em chamas! Uma dor lancinante se apoderou de mim, que tremia violentamente no chão. Os músculos retesavam e relaxavam em uma velocidade incrível, meu rosto estava contorcido em uma horrível expressão de agonia. Creio que durou pouco mais de um minuto, mas fora tão intenso que até hoje, ao me lembrar, pareço ser acometido novamente por uma parcela daquela sensação. A morte humana. Verdadeiramente horrível!

Senti o meu corpo empapado de suor, lágrimas e outros fluidos corporais que haviam sido expelidos no processo. Pouco a pouco, as estrelas entraram em foco novamente. Mas havia algo de diferente nelas. Pareciam em chamas, vomitando sobre o mundo um brilho muito mais intenso, mas ao mesmo tempo tênue e suave. Algo impossível de descrever com palavras, você sabe bem o que digo, e que só aqueles que possuem olhos noturnos conseguem apreciar.

Continuei ali, deitado de costas, olhando as estrelas. Os braços e pernas afastados, o rosto congelado. Apenas meus olhos brilhavam, embora estivessem vidrados.

E em algum lugar distante, ouvi um riso. Um riso doce e inocente. Era Eva! Minha alma, se é que eu ainda tinha uma, fora sugada de volta à realidade, e eu olhei para a pequena que estava ajoelhada ao meu lado, rindo. Natalie estava de pé e sorria também, mas de uma maneira discreta e quase imperceptível. Pisquei demoradamente.

– Por que está rindo, Eva?

– Você está fedendo. – Disse Natalie, estendendo a mão para me ajudar a levantar. Se possuísse algum sangue no corpo, naquela hora, tenho certeza que minha face se tingiria de escarlate. Vi que fedia mesmo, e percebi a fonte disso. – Não se preocupe, acontece com todo mundo. Agora venha, vou te lavar e vestir, para irmos à cidade providenciar o seu banquete de boas-vindas.

>> continue a leitura em CAPÍTULO VI – ANTAGÔNICOS