O querubim de pedra pedia silêncio, mas isso parecia ser impossível naquela esquina paulistana. A buzina das motos, o motor dos carros, a conversa dos pontos de ônibus… Haveria algum horário naquela cidade sem esse excesso de gente nas ruas? Estava em São Paulo há menos de uma hora e já concluiu que teria sérios problemas para se adaptar ali.

Juliet piscou algumas vezes retomando sua concentração para as estatuetas ao seu redor. Lembrou-se da época em que os rostos sem vida eram suas companhias favoritas para uma noite de estudos em sua cidade natal. Não havia lugar que se sentia mais em paz para ler do que o cemitério a caminho de sua escola. O silêncio era mais eficiente que o da biblioteca, as bocas de mármore não sussurravam fofocas juvenis ou polêmicas sobre crise do euro. Apenas as árvores farfalhavam vestígios de vento e as únicas palavras que podia ouvir eram as suas próprias, murmurando os versos do papel. Parecia um passado tão distante. Um passado tão recente.

Um pedido de socorro perdido no céu a fez parar e observar as luzes que cercavam o cemitério. A julgar pelo som dos passos pesados, do ofegar e do chacoalhar metálico de chaves e outros pequenos objetos jogados dentro de uma bolsa, tratava-se de um ladrão perseguindo sua vítima, alguém que ela teria prazer em deixar sua marca dolorida. Sem diálogo, sem gentileza. Sem saber o nome. Apenas finalizaria o ciclo de um indivíduo que não faria falta naquela cidade imunda. O novo pedido de socorro a fez sair da inércia e seguir seu caminho entre os túmulos, sabia que Adrian a observava atentamente e em breve faria um comentário ferino sobre seu comportamento. Estava determinada a disfarçar seu incômodo com os acontecimentos da noite anterior, mas era difícil considerando que o ataque daquele mago ainda limitava o movimento de seus pulsos. Ouvir o pedestre gritando as mesmas palavras que Cássio lhe murmurou antes de desmaiar fazia com que imaginasse uma mão gélida se fechando em torno da sua garganta e sentisse o fantasma do gosto de bile na boca.

Desistiu de ir atrás do assaltante e deixou o transeunte à mercê da própria sorte. Perguntou-se quantas vezes mais ouviria aquelas palavras enquanto se alimentasse. O sofrimento de suas vítimas era sempre esperado, mas de alguma maneira saber o nome daqueles meninos tornou a noite anterior indigesta. Suprimiu um sorriso amargo pela escolha de palavra, pois seu sistema não tinha digerido mais que algumas gotas de sangue antes da interrupção dos dois magos. Não bastava não ter se alimentado direito, ainda tinha que conviver com a certeza que aqueles dois moleques passariam dias sofrendo antes de sucumbir ao flagelo de sua mordida amaldiçoada. Frustrada, parou em frente a uma tumba e forçou sua portinhola:

– Ora, mas você deve estar brincando comigo, se acha que passarei o dia nesse local imundo! – ouviu Adrian reclamar. Estava sentado no muro baixo do cemitério, as costas apoiadas na superfície grosseiramente pintada de branco e as pontas dos pés afixadas um pouco mais abaixo; era como se a gravidade não existisse para ele, ou se estivesse colado ali, como uma bizarra estátua de mármore. Ergueu o rosto para ela, fazendo com que os cabelos fossem embalados pela brisa morna que soprava. Cravou os olhos verde-água nos de Juliet e entortou a cabeça ligeiramente para o lado – Porque não procuramos outro jazigo? Tenho certeza que acharemos algo mais apropriado. Talvez o de alguma família importante? São Paulo tem um prefeito, não tem? Famílias de políticos geralmente gostam de coisas ostentosas.

– Procure você, então! O sol já está nascendo e eu não quero me arriscar! – respondeu ela, ríspida, virando o rosto rapidamente e olhando-o com certo desprezo. O rapaz ergueu as sobrancelhas e alertou:

– Esta sua impertinência ainda pode nos trazer muitos problemas, especialmente agora que você perdeu a encomenda do General. Como é que eu vou me explicar para ele, com você a tira-colo esbravejando e atirando a sua amargura em cima de tudo e todos? Lembre-se de que você nunca encontrou outros vampiros além de mim e Ashtaroth, mas espero que não seja estúpida para ignorar que eles não costumam encarar insubordinação de maneira tão bem-humorada como eu. – mais uma lufada de vento varreu o local, erguendo algumas folhas secas do chão empoeirado do cemitério. – E ainda se contenta em violar túmulos miseráveis. Tsc, veja só! – apontou para o interior escuro do local, que exalava o característico fedor putrefato de cadáveres. – Aposto que já até mexeram nesse, ou algum bicho morreu aí dentro. Sente o cheiro?

Os olhos dos dois se encontraram por um instante. Juliet sabia a pergunta escondida naquela expressão curiosa, mistura de interesse genuíno e pena. Ele viu o sangue no navio, ouviu os detalhes de como enfrentou os magos que roubaram o artefato, mas em nenhum momento perguntou como ela atraiu os jovens até lá. Ela desviou o olhar, levemente constrangida:

– Espere um pouco. – respondeu, enfiando a cabeça dentro do jazigo e espiando lá dentro. O sol já estava bem próximo, não restava mais que quinze minutos para a alvorada, ela sabia. – Tem um gato morto aí dentro, mesmo. E já está amanhecendo. Vai dormir aqui, ou prefere sair à procura da tumba do prefeito?

– Você tira o gato?

– Tiro.

– Então eu fico! – respondeu Adrian, um enorme sorriso se desenhando em seus lábios carnudos.

– Eu sabia…

– Ora, não reclame! É para te fazer companhia!

– Não faço questão. Até prefiro que vá.

– Juls, isso não é jeito de falar com o seu criador. Às vezes penso que você não me respeita…

A loira olhou por cima do ombro e deitou, ignorando que Adrian esperava uma resposta. Ou buscava alguma em sua mente. O imortal a conhecia bem o suficiente para reparar em seu hábito de nunca levar uma presa para “casa” e ainda assim não questionou sobre como atraiu os jovens até a embarcação.Toda aquela noite foi atípica… Na verdade, toda aquela viagem soava estranha. Pela primeira vez ele a apresentou formalmente a outro vampiro, justamente um da alta hierarquia, que pediu que levassem uma caixa ridícula para a América do Sul. Para outro General. De navio. Como alguém com tamanho poder não tinha acesso a um serviço especial para uma tarefa dessas, ou no mínimo acesso a um avião particular? Mais uma peça de quebra-cabeças ofertada por Adrian, que ela não sabia onde encaixar, porque não conhecia a figura que deveria montar.

Pensar em tudo que não conhecia sobre aquele mundo a deixava furiosa. As dúvidas costumavam mantê-la acordada horas a fio e não foi diferente nesse amanhecer. Todos os líderes imortais que deveriam respeitar eram de sua família ou a hierarquia servia para todos? Por que apenas suas vítimas sofriam daquele jeito e as de Adrian se mantinham saudáveis?

Sentiu os pulsos arderem e os tocou, lembrando dos magos, e adicionou mais perguntas à enorme lista: era graças àqueles magos que Adrian lhe dizia que os Vox tinham muitos inimigos? Será que eles tinham o poder de curar Cássio e Jonas? Será que eles poderiam curá-la?

Sentiu os olhos queimarem e a boca seca, e lembrou-se também das sensações que sentia quando era humana. Agora ela não precisava respirar, não deveria sentir vontade de chorar, ou a boca seca, mas sentia. Não deveria sentir o peito apertado toda vez que lembrava dos olhos aterrorizados dos garotos. Ou as mãos tremendo. Não deveria sentir culpa… ou deveria?

Juliet pensou que ainda era muito humana. Não sabia ao certo se aquilo era bom ou ruim, pois Adrian e Ashtaroth não serviam de parâmetro, e ela tinha aprendido que quase tudo o que lera sobre sua espécie era mentira.

Lembrou-se então de uma passagem  de um dos seus livros favoritos, a qual dizia que “são as perguntas sem respostas que marcam os limites das possibilidades humanas”. Mesmo sem precisar, Juliet suspirou, se perguntando se algum dia teria aquelas respostas ou se os seus limites enquanto não-humana também já estavam traçados.

– Ei, acorda, dorminhoca! Já anoiteceu! – Adrian sacudia os ombros de Juliet com ambas as mãos, fazendo seu corpo todo balançar dentro do sepulcro apertado. A vampira resmungou alguma coisa, o rosto contraído. – Juliet, estamos atrasados!

– Eu já acordei! Pode  parar de me sacudir agora? – respondeu ela, os olhos ainda fechados.

– Até que enfim! Tem mais de quinze minutos que tento te acordar. Você dorme que nem uma pedra, mulher! Só faltava roncar… Aí eu iria procurar o jazigo do prefeito. – respondeu o vampiro, sentando-se sobre a borda do túmulo de mármore onde Juliet ainda se encontrava e cruzou as pernas. A garota se sentou. – Odeio quando vocês, crianças, demoram a acordar. Sinto-me praticamente uma babá…

– Cale a boca. – Juliet levava a mão ao rosto, afastando dele as mechas de cabelos loiros e ondulados que estavam terrivelmente bagunçados após ser chacoalhada por Adrian. – É sempre a mesma coisa, toda noite é a mesma coisa! Eu não aguento mais! Por que é que você insiste em me ter por perto, hein? É só para me tirar do sério?

– Nah! Não seja modesta, você já é rabugenta por natureza.

– Preciso comer alguma coisa. – respondeu a mulher, sem olhar uma segunda vez para a expressão cínica que se espalhava pelo rosto de Adrian. Sua pele estava fria e rija, pois não se alimentava direito há duas noites. Pelos seus cálculos, precisaria de quatro vítimas para suprir suas necessidades e estocar um pouco de sangue para a próxima parte da viagem.

Vítimas, pensou ela, que não sobreviveriam. Como os dois rapazes no porto de Santos. Sentiu um gosto amargo na boca e um aperto no peito. Sensações demasiado humanas. Dor humana. Culpa humana. Dessa vez não faria rodeios, não se envolveria. Não olharia nos olhos deles nem falaria com eles.

Com o antebraço, empurrou o outro de cima do seu leito e apoiou as mãos nas bordas, guindando-se para cima rapidamente. – Eu vou caçar. Podemos nos encontrar na morada do General daqui a duas horas, o que acha?

– Não vamos juntos? – Adrian olhou para Juliet com o cenho franzido. Enfiou as mãos nos bolsos, enquanto a vampira se distanciava, espanando a poeira das vestes e limpando o próprio rosto de porcelana com um lenço. – Você não conhece a cidade, não sabe onde é que o General mora.

– Eu me lembro o endereço, e tenho um celular com GPS. Posso me virar.

– Mas por que não vamos juntos, Juls?

– Por mais que você negue, o único motivo pelo qual me criou foi para ter alguém a quem perturbar quando bem entende. – E, antes de sair pela escadinha que levava de volta ao cemitério, parou e olhou-o por cima do ombro. – Dê-me uma folga, pelo menos por hoje, e me deixe apreciar de alguma forma a minha condição. Com você por perto eu só consigo sentir frustração e raiva.

– Não seja injusta, criança! – Não havia o tom de costumeira zombaria nas palavras do vampiro, desta vez. – Você sabe por que eu te transformei, Juliet. Foi porque eu me importo com você…

– Pois o seu jeito de demonstrar isso é muito estranho. – Ao dizer isso, saltou para cima do muro. Adrian também, e na fração do segundo seguinte já estava fora do mausoléu, mas não havia mais sinal de Juliet. Até mesmo o cheiro dela parecia se dispersar no ar. Não gostava de ficar sozinho, e talvez fosse essa a real intenção que tivera ao dar o ‘presente’ para aquela humana: queria companhia.

Seu rosto se contorceu em uma careta de ira. Socou, irritado, a porta do jazigo, produzindo um estampido ensurdecedor que ecoou por todo o cemitério escuro e, até então, silencioso. Uma revoada de pássaros alçou vôo das árvores próximas. Saltou para cima de uma tumba mais alta, agarrando-se ao pescoço de uma estátua de mármore que retratava um anjo de asas abertas, e olhou ao redor. Sentia cheiro de sangue fresco ali perto.

Ventava bastante aquela noite, aliviando um pouco o calor quase infernal que pairava sobre a cidade que, ironicamente, cintilava com pisca-piscas, guirlandas e decorações natalinas. As mãos de Adrian seguraram-se com firmeza na estátua, enquanto ele arqueava o corpo para analisar melhor o ambiente. Os cabelos balançando com o vento, ondulando para todos os lados, no mesmo ritmo de suas vestes igualmente escuras. Estava preocupado, sabia que a garota precisava conversar sobre o que acontecera no barco e sobre o “pequeno problema” que era ocasionado toda vez que precisava se alimentar. A verdade é que aquele tipo de maldição, nas últimas décadas, tornara-se mais comum do que a sua espécie gostaria de admitir, e ele mesmo tentava fechar os olhos para a possibilidade de ter algo a ver com isso.  – Volte logo… – Murmurou para a noite, se perguntando o quão culpada e solitária ela estaria se sentindo agora, e lamentando não poder fazer nada para ajudar. Ele sabia que ela demoraria bastante para voltar a sorrir.

Entendia o motivo de Juliet quase nunca fazê-lo.

– Volte logo… – repetiu. – Precisamos conversar.

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