O barulho irritante dos carros logo se justificou quando ele abriu as cortinas. Esquecera do quão perto o apartamento era do viaduto. As janelas do andar ficavam a poucos metros de uma das mais movimentadas pistas da cidade. A incômoda proximidade permitia ver detalhes dos automóveis e dos outros prédios que cercavam o viaduto. Ele franziu a testa ao notar um dos vizinhos imitando seu ato de abrir as cortinas. Invejava-o. Aquele sujeito iria aproveitar sua noite e descansar do longo dia enquanto Rafael… bem, Rafael não poderia ignorar o que representavam aqueles tons escuros envolvendo o céu.

Respirou fundo tomando fôlego para tentar dissuadir a pessoa mais persistente que ele conhecia:

– Está anoitecendo. – tímido, tamborilou os dedos nos ferros da janela envelhecida – Você não disse que iria tomar banho?

– Se ninguém chegou até agora, estamos a salvo, Rafael. Dá para relaxar? – O outro homem do cômodo exibia uma expressão oposta a de tensão da face do moreno. Ajoelhado no chão, Hans Ackart sorria examinando uma robusta caixa sobre a mesa de centro:

– Hans, se você não vai tomar banho, vamos logo para Guarulhos. – Rafael olhou-o por cima do ombro, o companheiro observava animado um dos cadeados como se fosse um brinquedo novo – Deixa isso quieto.

– Exatos vinte e dois cadeados, – murmurou Hans, sorrindo – e nenhum deles, nenhum, rompeu com a minha ordem.
“Hermeticamente lacrados…” Rafael quis falar, entretanto, antes que pronunciasse as palavras, lembrou-se que quanto menos incentivasse a curiosidade do alemão, mais rápido sairiam dali. Crispou os lábios, impaciente, e se virou para o amigo. Encostado na cortina empoeirada, pousou os olhos escuros no invólucro de tapume, o material ordinário não fazia jus ao que aqueles selos indicavam proteger. Aproximou-se alguns passos e as pequenas manchas escuras sobre a superfície amarronzada chamaram-lhe a atenção. Não se lembrava se aqueles respingos de sangue eram seus ou de Hans, mas com certeza mancharam a caixa quando defrontaram a criatura loira. Os pontos vermelhos deveriam lembrar o alemão das consequências de se meter no assunto dos sanguessugas, mas não, independente do quanto o olhar fascinado fitava a superfície do tapume, Rafael sabia que sua mente lhe mostrava outra coisa. O mago já sonhava com o objeto que encontraria em seu interior, era ele que se materializava em seus pensamentos conforme seu tato explorava as falhas, a aspereza e os vértices da caixa:

– Para quê tentar abrir isso agora? – Perguntou, menos ríspido do que gostaria, e deveria. – O combinado era abrirmos amanhã, em Dublin, longe daqui…

– Na verdade, o combinado era você dar um jeito no garoto antes de partirmos – o outro murmurou. Desistiu do cadeado que explorava e pegou a manopla postada em seu colo. Começou a vesti-la e, sem levantar os olhos para Rafael, disse – Não seria bom já começar?

Consternado pela ordem velada, o moreno se virou e foi de encontro ao corredor do apartamento, precisava se afastar daquele comportamento obsessivo. Cada som dos metais da luva se ajustando no antebraço, pulso e dedos do mentor lembravam-no da impressão que tinha às vezes de que ele próprio, como aquela manopla, servia apenas de instrumento para o amigo realizar suas excentricidades. Adentrou o corredor e não resistiu ao ouvir a pia do banheiro pingando, precisava lavar suas mãos novamente e tirar a sujeira acumulada de tudo que tocara nos últimos minutos. O banho foi inútil, não apenas a poeira do apartamento já assentara em sua pele, mas sua transpiração intensa também removera toda sensação de limpeza que apreciara há pouco embaixo do chuveiro. Molhou o rosto deixando a água escorrer até a gola polo e respirou fundo aliviado por refrescar o calor típico de verão. Naquele breve segundo que umedeceu sua pele, conseguiu se tranquilizar que, após fazer a sua parte, sairiam dali em breve, talvez em meia hora, afinal Hans não seria tolo o suficiente para perder novamente o voo. Seria?

Franziu a testa e saiu do banheiro sem continuar a fitar a expressão descrente que seu rosto desenhou. O combinado era que seguissem os dois cadáveres até seu destino para, então, roubá-los e voltar imediatamente a Irlanda. Nada de perder tempo e recursos levando vítimas a hospitais, nada de levar um deles ao antigo apartamento de Hans. Xeretar o item sem a presença dos outros do grupo? Não, nenhuma das possibilidades cotadas previu que se aventurariam em abrir a caixa, por conta própria, especialmente em um verdadeiro campo minado para humanos como eles. Porém, desde que conhecera o Dr. Hans Ackart, era mais usual quebrar as regras do que segui-las, portanto, no fundo, ele não ficou surpreso quando o amigo se recusou a partir sem ajudar os dois garotos.

Interrompeu suas passadas quando alcançou o cômodo ao final do pequeno corredor. O entardecer iluminava a poeira que pairava por todo o quarto, a janela aberta permitia que uma brisa leve refrescasse o ambiente, mas sem aliviar o forte olor de mofo que o guarda-roupa exalava. Sentiu o nariz reagir ao cheiro conforme se aproximava da cama localizada mais ao centro do quarto, contudo, ao observar o corpo prostrado sobre os lençóis, ignorou a própria alergia. Deitado de costas, Jonas exibia suor por todo o corpo, seu estado febril voltara ao mesmo de antes do rápido banho que lhe aconselharam a tomar. A blusa recém colocada estava encharcada e já ganhava um tom bege pelo líquido excessivo que exalava de suas axilas e peitoral, o travesseiro logo abaixo de sua cabeça estava em situação similar tamanha a quantidade de suor que escorria das têmporas e do couro cabeludo. Ao tocar seu queixo gelado, Rafael sentiu as salamandras que decoravam seu antebraço arderem como se repelissem o contato com o garoto. Ignorou as ferroadas das tatuagens e manteve o toque para girar o rosto de Jonas e, assim, analisar melhor a mordida de seu pescoço. A diferença era sutil, mas notou que os furos estavam mais inchados do que da última vez que os verificara, o pus amarelado que preenchia cada círculo disforme também aumentara proporcionalmente.

O normal seria não restar demarcação alguma dos dentes após umas seis, sete horas do ataque; após quase dezoito horas e considerando que pouco sangue foi sugado, como era o caso de Jonas, os efeitos seriam de uma leve fraqueza, desânimo e dor de cabeça. Seus sintomas eram atípicos, assim como foram os de Cássio antes de seu corpo sucumbir a caminho do hospital. Independente do quanto sua pele estava dilacerada, a febre do loiro deveria ter reduzido quando lançaram-lhe as palavras. Seria o empurrãozinho usual para que a ciência tomasse seu rumo, entretanto, tanto o feitiço quanto a medicina tradicional falharam ao curá-lo. Rafael não precisou da declaração do médico para saber que seu estado era irreversível, quando encostou na testa do garoto pela última vez ele soube que em breve morreria. Agora, horas depois, era provável que já estava morto.

Lembrou-se pesaroso do olhar que Jonas lhe deu quando disse que deveriam abandoná-lo na emergência, que seria melhor não arriscar que a loira fosse procurá-lo em Santos. Tsc, que mentira! Se ela fosse procurar alguém, seriam os dois que a furtaram e não as vítimas ocasionais que fizera no Porto. A verdade, é que não teve coragem de lhe dizer que precisavam de mais tempo para curá-lo caso a mulher fosse portadora da doença que assolava alguns sanguessugas. Não sabia se havia um nome para a enfermidade, mas sabia de sua consequência: uma infecção assolava a vítima e ela definhava. Podia demorar dias ou horas, todas tinham o mesmo fim após um período tortuoso de mudanças bruscas da temperatura corporal.

Rafael sentiu as salamandras inflamarem quando os dedos de Jonas apertaram seu pulso:

– Eu acho que… estou com mais de 40 graus. – o garoto balbuciou com dificuldade. Pela primeira vez sua expressão séria denunciava alguma desconfiança sobre o cansaço que o envolvia. Previamente, ao deitar na cama, alegou que precisava se recuperar um pouco da noite mal dormida e a dupla deixou-o acreditar nisso. Baqueado pelos acontecimentos, Jonas assumira uma postura silenciosa desde que saíram do hospital, Rafael se surpreendeu pela duração daquele estado de choque, normalmente as perguntas inconvenientes brotavam rapidamente após o contato com algo sobrenatural. Dessa vez, o modo como o garoto o encarou, lhe dizia que não conseguiria escapar das indagações:

– Essa mordida… Que merda tá acontecendo comigo?

Rafael molhou os lábios e observou os raios solares projetando fracamente os contornos da janela sobre a madeira. Respirou fundo:

– Eu vou tentar te ajudar agora, está bem? Você precisa relaxar e – Jonas o interrompeu, desferindo outra pergunta:
– Aquela mulher… O que ela fez… Ela não era uma mulher de verdade, era? Nunca pensei que isso pudesse ser real, mas é, não é? Ela era uma… – O garoto crispou os lábios inseguro, só deixou a palavra ganhar som quando Rafael o encarou – Vampira?

– Eu prefiro nomeá-los sanguessugas. Ou cadáveres – Sorriu, taciturno, por saber o quanto os irritava por chamá-los assim. Rapidamente a expressão se desmanchou, sabia que mais perguntas viriam:

– Se ela é uma vampira mesmo… e ela me mordeu, então isso significa que eu vou virar um também?

Rafael revirou os olhos e se inclinou para pegar a garrafa de água ao lado da cama. Respondeu secamente:

– Não.

– Então, eu vou morrer?

– Olha, Jonas… – Se calou. Sua impaciência queria que ele assustasse o garoto e lhe dissesse “Se você continuar a fazer perguntas idiotas ao invés de me deixar te curar, sim, você morrerá!”. Hans era o didático do grupo e sempre se deleitava em contar detalhes do mundo que conheciam para quem estivesse disposto a ouvir. Rafael, por sua vez, detestava dar satisfações do tipo. Estava prestes a desconversar quando sentiu o telefone vibrar no bolso da calça jeans. Reconhecendo o toque, entregou a água para o garoto e se levantou saindo apressado do quarto – Tenta beber tudo, eu já volto.

Percorreu rapidamente o corredor e chegou até a sala. Nada mudara, o alemão continuava na mesma posição analisando o tapume lacrado. Olhou de relance o amigo quando este passou ao seu lado para ficar a sua frente, no lado oposto da caixa:

– E agora, Hans? – O moreno exibiu a tela pulsante do celular, furioso – O que eu falo?

– Que perdemos o voo? Maur sabia que talvez nos atrasássemos, tudo dependia de como seria o confronto, Rafa! Relaxa! – Disse, tranquilo, e começou a afrouxar as peças de cobre que revestiam seus dedos. Tirou a luva completamente e esticou a mão desnuda – Pode falar o que aconteceu, ele não gostaria que deixás…

Parou de falar ao ouvir um sonoro estalo. O último cadeado que o loiro segurara, antes de começar a tirar a luva, caiu, rompido, em sua mão direita. Mostrou-o ao amigo, exatamente como este fazia com o telefone. Os lábios finos formaram um sorriso astuto:

– Funcionou.

Rafael franziu a testa em resposta, sua expressão ficou mais aflita quando os outros cadeados repentinamente caíram sobre a mesa, provocando estalidos irritantes. Silenciou o celular e levou a mão livre ao rosto, apertando uma das têmporas como se tentasse afastar Hans da caixa com a mente. A superfície do item que retirava do invólucro cintilava em tons cobres refletindo o brilho dos raios que ainda iluminavam a sala.

Era uma caixa, tão pequena quanto uma de sapato, sua madeira branca era límpida, perfeitamente polida, as bordas cuidadosamente arredondadas. Minuciosos escritos em cobre formavam arabescos sobre a tampa, Hans passou a mão sobre cada detalhe, os lábios murmurando ao ler os caracteres indecifráveis para Rafael. Ele também queria lê-los, mas não ousou se aproximar, aquele momento seria só de seu mentor. Anos de procura e finalmente a encontraram. Rafael sabia que nada agora o impediria de verificar se o objeto que tanto almejara rever estava ali, em suas mãos, envolvido por aquela camada de carvalho.

A face do homem não formava mais o sorriso maroto anterior, os olhos ainda faiscavam de curiosidade, mas sua idade madura ficava evidente naquela expressão calma. Não esboçava a febre juvenil por conseguir o que tanto procurava, seus traços demonstravam respeito pelo objeto que nunca deveria ter caído nas mãos daquele maldito mago. Rafael sabia, o amigo sentia agora o peso da responsabilidade por recuperar algo que não deveria ter dono.
O sangue peculiar ainda a influenciaria? Haveria água? O ferro mantivera-se intacto? A ferrugem teria aumentado e corroído mais de sua forma pontiaguda? A ansiedade de Rafael aumentava conforme Hans pressionava as juntas de cobre. A segurança do plano, de checar tudo isso em um lugar seguro, virara uma lembrança insignificante quando pensava que em segundos descobririam o quanto os testes da Ain Soph corromperam o objeto.

Os dedos ainda tocavam na tampa entreaberta quando seus olhos avelã arregalaram e ele murmurou:

– Filho da p…

Rafael viu os dedos do amigo afrouxando com o intuito de soltar a caixa, talvez para pegar a manopla, mas não fora rápido o suficiente. Uma negritude densa como petróleo, mas completamente ausente de brilho, expandiu-se do interior do invólucro e envolveu-o rapidamente. Braços, tronco e pernas de seu corpo robusto foram engolfados em segundos. Rafael nem sequer descruzara os braços quando, não apenas o amigo, mas também a caixa desaparecera em sua frente.

Confuso e paralisado pelo susto, percorreu a sala com os olhos. Sabia que conseguiram roubar fácil demais aquela encomenda no porto de Santos. Observou o invólucro vazio postado sobre a mesa reparando que forçava a vista e recusou-se a olhar para a janela. A escuridão envolvia o cômodo, eram os últimos raios do entardecer. Ele sentiu um calafrio ao pensar onde Hans estaria agora.

“Sete e quarenta e cinco… não, talvez sete e quarenta e sete…”

Hans levou as mãos a cabeça, completamente zonzo. Números aleatórios gritavam em sua mente atrapalhando-o a distinguir quais deles poderia confiar. Qual lhe informava a hora exata. Demorou até perceber que estava ajoelhado, suas pernas não tinham força para ficar em pé e seu estômago revirava. Agradeceu por não ter almoçado direito e passou a tatear no escuro, seus dedos arranhando o chão irregular.

Aspirou fundo, um cheiro de rosas ficava mais evidente no ambiente, mas ele não sabia se seu olfato voltava ao normal só agora ou se a essência fora trazida pelo vento frio que arejava o recinto escuro. Não havia nenhuma janela pelo visto, mas a corrente de ar vinha de algum lugar. Tentou levantar, mas seu corpo fora rapidamente jogado no chão. O baque que atingiu seu peitoral pressionou suas costelas com tanta força que uma dormência repentina dominou seu diafragma e ele não conseguia mais respirar. Tossiu, desesperado por ar, e só quando sentiu a sensibilidade voltar a caixa torácica, percebeu os sons da criatura que o derrubara.

As passadas vagarosas e constantes arranhavam o chão áspero, a respiração era pesada e acompanhada de vibrações guturais. Deitado, o alemão virou o rosto de um lado para o outro, fitando as nuances das sombras. Conseguiu identificar que um enorme vulto quadrúpede caminhava ao seu redor. Cauteloso, tentou se erguer novamente até que parou, ainda sentado no chão, quando o animal interrompeu o cerco e rangeu os dentes. O ambiente inteiro pareceu reagir a sua tentativa, pois tudo subitamente lhe pareceu muito mais escuro, o ar mais rarefeito. Sabia o que isso significava, sabia aonde estava. Temeu o cheiro dos cortes recém abertos misturando-se a fragrância sufocante das rosas:

– Ora, veja só, Bosco, um mago! – disse uma voz lasciva a suas costas. A criatura não estava tão perto quanto a de forma animalesca, mas era como se seu hálito feminino acariciasse sua orelha. – Cuidado ao repreendê-lo, não seja muito duro, há muito tempo que não me alimento de um coração desse tipo. Não quero comê-lo arruinado pelos seus dentes.

>> continue a leitura em CAPÍTULO II – PENITÊNCIA