As palavras da segunda vítima desapareceram em seu ouvido. Saciada com o calor de vida que preenchia seu corpo, largou a garota no terreno baldio e seguiu rapidamente pela calçada vazia. Juliet tirou o pequeno espelho da bolsa e limpou os resquícios do crime. Seu rosto já aparentava um pouco mais de vitalidade do que uma estátua de mármore,  e ela seguiu o seu caminho, satisfeita com a ausência de pessoas por ali. Pela breve conversa que tivera com Adrian, os corpos não seriam um problema nesse bairro. O pior de sua condição era essa preocupação constante em não deixar vestígios que causassem furor nos folhetins de conspiração de uma cidade. Seu criador, porém, poderia se alimentar a qualquer momento e de qualquer um, sem grandes consequências – se quisesse, apenas algumas gotas aqui, outras ali. Já o viu fazendo isso em uma balada e podia jurar que as jovens assediadas nem perceberam que, entre uma carícia e outra, fizeram uma pequena doação de sangue. Ela, por outro lado, nunca passava despercebida. O seu beijo era tóxico, mortal.

A loira finalmente chegou até uma rua mais movimentada e reduziu os passos.  Deixou as conversas em português virarem sua trilha sonora e observou as roupas e trejeitos dos jovens ao seu redor. Concluiu que se misturava facilmente naquela multidão e Juliet questionou a si mesma se não julgou mal a cidade. Percebeu que seus pulsos já estavam completamente curados e que já podia filtrar melhor os sons ao seu redor, passou a admirar toda a agitação. Claramente grande parte de seu incômodo na noite anterior foi causado pelo feitiço dos magos.

A cena retornou a sua mente. Seu desempenho foi ridículo, não  conseguiu nem se aproximar do homem que usava aquela luva estranha. Seus olhos não esboçaram medo ou raiva alguma quando murmurou as palavras que a feriram. Naquele breve segundo em que os símbolos da luva brilharam, Juliet teve certeza de que morreria… Mas não, apenas foi jogada para longe da caixa. A dupla era muito mais forte do que aparentava, por que se contentaram em prendê-la? Por que não a mataram?

Imaginou se isso seu mentor saberia responder. Saber, provavelmente sim. Responder, de fato, já era outra história. Sempre reclamava das informações rasas que Adrian lhe passava sobre sua condição, sobre os Vox Regius, ou sobre qualquer outra família imortal que existia por aí. Claramente ele não se importava em entrar em contato com demais vampiros, mas pelo menos poderia arranjar alguém disposto a lhe explicar o que nenhum livro conseguia.

O vermelho do semáforo lhe chamou a atenção e ela aguardou com os demais pedestres para prosseguir. Analisou o grupo de adolescentes ao seu lado, levavam mochilas e conversavam sobre o prazo para entregar o dever de casa. Lembrou-se da agonia que sentia com o volume de estudos acumulados, a pressão das notas para entrar na universidade… Atestou que era exatamente assim que se sentia agora, após ter perdido a encomenda do familiar de Adrian.

Fingiu um suspirar mundano. Jamais saberia a resposta sobre a atitude dos magos e seria melhor começar a pensar no real problema de toda essa situação: a encomenda foi roubada e ela não fazia ideia de como o General de São Paulo reagirá. Ashtaroth lhe pareceu um tanto inofensivo pela breve conversa que presenciou em Praga, mas talvez esse seja um padrão de comportamento entre membros da mesma família. Seria o General dessa cidade um Vox também?

A culpa pelo sofrimento dos dois rapazes diminuía mais e mais conforme se aproximava a hora de enfrentar o destinatário da caixa.

Determinada a adiar seu destino, ignorou o relógio e seguiu pelas ruas da metrópole. Observou o contraste dos prédios modernos e a arquitetura cheia de firulas, do trânsito parado e os pedestres apressados. Seus olhos de turista absorviam tudo, porém quando estava admirando um muro repleto de grafites, percebeu que as sombras do local não faziam sentido. Seguiam a direção da luz de um poste distante e não mudavam quando os faróis dos automóveis cruzavam o viaduto. Nenhum outro pedestre exibia preocupação com o fenômeno, estavam preocupados demais em evitar a abordagem dos mendigos presentes para notar o chão.

Curiosa, Juliet pegou o celular e voltou sua luz para o trecho suspeito. A luminosidade foi ignorada, a sombra se manteve e ela podia jurar que na verdade o tom escuro da calçada ficou mais intenso. Tinha algo errado ali, seus sentidos reagiram em alerta como quando encontrou os dois feiticeiros no navio, ou até pior.

Achou por bem não arriscar outra surpresa na ausência de Adrian e seguiu seu caminho. Ignorou a sensação de estar sendo seguida e se concentrou em aumentar sua velocidade e seguir o mapa do celular. Percebeu que a sensação aumentava conforme se aproximava de seu destino, porém subitamente desapareceu a poucos metros da morada do General. Não se prendeu a detalhe algum dos muros que o cercavam ou muito menos em sua arquitetura, contentou-se com a beleza de seu mentor e aproximou-se aliviada.

Estava prestes a lhe questionar se percebera algo estranho nas sombras da cidade quando a expressão do vampiro a desmotivou:

– Você demorou! – disse Adrian, apoiado no suntuoso arco da porta de folhas duplas do palacete do General da cidade. Os braços cruzados e o rosto franzido. Juliet olhou ao redor, ignorando-o e decidindo que não valia a pena se aborrecer citando o que ocorreu. Suspirou resignada.

– Por que é que não tem ninguém para nos receber?

– E deveria? – perguntou Adrian, com os olhos verdes fixos no interior escuro da mansão. – Aparentemente ele se confia demais, o General. Talvez tenha alguns serviçais por perto. Além do mais, teoricamente ele não sabe que estamos vindo. Não creio que o Ashtaroth tenha ligado para avisar, imagine: “Alô, fulano de tal, estou mandando um casal de vampiros para a sua cidade com um dos espólios do Indulto do Sangue, aquele que eu deveria ter mandado há algum tempo, mas que deliberadamente esqueci, pois tenho coisas mais importantes para fazer. Espero que não tenha problemas. Trate-os bem, o rapaz é cria da minha cria, e a moça é demasiadamente bonita e virgem e ainda espero desfrutar de sua companhia, um dia. Com amor, Alexis”. Não combina nada com ele, não acha? Além do mais, imagine o quão furioso ele ficaria caso estivesse na expectativa de nos ver e, bem… chegássemos de mãos abanando porque você perdeu a caixa? Não passaríamos inteiros da soleira.  – O vampiro abriu um sorriso, fez um gesto com o dedo indicador sobre o pescoço e disse, em uma imitação fajuta de uma ilustre personagem da literatura inglesa: – CORTEM AS CABEÇAS DELES!!! Não vai ser assim tão fácil convencer o General da sua inocência, sabe? Por natureza, eles não são muito complacentes.

Juliet revirou os olhos, ao passo que Adrian encolheu os ombros:

– O que você quer dizer com isso? Não é como se eu tivesse entregado a caixa nas mãos daqueles magos. Sem mencionar que você não me ajudou. Ele vai entender isso, tem que entender.

– É ruim, hein? Nem um pacificador deve ser capaz de salvar o nosso pescoço esta noite.

– Na realidade, qualquer criatura com o mínimo de bom senso entenderia muito bem que nada do que aconteceu foi culpa minha e…

– Nada, nada? Tem certeza? – perguntou Adrian. Juliet parou de falar e olhou para os próprios pés, à medida que o sorriso do seu criador se desfazia. A vampira não deveria sentir o peito pesado nem o nó que se formava em sua garganta, pois aquelas eram sensações muito humanas, fantasmas de uma época que nunca mais voltaria. – Juls… eu…

– Não, você está certo. – disse ela, dando um passo para trás e espalmando as mãos na frente do corpo, em um gesto defensivo. – A culpa também foi minha. Mas eu não posso ser responsabilizada por tudo, certo? – engoliu em seco, aliviada por confessar o quanto temia aquele encontro. – Então, é… talvez nenhum Pacificador seja capaz de nos salvar, mesmo… – e esboçou um sorriso amarelo antes de continuar: – …mas pelo menos eu não vou sozinha.

Adrian continuou com os olhos baixos. Mordeu o lábio inferior por um segundo, antes de dizer: – Juls, a gente precisa conversar. Eu acho que devo algumas respostas a você…

A vampira congelou. Olhou fixamente para o seu criador, por alguns segundos, como se tentasse processar o que acabara de ouvir. Ele estava disposto a lhe dar respostas de bom grado? Ou seria por pena? Seriam respostas sinceras? O sorriso amarelo se desfez, e ela perguntou: – S-sério?

– Sim, mas não pode ser agora. Quando voltarmos à Praga, certo? – Ele se aproximou e pegou na mão de Juliet, olhando no fundo dos seus olhos. – Eu acho que posso ajudar. – Disse.

A garota não sabia se ficava feliz com a possibilidade de respostas, ou irritada com as expectativas mais uma vez frustradas: só em Praga, em semanas? Porque não agora? Seria mais uma das brincadeiras dele?

Ela desviou o olhar e deu de ombros, a frustração ganhando cada vez mais espaço no seu rosto:

– Como quiser, Adrian. – Disse, se afastando um pouco do outro e olhando desconfiada para a rua deserta. – Não é como se eu tivesse escolha, né? Você me enrola há três anos, a única coisa que eu sei é que devo beber sangue para sobreviver, e que não posso ser tocada pelo sol. Só. Nem mesmo a hierarquia eu entendo direito, porque você nunca explica as coisas de maneira objetiva. Imagino que eu saiba o que é um General, ou um Pacificador, mas não porque você me disse.

Adrian não respondeu nada, parecia bastante surpreso com a reação de Juliet. Ele devia imaginar, pensou ela, que a vampira ia explodir em vivas e sorrisos com a possibilidade dessa conversa, e não devia estar entendendo o motivo de suas expectativas terem sido frustradas:

– Então, é… a gente precisa conversar, mesmo. Porque a gente nunca conversou.

O vampiro apertou os lábios por um ou dois segundos, antes de suspirar – ela observou que ele também mantinha alguns traços humanos – e dizer:

– Quer que eu te explique um pouco mais sobre a hierarquia agora, então? Apenas linhas gerais, e a gente conversa melhor depois?

Ela deu de ombros, como se dissesse “você é quem sabe”. Por um momento, parecia que tinha esquecido de Jonas e Cássio, e eram só ela e as suas dúvidas, de novo:

– Bom…Como você viu em Praga, no território do Ashtaroth, digamos que o General é aquele cara que você tem que se ajoelhar e lamber o c… hmmm… puxar o saco até que ele te expulse da cidade. Dependendo de como você faz o trabalho, ele te deixa ficar um pouco mais de tempo, mas é bem raro que um vampiro forasteiro fixe residência em uma cidade sem a aprovação do General. Quer dizer, é quase impossível.

– Continua não contando como uma explicação! – Esbravejou ela, após alguns segundos de silêncio por parte de Adrian. Apertando os olhos e cruzando os braços. – Isso é uma hierarquia, por acaso? Um cargo só?

– Pff… Certo, lá vamos nós de novo. Tenho certeza que já é a terceira vez em dois anos que te explico isso, você deve ter dislexia ou déficit de atenção, Juls, é a única justificativa. E olha que você parecia tão inteligente, estudando naquele cemitério…  – Resmungou Adrian, erguendo o dedo indicador na frente dos olhos de Juliet, como se pedisse atenção. O semblante era sério, mas os olhos faiscavam e ela quase podia vê-lo sorrindo. Naquele momento, a vampira o odiou como nunca antes. Quando humana, imaginava que enfrentaria esse tipo de comentário quando estivesse na universidade e precisasse  lidar com um professor maluco. Talvez não se sentisse tão frustrada e impaciente se, pelo menos, tivesse alguma fonte (confiável, o que automaticamente excluía Adrian) de informações para suprir a sua confusão constante.  – Primeiramente temos o Imperador. Ele, na realidade, é um dos patriarcas das três grandes famílias, porém há muito tempo se auto-intitulou Imperador e ninguém é doido de dizer o contrário. Mas, tecnicamente, ele é um Czar, ou um César.

Juliet ergueu as sobrancelhas, encarou-o com uma expressão de descrença pura, descruzou os braços, pronta para ouvir mais, em uma posição evidente de ressalva. Não estava disposta a acreditar em tudo o que Adrian dizia, porque muita coisa que vinha da boca dele era, bem… mentira.

– É sério, os chamamos assim. Czares. Eu conheci o Imperador uma vez, no Indulto do Sangue, quando era bem próximo de uma de suas crias – mas há algum tempo eu perdi contato com ela. O cara exalava maldade. E se o que falam for verdade, não é nem bom ficar falando dele assim, em vão, por aí. – Adrian olhou ao redor, esquadrinhando o local. Demorou-se alguns segundos nas sombras atrás de Juliet, que abandonou a expressão cética por um instante, lembrando-se das sombras estranhas que vira mais cedo. Congelou, mas algo em seu interior sussurrava: “olhe para trás, olhe para as sombras.” Ela  tentou ignorar. Por um segundo teve medo. Deveria, então, temer as sombras? Adrian nunca mencionara isso.

– Depois, temos os  três pacificadores, que são tipo… os conselheiros. Ou, como eu os vejo: os caras que limpam todas as cagadas dos Generais mais imbecis… afinal, alguém que precise de um grilo falante resmungando o que é certo e o que não é no seu ouvido não pode ser considerado um bom governante, pode? E acredite não foi à toa que o “cargo” surgiu no Indulto de Sangue, se não fossem por eles, as outras famílias continuariam a guerra contra nós até hoje. – A esta altura, Adrian tinha erguido o dedo indicador e médio diante dos olhos de Juliet. Então, foi a vez do polegar se apresentar. Aqui, Adrian abriu um sorriso. – E por fim, temos os cruéis, viciosos, voluntariosos e absolutamente necessários Generais. Aqueles a quem 10 em cada 10 vampiros amam odiar. Eles são os nossos Senhores Feudais, e nós somos meros camponeses que só entramos nos feudos e brincamos de fazendinha se eles deixarem. Se não, nada feito. Em cada pólo de concentração vampírica há um, que governa e administra tudo o que se refere a nós. Eles são nossos protetores, mas para nos proteger eles exigem o que qualquer monarca exigiria: obediência. Há um motivo pelo qual eles são escolhidos para este cargo, e não é porque o sorriso deles é mais bonito que o nosso, nem porque eles são mais bonzinhos. Alguns deles são a epítome da filha-da-putagem. Já ouviu falar em Maquiavel, e como o Príncipe deve se portar para manter o poder?

Juliet revirou os olhos, confirmando em sua língua materna, e Adrian continuou o monólogo:

– Quem você acha que o ensinou aquelas coisas? Só que não existem príncipes entre nós. Não existe esse ideal humano de bondade, erudição e altruísmo. Afinal, nós não somos humanos. – Juliet ergueu as sobrancelhas e bufou um “não diga”, também em francês, que ele prontamente ignorou: – Quanto mais temível e impiedoso for um General, mais bem sucedido será o seu território e nenhum Inquisidor, Templário ou Mago ousará colocar os pés ali para nos ameaçar.

Juliet quis interrompê-lo, confusa com aqueles inimigos que ocasionalmente ele citava. Adrian não deixou nenhuma sílaba sair de seus lábios:

– E São Paulo, minha querida, é uma das cidades mais famosas do mundo pela sua concentração vampírica, o que faz desse General em particular bem… como posso dizer… Digamos que ele realmente não precisa de arautos, guardas, ou qualquer outra coisa. Qualquer criatura em sã consciência se cagaria inteiro só de pensar em peitar esse aí.

– Pode ser, mas eu me sentiria mais à vontade se tivesse alguém para anunciar nossa chegada. – enfiou as mãos nos bolsos do sobretudo, ainda esquadrinhando a rua escura e fria a procura de algum vampiro, sem sucesso. Além deles, a única coisa que se mexia era um gato que comia de uma caçamba de lixo alguns metros adiante. – Enfim… vamos?

– Mas você não quer alguém que anuncie nossa presença?

– Querer, quero! Mas como é que vamos conseguir isso?

– Eu posso gritar… – sugeriu ele, zombeteiro.

– Não! – fora categórica. Aparentemente não tinha percebido o tom de deboche na voz do companheiro, e mesmo que tivesse, era bastante provável que ele, de fato, gritasse. Apenas para irritá-la, como sempre. – Vamos ser o mais silenciosos e discretos possível.

– Mas aí sim que vamos parecer intrusos, Juls… – respondeu, enquanto abria caminho para Juliet e a acompanhava de perto, embrenhando-se na escuridão quase palpável e sufocante que tomava conta de todo o saguão da Mansão.

Continuaram avançando por algum tempo por um corredor estreito e revestido de tapeçarias e quadros antiquíssimos. Juliet, apesar de apreciar arte, não desviava o olhar de seu caminho. Adrian, por outro lado, olhava absorto cada pintura que encontrava, como se estivesse em um museu particularmente interessante. As mãos nos bolsos, e a boca fechada, ainda cantarolando baixinho uma música que ouvira no caminho e que grudara em sua cabeça. Balançava o pescoço no ritmo da melodia, e vez ou outra estalava a língua, como se floreasse ainda mais a música pobre e sem conteúdo.

– Sabe que esse General tem bom gosto? – comentou ao passar por uma enorme tapeçaria que retratava uma mulher nua amarrada a um tronco de madeira, com as costas marcadas por chicotadas e os longos cabelos empapados em sangue e suor. – Gostei desse aqui. Você não?

– É grotesco.

– Ah, pelo amor de Deus, Juls. Somos vampiros!

– E por que somos vampiros temos que ter mau gosto, por acaso? – perguntou ela, bufando e apressando o passo, obrigando Adrian a fazer o mesmo.

– Como você é chata! – disse o vampiro, aos seus calcanhares. – Você era mais legal quando ainda era humana.

Ela não respondeu, mas concordava com ele, mais legal e mais feliz também. Caminharam mais alguns metros até se depararem com uma ampla sala circular. As luzes foram acesas no segundo que eles tocaram o piso de ônix espelhado que revestia todo o piso. Enormes candelabros de ferro erguiam-se pelo aposento, milimetricamente alinhados, cada um com sete velas acesas e já gastas pela metade. Nas paredes, aqui e ali, enormes cortinas de cor vinho se estendiam, intercalando as velas. Na frente de cada cortina havia um vampiro parado, imóvel, como se fosse uma estátua. Totalizavam sete e todos pareciam absolutamente iguais: altos, cabelos loiros e longos presos em uma trança, a postura perfeitamente alinhada e as vestes negras e bordô que lhes cobria tudo exceto as mãos enluvadas e os rostos. Juliet não conseguiu desviar os olhos por vários segundos, aqueles eram os primeiros vampiros, além de Adrian e Ashtaroth, que conhecia, mas não estava impressionada. Não entendia muito bem a pompa do local, a necessidade de tanta formalidade. Para a mansão de General, aquele lugar estava parecendo demais com o castelo de um príncipe. Um principe bem brega, pensou.

– UOW! – exclamou Adrian, os olhos arregalados, olhando para um ponto mais adiante. Juliet desviou-se dos vampiros e acompanhou o olhar do companheiro até encontrar uma figura completamente deslumbrante: uma mulher alta e esguia, de rosto negro e longos cabelos anelados, presos nas laterais por pequenos adereços prateados que os fazia cascatear graciosamente para trás. Trajava um vestido longo, vermelho e muito justo ao corpo; as pernas cruzadas e os braços descansados no trono. Sentava-se com elegância, os olhos arrogantes pousaram-se primeiro sobre Adrian, depois sobre Juliet, que estava totalmente ciente de não ter causado uma boa impressão, embora não soubesse o motivo. Olhou para as jóias que a mulher usava: um colar de pedras brancas e pulseiras por cima das luvas rendadas que chegavam até metade de seus braços. A sensação de deslocamento de Juliet só aumentava, cada novo detalhe que seu cérebro conseguia processar adicionava uma nova camada de desdém por tudo aquilo. Não sabia muito bem o que esperar, mas com certeza não era aquilo. A casa de Ashtaroth era maior, mais luxuosa, mas Juliet sabia que ele se considerava, literalmente, um deus, então toda a ostentação se justificava. Agora, perguntava-se o quão frequente era aquilo no mundo vampírico. Percebeu que não conseguia tirar os olhos da General, tinha a impressão que aquela mulher era muito mais perigosa do que Ashtaroth e Adrian juntos, mas não sabia muito bem porquê. Parecia tão frágil e prodigiosa ao mesmo tempo. Não pela última vez naquela noite, a vampira sentiu medo. – Nyla! Então você é o General da cidade?

 

– Adrian… – disse, séria. Sua voz era baixa, porém ecoou por todo o aposento sem dificuldade alguma.

– Você a conhece? – perguntou Juliet, erguendo as sobrancelhas. A mulher não olhou uma segunda vez para ela. Era como se não existisse mais ninguém na sala, exceto Adrian.

– Claro que conheço! – respondeu ele, radiante e com um enorme sorriso estampado no rosto. Juliet assentiu com a cabeça de maneira ríspida, apertando os olhos e desviando-os para o chão. – Éramos companheiros, mas acabamos por nos separar quase vinte anos atrás. Era dela que eu estava falando agora pouco, a filha do Imperador. Não sabia que você viraria General, Nicole! Ainda mais dessa cidade. São Paulo, hein? E pensar que nos separamos em Praga. Faz bastante sentido o General daqui ser tão temido, eu deveria ter desconfiado!

Nicole assentiu, abrindo um enorme sorriso que fez seu rosto parecer ainda mais provocante. Sua voz era pouco mais alta do que um sussurro, como uma amante resfolegando aos ouvidos do amado:

– Sou a soberana desta cidade há pouco mais de uma década, Adrian. Depois que nos separamos, vaguei alguns anos pela Europa, e então decidi respirar novos ares: o novo mundo me pareceu interessante.

– Mas um país cheio de miséria como este?

– Miséria para os mortais, não para alguém como eu. Não estou interessada em assuntos humanos, deixo isso para as instituições de caridade dos Inquisidores. E como não há mais nenhum nessa cidade… – sorriu misteriosa e Juls imaginou quantos desses tais Inquisidores ela aniquilou sem piedade – Bem, para mim eles servem apenas como alimento e diversão. Nada mais.

– Hah! Típico! – riu Adrian, cravando os olhos na vampira; mais especificamente no decote, mas esta pareceu não se importar, apenas lançou a ele um olhar cheio de malícia.

– Típico. – concordou com a cabeça. Não estava falando dela própria, mas da atitude do rapaz. – Você não mudou nada, querido.

– Ah, nem você. Quer dizer… Roupas melhores, obviamente, e cheia de jóias. Não fosse uma Cruentus da linhagem que é, diria que você se rendeu aos encantos do luxo humano e se porta agora como uma Vox, ainda mais em uma posição política tão… inerente aos meus familiares.

– Não compartilho da sua última afirmação, querido. Se a sua família ainda fosse a nossa governante real, todo o sangue derramado durante o Indulto teria sido em vão. – disse, categórica. Adrian sorriu, assentindo com uma breve reverência. – Mas não nego apreciar o que os humanos podem me oferecer, afinal, são para isso que servem, não? Um rebanho tem como único propósito servir o seu senhor da melhor maneira possível.

– Você fala como se não tivesse sido humana antes de ser transformada! – disse Juliet, que até então estivera calada. Um pesado e incômodo silencio se seguiu, em que Nicole a encarava com os olhos faiscantes e as sobrancelhas alteadas. Adrian, por outro lado, não olhava para a cria: levara uma das mãos ao rosto, praguejando baixinho e lançando olhares furtivos para a vampira negra sentada adiante.

 – Você é louca? – Perguntou Adrian, lançando um olhar cheio de urgência para Juliet. – Não ouviu nada do que eu te disse nas últimas horas? Essa é a…

– De fato, já o fui. – Interrompeu o General – Mas há tanto tempo que sequer me lembro de minha vida mortal. Muitos! Muitos mesmo, criança, e se me lembro de algo de minha época humana, é de que fui ensinada exatamente o que prego hoje: humanos são repasto, nada mais.

– Então você não teve pais decentes! – disse ela, apertando os punhos. Adrian fez uma careta e murmurou um ‘cala a boca!’, mas Juliet fez questão de fingir que não o ouvira. O vampiro deu um passo na direção de Nicole, abriu a boca para interferir, mas esta ergueu a mão ordenando que ele parasse.

– Não, não tive. – Nicole abriu um sorriso, mas desta vez havia algo mais que a costumeira voluptuosidade: havia um brilho em seu olhar que alertava a todos os presentes da iminência do perigo. – Mas quem é você, criatura ignorante, para questionar os meus valores?

– Ela é Juliet, minha cri… – começou Adrian em tom apologético.

– Você é muito arrogante! – a loira o interrompeu, irritada com toda aquela discussão aristocrática sem cabimento.

– …a. – completou o vampiro. Virou-se novamente para a loira, perguntando-se se tudo aquilo era vontade de morrer. A culpa que ela sentia era tão grande a ponto de procurar despertar, intencionalmente, a ira de uma das vampiras mais impiedosas do mundo? Talvez, pensou Adrian, aquela fosse uma grande oportunidade de aprendizado para ela. Ou não. Decidiu não decidir. Apenas encolheu os ombros e virou o pescoço para Nicole, esperando que a cabeça dele não rolasse junto com a de sua pupila.

– E você é muito tola! – retrucou o General, sua voz explodindo em um brado de fúria incontida. – Demasiado tola em pensar que pode entrar em minha morada sem ser convidada e me desacatar dessa maneira, ou em  julgar que por ser cria de Adrian estaria a salvo das suas obrigações para com sua soberana: eu sou sua senhora, você é minha vassala e deve se portar como tal. E uma vassala não questiona sua suserana, questiona, Juliet?

Juliet foi tragada de volta à realidade com violência. Sua expressão era de tamanho choque que seria facilmente confundida com a de alguém que acabara de ser esbofeteada. Nicole a encarava com os olhos castanhos chamejantes. Adrian agora assistia a cena com uma expressão que amalgamava ao mesmo tempo incredulidade, vergonha e uma ponta de divertimento.

– Me desculpe. – murmurou a vampira, ponderando que talvez tivesse passado dos limites. O calafrio voltou, pensou que se o General quisesse, ela não sairia daquela sala com vida. Mais uma vez a sensação de inadequação a tomou. Olhou para Adrian, ressentida por ele não tê-la defendido, embora soubesse que o que ela estava fazendo era indefensável.

O General a fitou por um momento.

– Muito bem. Aceitarei suas desculpas desta vez, pois sei como Adrian pode ser relapso com as suas obrigações de mestre…

– Ei! – o vampiro começou a protestar, mas Nicole ergueu uma mão pedindo silêncio, o que ele atendeu de pronto.

– …e não deve tê-la instruído adequadamente. Porém esteja avisada que ser filhote de um dos meus não significa que possa me tratar como sua igual. Adrian pode ser demasiado complacente, mas eu não sou! Demonstre um pouco mais de respeito da próxima vez que me encontrar, ou arranco a sua cabeça assim. – e estalou os dedos, o pequeno estampido ocasionado pelo atrito das falanges ecoando por todo o aposento e morrendo logo em seguida. Juliet sentiu o pescoço arder e novamente imaginou quantos inimigos o General matou para impor seu poder nessa cidade. Não disse mais nada, apenas assentiu brevemente e abaixou os olhos para o chão.

– Que isso sirva de aviso para você também, Adrian. Da próxima vez que trouxer alguém com maneiras tão deploráveis para a minha casa… – Deixou a ameaça morrer no ar. O silencio sepulcral que se fez perdurou por alguns segundos, e ele assentiu breve e quase imperceptivelmente, evidenciando que tinha entendido a recomendação. Os guardas sequer se moveram, mesmo depois de toda aquela situação embaraçosa. Juliet percebeu que Adrian os observava também e se perguntou se não seriam apenas estátuas.

– Vejo que não perdeu totalmente o jeito! – disse Adrian, desviando a atenção dos vigilantes e voltando-se para o General com algum interesse. Um sorriso malicioso se espalhando pelo rosto pálido.

– Sei como tratar quem está abaixo de mim. – respondeu Nicole com simplicidade, mas sem olhar outra vez para Juliet. Era como se fosse apenas ele e ela novamente.

– Eu sei! Isso sempre foi a sua qualidade mais marcante, como se tivesse sangue da nobreza.

– Ser nobre é ser um Vox Regius? – perguntou ela, erguendo o rosto em um gesto de arrogância e desafio. Era como se, diante de Adrian, ela sentisse necessidade de provar o seu valor. – Porque apesar de você ser um, sou eu quem ocupa o trono!

– Bom, eu nunca gostei muito de tronos. – respondeu Adrian, dando de ombros. – Quer dizer, são um bom fetiche, mas apenas isso.

– Adrian, por que você veio ao meu encontro? – perguntou, finalmente, a soberana, cravando nele um olhar indagador. O vampiro pareceu transpassado pela intensidade daqueles olhos, e Juliet buscou qualquer sinal de medo em sua expressão. Amigos ou não, aquela vampira não parecia ser do tipo que perdoaria o erro de um súdito.  Após alguns segundos de silêncio, ele disse:

– Bom, eu não vim exatamente ao seu encontro! Vim apenas ter uma palavrinha com o General da cidade, que coincidentemente é você.

– Foi o que quis dizer, Adrian.

– Ah, foi? – perguntou, afastando os cabelos dos olhos e esboçando um sorriso de desculpas. – Bom, então me perdoe. Eu vim em nome de Ashtaroth.

– Alexis? – perguntou Nicole, aprumando-se ainda mais e erguendo as sobrancelhas. – Desde quando você é o garoto de recados da Ain Soph?

– Ora, mas que coisa mais feia de se dizer! – respondeu o vampiro, ainda sorrindo. – Eu apenas estava passando por Praga quando…

– Estava vindo para cá, por acaso?

– Isso realmente importa? – disse, ríspido, olhando fixamente para o General. – Posso ir embora se quiser, sem lhe dar o maldito recado!

– Atente ao seu tom de voz! Não é sensato ser tão impertinente comigo, garoto. – sibilou ela em tom de aviso. Porém, quando Juliet ergueu os olhos para admirar a cena percebeu também um resquício de ansiedade em seus olhos. Estes, ligeiros, voltaram a se tornar inflexíveis e impiedosos, quando ela ordenou: – Prossiga!

– Certo. Enfim, encontrei com Ashtaroth e ele me pediu para te entregar isto… – enfiou a mão em um bolso do casaco de gabardine e, para surpresa de Juliet, retirou de lá um embrulho de veludo negro e um pequeno livro cuja capa era de couro puído. – Disse que te devia isto há algum tempo. Julgo que este tempo seja exatamente sessenta e sete anos, quando você fez aquele trato com ele.

– Espere… – Murmurou Juliet, sem disfarçar seu espanto – Então…

– Exatamente, minha querida. A caixa que você deixou roubarem continha outra coisa. – Disse ele, fuzilando a loira com o olhar. Não havia sorrisos, tampouco aquele brilho malicioso, apenas desdém. – Não que eu esperasse que você percebesse isso, tendo em vista que estava ocupada demais com aquelas crianças. Se os magos tivessem roubado a encomenda verdadeira, nem os três pacificadores salvariam a nossa pele da ira dessa daí e do Alexis juntos.

– Você está DE BRINCADEIRA comigo, né? – Explodiu ela. A voz da vampira foi ampliada dezenas de vezes por conta do teto alto e ausência de móveis do local. Nicole pareceu inflexível, como seus guardas de pedra, enquanto Adrian arregalou os olhos e tentou argumentar, mas ela continuou: – VOCÊ NUNCA ME FALA NADA, PORRA! Vem com essa conversa de que a gente precisa conversar, mas me manipula que nem uma idiota, me fazendo acreditar que eu tinha feito uma cagada homérica naquele navio! Porque eu deveria acreditar em qualquer coisa que você diz, hein? Tudo o que sai da sua boca é MENTIRA, Adrian! E ela tem razão, você é um PÉSSIMO mestre…

Nicole sorriu, como se estivesse satisfeita por estar certa mais uma vez. Claramente não tinha empatia nenhuma pelo sofrimento da vampira e nem queria presenciar o desfecho daquela cena. Juliet tinha plena consciência de que deveria estar parecendo uma louca histérica, mas a revolta que sentia era grande demais para segurar.

– Não se preocupe, eu já cuidei do mago em questão. Os selos do pacote e do livro estão violados. – observou ela, estendendo a mão para apanhar os itens.

Adrian piscou algumas vezes, voltando à realidade, e começou a galgar as escadarias que os separavam. Mais uma vez, ele se valia da incrível habilidade de vestir máscaras para ocultar os seus verdadeiros sentimentos.

– Naturalmente! Os selos eram mera formalidade. Alexis sabia muito bem que eu daria uma espiada, e você também sabe. Convivemos juntos por muitos anos para esperarem uma atitude diferente da minha parte. – o cinismo preenchia cada linha do rosto marmóreo do imortal quando ele colocou o pacote de veludo e o livrinho na palma da mão do General. Nicole sequer olhou para eles, estendendo-o para o guarda mais próximo. Adrian observou o servo se aproximar e tomar os objetos da mão de sua senhora antes de sumir nas sombras sob seus pés. Esboçando um espanto fingido, assobiou baixinho e perguntou: – Uuh, Cruentus Umbra, também?

– Você sabe que não.

– Naturalmente. Os Cruentus não são assim tão confiáveis.

– Você tem mais alguma coisa para mim, ou é só isso? – fora a resposta que deslizou de seus lábios arrogantes.

– Hmm… Duas coisas. – disse ele, erguendo o polegar e o indicador. – Primeiro… – baixou o indicador – …queria pedir permissão para caçarmos algum tempo em sua cidade.

– Quanto tempo?

– Não sei. Alguns meses, talvez. Poucos! Não sei se suportaria ficar em um lugar tão fedido mais do que três meses.

Juliet olhou para ele, pronta para protestar, mas decidiu que a sua situação perante o General já estava complicada o suficiente para outra explosão de raiva. A revolta só crescia, aquela noite estava se tornando um pesadelo para a vampira.

– Vocês ficam por três meses, então. Nem um dia a mais. – disse ela, impassível, empertigando-se ainda mais no trono. – Qual a segunda?

Adrian não precisou falar: apenas o seu olhar e sorriso já denunciavam as suas intenções. Nicole permaneceu em silêncio por alguns segundos, depois simplesmente sorriu e olhou para Juliet; dois guardas dirigiram-se até a loira, ladeando-a, e a conduziram para fora. Ela, intrigada, olhou para Adrian, que apenas se despediu com um gesto amplo e disse displicentemente: “Até mais, Juls!”.

Os dois guardas, que até então mantinham a posição inerte, a acompanharam até a porta do aposento. O misto de vergonha e ódio pela mentira de Adrian em breve seria substituído por alívio, mas por enquanto, apenas sentia vontade de chorar. E destroçar toda aquela decoração funesta.

– Ela é bastante petulante! – disse Nicole, lançando um olhar arisco para a criança que se distanciava, marchando decidida entre os guardas.

Adrian forçou o sorriso e ignorou o incômodo causado pelo comentário ferino:

– Ela é muito nova, só isso.

– E você é um péssimo mestre! – afirmou ela, categórica. – Ela mesmo disse.

Sim. Era verdade, ele não se igualava à sua mestra dedicada, porém estava longe de sentir remorso por deixar a criança descobrir o mundo vampírico aos poucos. E longe de toda a hierarquia enfadonha que mais prejudicava sua família do que a fortalecia. Fitou os lábios de Nicole e sorriu esquecendo o pensamento melancólico:

– Compenso em outras coisas. – as últimas palavras foram ditas ao pé do ouvido de Nicole. Adrian utilizara-se de sua velocidade para se aproximar e debruçar o corpo sobre o dela. As mãos já prendiam os braços dela ao trono, e os dentes afiados como navalhas roçavam a pele morna de seu pescoço ebâneo. – Senti sua falta, Nic…

– E eu a sua! – respondeu ela, os olhos fechados e a boca entreaberta. Se ainda fosse humana, certamente o corpo todo se arrepiaria quando sentiu o toque dos lábios do rapaz em seu pescoço, e deixou um pequeno e tímido gemido escapar quando os caninos roçaram sua pele. – Você demorou.

– Eu voltei, eu sempre volto… – a boca dele passeou por todo o pescoço de Nicole, os cabelos roçando sua tez escura enquanto subia as mãos pelos seus braços e, ao chegar aos ombros, desciam novamente, pela lateral, roçando o tronco da mulher: seios, abdome, cintura. Enterrou os dedos por baixo do corpo dela, entre as nádegas e o assento aveludado do trono e murmurou em seu ouvido, após um suspiro pesado e longo: – Como eu disse, tronos são um bom fetiche!

Sorrateiramente as sombras engolfaram os guardas remanescentes, deixando o casal a sós na sala do trono. As velas também apagaram, como se assopradas por bocas invisíveis, e um lençol de trevas os cobriu por fim.

Da hora que se seguiu pode-se relatar apenas fragmentos  que não excedam o limite do decoro: não tardou para ambos se livrarem das roupas nem para que seus corpos se unissem com intensidade e selvageria ímpar. Não só o trono servira como o ninho do casal, embora fora nele que passaram a maior parte do tempo. Os suspiros dela eram tão doces que chegavam a inebriar os sentidos dele, deixavam-no embriagado, completamente deliciado com aquela voz. Veios de sangue escorriam por seus corpos, não só fruto da transpiração, mas das inúmeras mordidas que distribuíam entre si, em uma volúpia sangrenta. O sangue de um logo se misturou ao do outro, e o vigor de ambos nunca parecia se esgotar.

Mais tarde, sob a proteção das cortinas cerradas de seus aposentos, não pararam nem mesmo quando o sol despontava no horizonte e se erguia acima da megalópole cinza. Era como se o calor proporcionado pelo dia servisse apenas para aquecer ainda mais suas peles. Não davam sinais de cansaço, e também a suntuosa cama de dossel, o piso atapetado com material persa de séculos passados e a enorme banheira, serviram de palco para aquele espetáculo tão raro e intenso. Eram insaciáveis, ambos, e talvez aquela sofreguidão não se desse apenas por se tratarem de seres sobrenaturais, mas por sentirem um pelo outro uma atração única. Um desejo mortal que lhes incendiava as ideias e cegavam seus olhos.

A certa altura do dia, duas belas virgens foram conduzidas aos aposentos, porém não conseguiram acompanhar o ritmo do casal de vampiros. Tão logo foram envolvidas pelos seus braços, foram presenteadas com os lábios quase etéreos a roçarem seus pescoços, pulsos e seios. Serviram apenas de alimento, pobrezinhas, e cedo demais tombaram para o lado, esgotadas, vazias, mortas, submergindo na água borbulhante da banheira. Fios de sangue escorriam de seus pescoços e logo se dispersaram no líquido, formando efêmeras nuvens esfumaçadas.

– Quão frágeis… – admirou-se Adrian, olhando a cortina de cabelos que dançavam abaixo da superfície em um ritmo letárgico e hipnotizante. Nicole, sentada sobre ele, os braços envolvendo seu pescoço e os lábios em seu peito, sequer se deu o trabalho de olhá-las. Apenas meneou com a cabeça molhada e murmurou em concordância, “quão frágeis”, antes de arquear as costas para frente e submergir, ela também, no líquido já povoado de belas moças. O imortal sorriu.

Naquele momento, sem a constante reprovação de Juliet, sentiu-se pleno. A imagem dela foi se desfazendo da sua memória, como as nuvens de sangue se dissolveram na água da banheira. Ali, ele era Adrian em sua essência, e  não pediria desculpas por isso.

>> continue a leitura em CAPÍTULO IV – MARÉ