[Eisenstadt – Áustria]

As três figuras embrenhavam-se sorrateiramente na mata que dava acesso às estufas da fortificação. Estavam em uma parte praticamente esquecida da Áustria, nas terras de um dos mais poderosos magos da contemporaneidade, e planejavam roubar algumas ervas alucinógenas que ele e seus subordinados cultivavam para… bem, acreditem ou não, havia lá a sua parcela de nobreza nas suas intenções.

– Ai, meu pé! – esbravejou o primeiro, que carregava uma lanterna, virando-se e disparando o facho de luz diretamente no rosto do adolescente imediatamente atrás de si. Logo os olhos extremamente azuis de Dorian apertaram-se e ele levou a mão à altura do rosto em uma vã tentativa de se proteger da luminosidade hostil. – Olha por onde anda, caramba!

– Desculpa, Remmy… – sibilou o garoto entre dentes, quando o primeiro abaixou a lanterna novamente para o chão. Levou uma das mãos aos cabelos castanhos, jogando-os para trás em um gesto pomposo e olhando ao redor. As sobrancelhas arqueadas denunciavam todo o desprezo que sentia por aquela situação. Torcendo os lábios de maneira esnobe, voltou a palma da mão para cima, na altura do rosto, e desdenhou: – Por que diabos estamos invadindo as estufas do seu pai, hein? Pedir não seria suficiente? Aliás, se você quer chapar, não é mais fácil arrumar um bagulho bom, ao invés dessa porcaria de Artemísia?

Remmy revirou os olhos e não respondeu, continuando a andar lentamente, pé ante pé, na direção do coração da mata. A réplica viera da terceira figura, a mais baixa e taciturna de todas. O garoto pousou a mão no ombro de Dorian e falou pausadamente, como um adulto explicando algo demasiadamente óbvio para uma criança com necessidades especiais: – Não funciona desse jeito e você sabe disso, Dorian. Para ele conseguir fazer mágica…

– É, eu sei, eu sei… – bufou o primeiro, desvencilhando-se e batendo com a palma da mão no local onde ele havia lhe tocado, como que para limpar a sujeira ali acumulada. O terceiro apenas sorriu, exibindo uma fileira de dentes perfeitamente alinhados, à exceção dos caninos superiores e inferiores – estes eram levemente maiores do que os demais. – Mas não precisa me tocar para falar, você sabe que eu não gosto disso, ‘cãozinho’.

Foi a vez do moreno balançar a cabeça negativamente, como Remmy fizera antes, e deixar Dorian para trás. Logo Hector já estava nos calcanhares de seu companheiro, aproveitando-se da luminosidade da lanterna para caminhar. Não que precisasse, pois conseguia enxergar muito bem no escuro graças à sua “condição especial”.

– Eu não sei como você o aguenta. – bufou Hector, enfiando as mãos nos bolsos à procura de um gorro de lã e acomodando-o na cabeça de maneira a cobrir até a ponta das orelhas. – A gente arranja um guitarrista mais humilde em dois tempos, Remmy. Ele se acha o dono do mundo!

– Relaxa, Hec. Logo ele baixa a bola. – foi o que o outro respondeu, parando em uma bifurcação e erguendo a lanterna acima da cabeça loira, fazendo o facho de luz incidir sobre uma área maior da mata. Dorian, que novamente acompanhara os dois, fez um muxoxo desdenhoso e disparou:

– Perdido, Remígio? Quer a minha bússola? – E, de fato, estendeu uma bússola para o menino.

– Velho, você é muito estranho! – foi o que o loiro respondeu, olhando para Dorian com certa incredulidade. Que tipo de adolescente andaria com uma bússola dentro do bolso, nos dias de hoje? Dorian andaria, é claro. – Muito, muito estranho! Hector, para de rir e me ajuda aqui. Você conhece o cheiro de Artemísia, não é?

– Claro que sim. E eu já senti o aroma desde que chegamos no castelo. É para lá. – respondeu o moreno, apontando para o caminho da esquerda0. Dorian, consultando a bússola, murmurou algo como “é claro, eu sabia que seria nessa direção” antes de segui-los, quase sendo deixado novamente para trás.

– É logo ali. – Murmurou o primeiro, prendendo a lanterna entre os dentes para tatear os bolsos à procura do molho de chaves afanado dos aposentos de seu pai. A cacofonia gerada pelos objetos sendo revolvidos pelos dedos do adolescente evidenciou que teria sorte se achasse as chaves rapidamente. Seu maxilar já começava a incomodar, quando ouviu o característico som de várias plaquinhas de metal colidindo entre si. – Ah!

Remmy completaria 18 anos muito em breve e era filho do influente mago Siegfried Von Vogelrauch, e embora aparentasse ser o entojo em forma de gente, era extremamente carismático e possuía um dom inato para manipular as pessoas ao seu redor de maneira tão sutil e refinada que, quando estes percebiam, já era tarde demais. Fumava como uma chaminé e frequentemente era visto munido de um cantil de prata contendo algum tipo de beberagem. O que começou com uma necessidade –o garoto canalizava energia apenas em estado alterado de consciência-, logo tornou-se um vício, e se não fosse pelo “tio” Ashtaroth e seu milagroso sangue regenerador, talvez ele estivesse em maus bocados àquela altura. Remmy tinha longos cabelos loiros e lisos, frequentemente amarrados em um rabo de cavalo que chegava ao meio das costas. Os olhos eram de um verde-musgo profundo, sempre brilhantes em conjunto com o sorriso que quase nunca se apagava.

– Está procurando isto aqui? – perguntou Dorian, abaixando-se e pegando as chaves que tinham caído no chão desde o primeiro momento que Remmy enfiara a mão nos bolsos. Ao voltar à tona, Dorian tinha um enorme sorriso sarcástico nos lábios e, depois de umedecê-los com a ponta da língua, disparou: – Tem certeza que você precisa desse negócio para ficar doidão? Já parece bem aéreo para mim.

Dorian sim era impossível! Amigo de infância, cunhado de Remmy e filho de um importantíssimo embaixador britânico, o garoto era a epítome da pompa e do esnobismo. Talvez, não fosse por Mariabelle (sua irmã e namorada de Remmy), o filho de Siegfried não o aturasse, mas o custo/benefício compensava. Dorian era uma criatura extremamente confusa e contraditória: aparentava ser a imagem da moral e dos bons costumes, mas mantinha uma relação quase-incestuosa com Justine, sua irmã de criação, filha do segundo marido de sua mãe. Sempre impecavelmente vestido, o garoto parecia ter um bolso sem fundo, de onde conseguia tirar toda uma sorte de objetos e encadear diversas situações inusitadas em decorrência disto.

O molho de chaves logo fora arrebatado com impaciência da mão de Dorian. Hector, segurando a única chave que caberia naquela fechadura rústica e enferrujada, lançou um olhar de reprovação para o companheiro de banda antes de destrancar a porta. Espalmou a mão sobre o pranchão transparente, empurrando-o sem empregar muita força, apenas o suficiente para que a porta se abrisse. O miasma de aromas das mais variadas plantas os atingiu com violência, fazendo Dorian tapar o nariz com o cachecol, e Remmy abrir um sorriso estranho e afetado.

– Você é o cara, Hec.

Hector, o mais jovem do grupo, era português e descendia da mais antiga e nobre linhagem de Peeiras que se tem notícia. Sua mãe possuía certa ligação com Siegfried, e foi por isso que Hector se tornou o melhor amigo de Remmy. Dos três, é de longe o mais pacífico e discreto, preferindo se manifestar apenas quando é requisitado, o que não condiz muito com a sua posição social, uma vez que a família de Hector, entre as Peeiras e os lupinos, é tida como a mais alta e nobre de todas; o equivalente a uma família real, caso esta espécie se organizasse monarquicamente.

– Só vamos pegar a Artemísia e vazar! – murmurou o lobisomem, entrando primeiro na estufa escura. Remmy entrou em seguida, empunhando novamente a lanterna acesa, jogando luz sobre as mais variadas espécies de plantas que eram cultivadas ali. Dorian tomou o cuidado de deixar a porta atrás de si aberta, na esperança de que aquele cheiro esvaísse e não impregnasse na sua roupa. Para sua infelicidade, aquilo era irremediável.

– Será que tem ayahuasca aqui? – Perguntou com um risinho zombeteiro.

– Ayahuasca é só na America do Sul, imbecil. – fora a resposta que recebeu de um Remmy impaciente, fissurado, que procurava loucamente a prateleira onde Lewis, o responsável pelas estufas, colocava as Artemísias. – Elas deveriam estar aqui! – esbravejou o jovem, impaciente.

– O Lewis as mudou de lugar por causa da fase da lua, querido. – a voz feminina sobressaltou os três, fazendo com que eles se virassem assustados para a porta escancarada e vissem, mal e mal, a silhueta de uma mulher alta escorada no marco de madeira, de braços cruzados. Remmy reconheceu aquela pessoa imediatamente e logo abriu um sorrisinho. – Se você queria vir até aqui, era só me pedir, Remmy! Seu pai me mandou vir atrás de você e pegar a chave de volta.

– Ah, Alícia! – protestou ele, erguendo o facho de luz para iluminar o rosto negro da maga. – Me diz onde estão as plantas primeiro! Você sabe que sem elas eu não consigo canalizar energia! Inclusive, ainda não consegui fazer a última atividade que você requisitou por que o meu estoque de ervas está zerado desde…

– …ontem?

– Semana passada! – disparou – Não seja injusta!

– Não estou sendo, meu anjo, mas você sabe que eu não posso desobedecer as ordens do seu pai, não sabe? Se eu o fizer, ele me expulsa. – a mulher adentrou a estufa, fechando a porta atrás de si, e caminhou até os três garotos. Ela, juntamente com Teresa, era a tutora de Remmy e vez ou outra ensinava também os outros dois a executar determinados tipos de encantamentos. Porém, naquela noite, Alícia não estava ali como professora, mas como o carrasco que daria o golpe final nas esperanças do adolescente. – Me entregue a chave, Remmy. – disse com autoridade, estendendo a mão para o loiro, que a contragosto depositou o molho de metal em sua palma aberta. – Muito bem. Agora, se você quer realmente ajuda para conseguir fazer magia, vá até o burg e fale com Siegfried. Todavia, sugiro que sigam pelo norte, vocês vieram por um caminho extremamente perigoso, sabiam? O Lewis pôs veneno naquelas plantas umas duas noites atrás.

Alícia conduziu os três garotos para fora da estufa, trancando a porta em seguida. Colando a palma da mão na fechadura, a maga murmurou algumas palavras em tom baixo, e embora nada visível tivesse acontecido, o resultado daquele gesto era óbvio para o trio. Por fim, olhou por cima do ombro e, após uma piscadela maliciosa e um sorriso do mesmo teor, adentrou a superfície vítrea como se fosse feita de água, deixando-os a sós. Todos ali sabiam que aquela era a especialidade de Alícia: portais de espelhos.

– Mas que merda, tanto esforço para nada! – esbravejou Dorian, chutando uma pedra com impaciência. Remmy, por outro lado, sorria. Sorria por que sabia o que Alícia tinha feito, e não demorou muito para que os outros dois também se dessem conta de que lá, viradas para o norte, na parte exterior da estufa, estava o que eles tinham ido buscar.

– Eu amo essa mulher…