O cheiro de cigarro o despertou da dormência das sombras. Há quantas horas ele permaneceu naquela densa escuridão? Um novo cheiro, dessa vez de mar, o fez entender as silhuetas que se formavam em sua visão turva. Esticou o corpo e percebeu a textura sob seus pés descalços. Aquilo era uma praia mesmo? Não, isso não fazia sentido algum! Os magos levaram-no para um apartamento, em São Paulo, estava a quilômetros de distância do mar, mas, ainda assim, ele estava ali, observando os primeiros raios de Sol invadirem o horizonte.

“Estou delirando, é isso?”

Jonas observou as ondas baterem em seus pés e deixou o corpo afundar na areia, ainda incrédulo com a sensação completamente compatível com a realidade. Sabia que a febre o fez ter estranhos sonhos com corredores escuros, cemitérios e mausoléus, mas essa era a primeira vez que uma imagem tão nítida prevalecia. E, o que mais lhe preocupava, não havia mais dor.

Movimentou o rosto em busca do cheiro que despertou seus sentidos e vislumbrou a forma esguia de Cássio ao seu lado. Conseguia ver as nuances de seu rosto, não pelo fraco amanhecer, mas pela fogueira às suas costas. Uma estranha melancolia o invadiu ao observar o amigo tragar vagarosamente o cigarro como o viu fazer tantas vezes antes. Os olhos encaravam o mar e deu um sorriso misterioso ao soltar uma nova leva de fumaça:

– Sei que te incomoda, mas você deveria experimentar.

Mais uma cena do passado. Mesmo sabendo que ele detestava o cheiro, tinha alergia, Cássio sempre lhe tentava com aquele cigarro. O moreno respirou fundo e se questionou se valeria a pena estabelecer um diálogo com sua própria mente. Antes que decidisse, Cássio respondeu sua dúvida:

– Isso não é um sonho… – Ah, era sim, o amanhecer parecia congelado, a brisa do mar estava perfeita e ele estava ali do lado da pessoa que mais lhe preocupava no momento. Foda-se. Era um sonho e ele não falaria nada.

– Não precisa falar, na verdade, você não deveria estar aqui… Já está na hora de ir.

“E onde é… aqui? Isso é Santos?” Jonas pensou, preguiçoso. Sentia-se em uma série americana, dessas que o personagem principal tem uma grande revelação após conversar com um coadjuvante que os telespectadores sentem falta.

– Talvez… Poderia ser, se não fôssemos tão burros em sair por aí seguindo um rabo de saia no porto. E… se fosse uma série, estaríamos andando pelo cenário cheio de pistas para você ter a sua grande revelação. Isso não é uma série. Bem, pelo menos aqui não vimos nenhum triângulo amoroso vampírico ainda…

Jonas se permitiu rir. Estava cansado dos pesadelos com olhos agressivos, dentes e sangue. Decidiu que apreciaria aquela miragem enquanto a dor não o despertasse. Questionou se aconteceria como em outros sonhos, que as ações aconteciam conforme você temia – ou desejasse – que acontecesse. Entretanto não sentiu o veneno corroer seu corpo, Cássio apenas continuou a falar:

– Isso é, a garota era uma vampira mesmo?

“Ninguém me explicou direito, mas é a única coisa que faz sentido. Humana que não é…”

– Ela tinha olhos bem humanos, até cravar os dentes no meu pescoço – a risada melancólica do amigo o deixou mais desconfiado daquela miragem. A voz era perfeitamente igual, o jeito ponderado de falar também. O que aconteceu com Cássio, afinal? Aquilo tudo seria sua consciência pesando por não saber seu paradeiro?

– Você não tem ideia mesmo do que aconteceu comigo? …

As falas de Cássio se diluíram no som da onda se chocando contra suas pernas. A maré não recuou como o esperado, repetiu seu movimento brusco e, dessa vez, Jonas não conseguiu se segurar. Sentiu o corpo flutuar sobre a areia e foi envolto em água, sal e dor. Na escuridão de sua mente, fragmentos de cenas voltaram a aturdi-lo. A risada cortando o som da novela, o cheiro de mofo do apartamento dos magos, os olhos cruéis sugando sua respiração. Sentiu seus pulmões falharem exatamente como quando a vampira de sua infância o atacou no corredor escuro e o pânico o tomou. Talvez esse seria o momento que reencontraria Cássio. Talvez agora finalmente entenderia o que acontece após a morte?

– Ele está sufocando – ouviu uma voz feminina dizer. Pôde sentir mãos levantando-o e sua garganta ardeu como se expelisse chamas. – Isso, é melhor você tossir…

– Há quanto dias ele está assim? – mais uma voz desconhecida, dessa vez áspera e cansada, provavelmente de alguém com idade mais avançada. Em meio à crise de tosse, Jonas conseguiu abrir os olhos, mas não viu nada do que esperava. O rosto do idoso se misturou às ondas e logo se liquefez com o vai e vem da água que o afogava. Rascunhos de parede ganhavam volume no horizonte da praia… Era difícil focar em qualquer coisa com a tosse insistente que o invadia, contudo conseguiu notar que salamandras de fogo envolviam seus pulsos e pernas. Fitou a chama do animal e se surpreendeu ao ver os pequeninos membros virando dedos robustos:

– Essa é a terceira noite. – Rafael disse, dando forma completa aos braços que lhe deram força para se sentar e fugir das ondas.

Sentiu um tecido em sua boca e percebeu que mais alguém o auxiliava. Era a dona da voz feminina do cômodo. Estava ao seu lado, ao lado da ferida que o corroía por dentro, e o fitava tranquilamente, como se não se importasse nem um pouco com aquela tosse nojenta. Ele expeliu uma estranha gosma e estranhou que o cheiro não era de vômito como ele esperava. Era de… mar? Antes que pudesse vislumbrar por completo o ambiente ao seu redor, um novo ataque de tosse começou.

– Nada do que fiz adiantou, as noites dele são completamente imprevisíveis.

– Ele não estava… afogando? – uma voz infantil murmurou.

Jonas seguiu o som e fitou a terceira figura desconhecida do cômodo. A criança entregou uma toalha úmida para a mulher e encarou Jonas com desconfiança. Ou nojo. Percebeu que a garota morena fez um sinal discreto para que ficasse em silêncio, contudo já era tarde:

– Afogando? – Rafael perguntou. Pelo silêncio do quarto, isso significava algo mais do que engasgar com a própria saliva. Ótimo, mais uma peça do quebra-cabeça que virou sua vida após o ataque em Santos. Quando alguém começaria a lhe explicar o que estava acontecendo com seu corpo? – Não. Isso é veneno da mordida, o corpo dele não está aguentando, não tem nada a ver com isso.

– Talvez esteja tentando se curar sozinho. – a garota afirmou calmamente. Passava uma toalha úmida no rosto de Jonas e o rapaz percebeu que sua tosse diminuía aos poucos – Ele não é um dos seus?

Nervoso, Rafael levantou da cama. Impossível ignorar como seu olhar rabugento contrastava com a calma dos demais. Agora que recuperou o fôlego e o delírio passava aos poucos, Jonas pôde observar melhor o trio desconhecido. Com idades tão discrepantes até poderiam ser da mesma família se não fossem tão diferentes fisicamente. O velho tinha queixo e nariz pontiagudo e algo em sua postura lhe lembrava uma adaga, sempre pronta para uma defesa repentina. A garota tinha o rosto redondo e feições gentis, dessas que qualquer um se sente disposto a conversar. Já a criança tinha a pele negra e olhos inquietos que pareciam seguir uma teia invisível. Fitava seu pescoço, o lençol, as sombras do lugar, as expressões dos demais, para, então, retomar ao seu pescoço e começar tudo de novo.

Naqueles segundos de silêncio no quarto, Jonas teve certeza que tiveram uma noite tão uma tumultuada quanto Rafael. Pela apatia no olhar de cada um estavam mais interessados em tirar o atraso de sono do que em ajudá-lo a superar a febre:

– Nós o achamos em Santos, ele e um amigo foram mordidos pelos vampiros que seguíamos. – Rafael finalmente respondeu, virou o rosto para o idoso, claramente o líder do trio, e continuou – Ele é só um… garoto. Não pode estar afogando, Augusto.

O senhor tirou os óculos de grau e passou a limpá-lo na barra da camisa amassada:

– E cadê o Hans?

A pergunta súbita, claramente desconcertou Rafael. O modo como observou o teto buscando palavras para responder algo tão simples… tsc, o que aconteceu com o outro mago? Augusto também desconfiou daquela reação e retomou a fala:

– Se Hans estivesse aqui, ele já teria te dito que essa reação à mordida é coisa recente. Os rumores são que a Inquisição jogou uma maldição para liquidar de vez com os imortais e resultou nisso… Então…

– É magia – Rafael completou com assombro. Voltou o olhar para Jonas, analisando-o – Se é magia, nós podem-

– Não foi isso que eu disse. – Augusto o interrompeu e retomou os óculos sobre o nariz. As lentes refletiam os raios de sol que começavam a invadir o quarto. – Imagino que o amigo dele está morto, não é? Acredite, só vi uma pessoa se livrando disso e era um ex-Inquisidor, de alto escalão.

Como aquele velho poderia falar de um jeito tão calmo que apenas um cara se livrou dessa febre? Jonas se lembrou do corpo moribundo de Cássio quando largaram no hospital. Antes do desespero vir à tona, percebeu que a criança murmurou algo novamente:

– Ain Soph?

A mulher ao seu lado não o repreendeu dessa vez, apenas respondeu um “uhum” discreto. Aqueles dois também não pareciam nem um pouco preocupados com o fato de que ele morreria muito em breve. Enquanto a morena checava o visor de seu celular, completamente desinteressada na conversa, o menino exibia olhos ansiosos por mais informação. E só. Tinha 9? 10 anos? Difícil acertar, contudo era óbvio que o pirralho sabia muito mais sobre seu destino do que ele próprio.

– Mas, talvez, se Hans estivesse aqui, nós poderíamos tentar algo… – Augusto sorriu misterioso e desencostou do batente da porta – O que aconteceu com o Hans, Rafael?

Dessa vez o mago não desviou o olhar ou procurou meias palavras. Respirou fundo apontando para o corredor:

– Aqui não, vamos falar no escritório.

O idoso assentiu com a cabeça e o seguiu, mas sua voz logo foi ouvida ecoando no corredor:

– Ágata, a chaleira já não deveria ter apitado?

A morena levantou assustada, deixando um rastro de perfume cítrico no ar. Saiu tão apressada do cômodo que esqueceu o celular sobre a cama. Jonas observou as constelações que desenhavam a capa do aparelho e sentiu um gosto amargo na boca novamente. Por alguns segundos esqueceu o mar e as informações confusas. Tentava lembrar o telefone da casa de Cássio, precisava falar com seus pais, ver se tinham alguma notícia, talvez até… dar alguma notícia. Concluiu que mal sabia seu próprio telefone de cor ou de sua mãe, ou de algum parente. Sempre achou que tinha mais o que fazer do que decorar esses números, afinal, qualquer coisa poderia mandar um e-mail ou um recado em uma rede social. Contudo qual a chance daquelas pessoas deixarem-no usar a internet para descobrir isso ou contatar alguém?

– A senha dela é bem difícil. – a criança murmurou adivinhando o que ele pensava, pegou o celular e brincou com a tela um pouco antes de colocar no bolso da calça jeans – Para quem você quer ligar? Para a polícia?

A voz infantil parecia deixar aquela ideia mais ridícula. Jonas o ignorou e respirou fundo esticando o corpo dolorido. Será que a polícia saberia de algo? Se acharam Cássio, o que estariam pensando. Imaginou o próprio depoimento, o quanto soaria ridículo. O inquérito não iria para frente. No máximo diriam que era uma consequência de uso de droga. Jonas era um reles estagiário, mas sabia fazer uma acusação tão bem quanto os advogados do escritório. E, portanto, sabia que não tinha chance alguma que esse ataque fosse julgado com a severidade que gostaria:

– Por tudo que ouvi, a polícia nunca ajudou muito. – a criança disse se inclinando para observar a mordida em seu pescoço – E isso aí? Doeu muito? Como era a vampira que te mordeu? Tinha vários dentes afiados? Era um bicho ou tinha forma humana mesmo?

O rapaz se afastou arredio e colocou as pernas para fora da cama:

– Eles têm forma de bicho? – murmurou confuso tentando ignorar a culpa e, principalmente, a náusea que ainda perseverava. – Acho que ela era… normal, uma garota normal.

-Mas como –

– Guri, – a voz de Ágata se sobrepôs ao início de palavra da criança. Era uma leve repreensão, mas que sumiu no restante da frase – está tudo pronto, vamos comer?

Um cheiro de café invadiu o quarto. Jonas fitou a mulher buscando algum indício se o convite era para ele também. Ágata sorriu e se aproximou oferecendo sua mão para ajudá-lo:

– Talvez você consiga também?

Jonas aceitou o apoio e se levantou. O garoto o observou, incerto de como poderia colaborar, e se manteve assim por toda caminhada até o corredor. As proporções do apartamento comprovavam sua desconfiança que estava em um imóvel muito antigo. Tropeçou em um taco de madeira solto e Ágata não tardou a recolocar no lugar a peça empoeirada. O moreno ainda sentia a areia sob os pés e o som de ondas, mas conseguiu dar passos seguros e acompanhá-la. Agradeceu pelo jeito brando da mulher, era um alívio estar na presença de alguém que não era tão ansiosa quanto Rafael e o “guri”.

Passaram por uma porta fechada que claramente era o local da discussão dos dois homens e seguiram em silêncio até a cozinha. Ele fechou os olhos evitando a iluminação forte do lugar, não apenas pelas luzes acesas, mas pelas janelas sem nenhuma proteção contra o Sol. Só quando sentou que percebeu que a criança não os acompanhou até ali:

– Guri… o plantão da sua mãe não acaba em 2 horas? – a mulher perguntou de modo incisivo. Colocou a térmica sobre a mesa e se serviu de café. – Vamos logo, é melhor evitar o metrô muito cheio. E a bronca…

O garoto entrou na cozinha um tanto contrariado e foi até a mesa. Pegou um pão e tirou o miolo, voltando a olhar para o corredor:

– Não sei para que isso tudo, Augusto vai nos contar depois.

Ágata balançou a cabeça em negação e deu um gole no café antes de falar:

– Acho que não. O grupo de Rafael lida com umas coisas bem, bem diferentes das que você já viu aqui.

– Tipo a Ain Soph?

– Você tem que parar de falar o nome deles, sério…

– E aquela caixa na sala? – O pirralho questionou com a boca cheia. Arrancou o miolo de outro pão e, antes de levar a boca, encarou Jonas perguntando sem rodeios – Você sabe o que aconteceu aqui, não sabe? Aonde tá esse tal de Hans?

– Não – murmurou com a voz ainda rouca das tosses. Precisou se esforçar para continuar a sentença, nem tanto pela voz em si, mas para não se distrair com a iluminação excessiva, ou com o som ilusório das ondas complementando todo aquele diálogo sem sentido. – Não faço ideia. Não o vi desde que entrei aqui.

O garoto mastigou apressado por alguns segundos, parecia processar a informação a cada mordida, até que engoliu o alimento e murmurou:

– Você o viu usando a manopla? – o guri se inclinou para roubar mais um miolo, contudo Ágata, tirou o saco de seu alcance:

– Você lavou essa mão? – a morena o repreendeu. O tom era de deboche, mas a criança entendeu que não era apenas educação que ela pedia, era silêncio.

Enquanto o menino lavava as mãos, Ágata pegou um pão fresco e colocou na frente de Jonas. Ele realmente queria comer, não costumava tomar café da manhã na correria, mas aquele pão parecia delicioso. Até o café, que nunca o agradou muito, ele tomaria agora. A náusea não mascarava o quão faminto estava. Talvez toda aquela conversa sobre sua possível morte era o que o incentivava a comer qualquer coisa enquanto pudesse, mesmo com risco de vomitar em breve.

Percebeu que a morena o fitava. Sua expressão gatuna lembrava a de Cássio. Como ele, não tinha medo de encarar alguém e demonstrar que o analisava como se pudesse ler sua alma. Uma dessas poucas pessoas que conversam olhando nos olhos. Nada em sua expressão demonstrava que tinha empatia pela conversa anterior sobre sua condição ou pela morte de seu amigo. Jonas pegou um pedaço do pão e observou as cascas sujando a mesa, buscava perguntas, mas nem sabia por onde começar:

– Aquela manopla é uma relíquia, certeza – o garoto resmungou e Jonas lembrou do brilho da luva ao olhar os reflexos dos talheres a sua frente.

– Não. – Ágata riu com a insistência e se serviu de mais café. – Foi ele quem fez.

– Jura? Como você –

– É o que ele faz. – a morena deu de ombros e se levantou – Hans é o dono desse apartamento, guri. Você ainda vai ouvir Augusto contar algumas histórias dele.

A sentença fez Jonas observar atentamente a cozinha ao seu redor. A maresia ainda o confundia, mas o formato do cômodo, assim como o restante do imóvel lhe lembrava muito o que ele morou na infância. Não era possível que estava de volta ao seu pesadelo, era? Após aquela experiência, nunca mais ouviu as risadas calorosas do vizinho ou muito menos qualquer sinal da criatura que o atacou no corredor. Talvez se sua mãe não odiasse tanto a região central, ainda estivessem morando ali e o destino os teria colocado juntos; a única coisa que precisaria fazer seria ir para o apartamento do lado. Fixou o olhar na sombra da geladeira, os desenhos do azulejo despertaram seu mal-estar. Largou o pão:

– Eu preciso ligar para minha mãe…

A dupla se entreolhou. Jonas finalmente percebeu algum tipo de preocupação em suas faces:

– Augusto vai resolver isso, – Ágata disse e mordeu o lábio inferior – É melhor você não envolver ninguém por enquanto. Ainda mais com o céu do jeito que tá. Vai ser confusão na certa.

– Acho que ele pode ligar. – o menino colocou o celular sobre a mesa, o visor bloqueado mostrava a hora e diversos ícones de mensagens recebidas. – Estamos protegidos aqui.

Ágata pegou seu telefone e o desbloqueou:

– Você não viu como aquela sala está? Algo aconteceu aqui e acho que nenhuma das proteções que colocamos adiantou. – ela se levantou e continuou a falar enquanto digitava algo – E eu não vou aguentar passar duas noites seguidas fugindo de um Labyrs.

Jonas ignorou o termo desconhecido e se concentrou no celular. Tremeu com a possibilidade de tomar o telefone, tão próximo de seu alcance. Estava em dúvida se seria uma boa ideia contrariar pessoas tão esquisitas. Antes que pudesse se decidir, percebeu que os dedos de Ágata ficaram imóveis. A morena fitou Jonas e murmurou:

– Olha, mercúrio e o Sol não estão muito bem para você forçar fazer algo drástico assim. – ela sorriu e o rapaz sentiu o estômago embrulhar. A porta do corredor fez um barulho e falas puderam ser ouvidas, mas Jonas não conseguiu parar de estudar a expressão tranquila de Ágata. Por que ela estava citando planetas?

O diálogo dos dois homens invadiu a cozinha e Jonas desviou o olhar para Rafael:

– Então vocês acampam aqui antes de ir para casa?

Augusto entrou na cozinha dando de ombros:

– É perto do metrô, tem banheiro e geladeira… E essa biblioteca sempre ajuda. Aliás, você sabe que metade daqueles livros estão em russo, certo?

– É verdade… – Ágata murmurou enquanto lavava a xícara que usou.

– Sim, eu sei – o mago resmungou pegando a térmica de café e enchendo um copo qualquer que achou na mesa – ele nunca jogou fora.

Augusto fitou Rafael pacientemente, aguardando que alguma conclusão se formasse sobre aquele fato, mas os pensamentos do mago pareciam focar em algo completamente diferente. Sua expressão apenas ficou mais mal-humorada enquanto ele se concentrava em pegar um dos pães sem miolo que o guri largou.

Ágata foi quem rompeu o silêncio:

– Eu tenho um mapa em 2 horas, conversamos depois?

– Sim, sim, é melhor esperarmos uns dias para voltar a Haddock*.

– Mas não vai ser pior? Não vai aumentar aquela coisa? – o menino perguntou, tinha acabado de lavar a louça que sujou e enxugava as mãos na roupa.

– Precisamos descansar e é melhor não chamar a atenção dos sanguessugas por agora.

Jonas fez uma careta, exausto por tentar acompanhar aquele diálogo. “Sanguessugas” Rafael usou esse termo também para descrever Juliet. Então realmente tinham vampiros por toda a parte? Sua mente lhe trouxe a lembrança da mordida no porto, da falta de ar do ataque no corredor. Ouvir outras pessoas confirmando, deixava tudo mais real. Imaginou quantas pessoas eram atacadas todos dias. Em Santos, em São Paulo, no país… No mundo.

O reflexo dos óculos de Augusto o atingiu e Jonas piscou algumas vezes, desviando daquele olhar de vidro e observando o restante do grupo. O que eles faziam exatamente? Seriam reais? Ou mais uma continuação de seu pesadelo? Sentiu o gosto de mar na boca e uma ânsia o atingiu. Quis tossir,

Ágata tocou no ombro do velhote e encarou Jonas:

– Ele quer ligar para os familiares. Vou checar quando poder ser melhor e te aviso, ok?

– Certo. – o velho ajustou os óculos no nariz e respirou fundo. – De preferência em um horário que todos os planetas estejam dopados, Ágata.

As falas fizeram-na sorrir e a morena ignorou o modo como Rafael os encarou. Ele não estava nada feliz com aquele pedido (e resposta), mas sua expressão carrancuda foi ignorada pela dupla:

– Bem, vou embora. Te levo em casa, prodígio, só vou ao banheiro antes.

O menino pareceu finalmente deixar o sono abatê-lo e concordou bocejando.

Augusto comeu um pouco antes de se manifestar novamente:

– Eu tenho um contato para te ajudar com o garoto – sinalizou Jonas com o queixo pontiagudo – Mas você sabe quem pode ajudar Hans.

Um silêncio desconcertante invadiu a cozinha e Jonas sentiu sua ferida arder. Rafael encarava a xícara de café parecendo buscar respostas para aquela proposta de Augusto:

– Não. – murmurou e fitou o idoso, a expressão repleta de desdém – Não. Você está falando sério?

Mais uma vez os reflexos do Sol tomaram os óculos do mago:

– Tchê, tu precisa de alguém corajoso, e muito resistente, para entrar na casa do General. – O sotaque escondido naquela sentença surpreendeu Jonas, mantinha um tom de voz brando, mas algo lhe dizia que não era sempre que Augusto deixava escapar sua origem sulista. Sua suspeita foi confirmada quando viu sua reação a aproximação da criança na mesa. O garoto estava ansioso para se manifestar, provavelmente alguma pergunta inconveniente, mas Augusto levantou a mão em sua direção. Mantinha o olhar cortante em Rafael e apenas aquele gesto foi o suficiente para desencorajar o menino. – Seja para negociar, ou tirá-lo de lá à força, tu precisa de uma assassina, Rafael.

– Eles cortaram relações. Há anos. E mesmo que ela esteja no Brasil… por que ela me ajudaria?

– H a n s. – o nome ganhou um tom ríspido e ele sorriu impaciente. – Isso não é sobre você, Rafael, é sobre Hans. – Augusto deu de ombros e mordeu o pão, voltando ao tom casual de outrora – E acho que o tempo passa diferente para um imortal.

Rafael bufou indignado. Antes que pudesse falar qualquer outra coisa, ou o guri pudesse formar suas perguntas ansiosas, Ágata apareceu, sinalizando um adeus:

– Pronto, vamos, guri? Boa sorte para vocês!

O mago mal-humorado forçou um sorriso cheio de escárnio e bufou mais uma vez.

Jonas entendeu sua reação.

“S o r t e” pensou amargamente e seu subconsciente bêbado de delírio lhe presenteou com as letras escritas na areia. Sorte era tudo o que não tinha acontecido até agora e não poderiam contar.

*Haddock Lobo: Rua de São Paulo.
A imagem desse post é de dimitrisvetsikas1969

>> continue a leitura em CAPÍTULO V – RUÍDOS ( disponível em 22/02/18)