Esse conto envolve dois personagens importantes do universo criado para o Manuscritos, mas você não precisa ler nenhum post anterior para entendê-lo. Se os personagens lhe interessarem, procure nos marcadores (tags) quais outros posts eles aparecem!

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“Dizem que quando se faz uma reunião em pé, ela é mais rápida que o normal. As pessoas ficam tão desconfortáveis que evitam a embromação e vão direto ao ponto. Queria saber por que isso não se aplica a esses malditos magos…”

O ruivo esboçou a mais tediosa expressão que sua face conseguia, suspirou aborrecido com a discussão que já acontecia há algum tempo. Provavelmente os principais membros de Dublin estavam presentes, espalhados pelos bancos do lugar atentos às indagações dos irlandeses à frente da primeira fileira. Curiosamente, todos eles estavam em pé, exceto Cathir. Observava irritado a discussão dos mais velhos ao seu redor. Franziu a testa quando escutou uma das senhoras acusando-o se não ter bom senso.

“Sem dúvida eu não tenho bom senso por aceitar participar de uma organização tão chata quanto à da Ordem Bretã” pensou, amargo, soltando um suspiro indiferente. O som de passos ecoou no pequeno salão e todos se voltaram para trás. As batidas do coturno da mulher silenciaram os presentes como um martelo de juiz. Sua voz rouca desejava boa noite a cada fileira de bancos, entretanto poucos murmuravam de volta, apenas os líderes da discussão lhe responderam dignamente. Cathir ignorou os que conversavam com a jovem e voltou sua atenção para os rostos assustados dos demais participantes da reunião.

Era sempre divertido reparar o desconforto dos membros perante aquela estranha criatura alva. Seus fios de cabelo, tão brancos quanto sua pele, refletiam o sol em um tom arroxeado e seus olhos, bem… quando ela se afastou do casal idoso e colocou os óculos escuros sobre o topo da cabeça, ouviu-se alguns murmúrios. Os pequenos olhos cor de púrpura completavam suas características espectrais e provavelmente foram os reais responsáveis pelo seu apelido quando chegou a Ordem: Fais.

A um humano comum essa aparência passava despercebida, afinal, poderia ser uma tinta de cabelo original, sua pele teria algum tipo de albinismo, o brilho nos olhos seriam lentes, o arrepio pelo corpo seria causado pela assustadora beleza. Contudo, para os magos que a acolheram, cada pedaço de seu corpo lembrava-lhes o seu passado sombrio e nem sempre eles faziam questão de disfarçar o seu temor. Notou que ela o cumprimentava, e ele respondeu ao sorriso com um discreto arquear de sobrancelhas. Enquanto ela se sentava ao seu lado, um dos magos explicou à Ordem que Fais viera relatar o que aconteceu:

– Muito bem, Fais, conte os detalhes que me falou semana passada – pediu o mais velho

– Certo. Como ordenado – inclinou uma das mãos em direção ao inquiridor – Cathir me ligou avisando que iria a Alemanha para verificar uma pista de uma das relíquias bretãs. O Senhor Seymaur conseguira uma passagem para eu acompanhar Cathir na viagem…

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– Você realmente achava que eu não viria, não é? – a figura pálida andava sorridente pelas árvores secas; o homem por sua vez a ignorava com uma expressão irritada, caminhando a passos largos, tentando despistá-la entre os troncos – Sabe, o Maur não gostou nada de saber que você não me falou sobre a viagem, a voz dele ficou em um tom – engrossou a voz – assustador.

O ruivo resmungou algo entre o som de galhos se quebrando. Seguia em frente, determinado a ignorá-la, e só cessou os passos quando chegou a uma extensa clareira, composta por diversas casas de arquitetura peculiar. Ele colocou a mão sobre a testa, tampando a luz do sol e observando as construções uma a uma.

– É a menor, certo? – indagou a mulher ao seu lado; hesitante, leu o letreiro da pequena estrutura. – Schwarz .. wald?

– Seu alemão é ótimo, hein?! – olhou-a de relance, petulante – não sei para quê o Maur te enviou. – implicou antes de voltar a caminhar.

– Maur não iria desacatar uma recomendação da Ordem, ao contrário de você – acusou apressando os passos e ficando ao lado dele – Não preciso lembrar o que eles decidiram na sua última cagada, né? – apertou sua mão, puxando-o de leve, ele parou virando o rosto impaciente:

– Que foi?

– Qual o plano? – ela o fitava por cima dos óculos e, percebendo o olhar de surpresa, virou o rosto para cima, inquiridora – Você tem um plano, certo?

Cathir apertou os lábios e ignorou o rosto divertido da mulher. Observou algumas pessoas saindo da loja e colocou as mãos no bolso da calça jeans:

– Vamos entrar, procurar o objeto e comprá-lo caso seja o auroque – respondeu quase em um resmungo, ainda olhando o comércio.

– E se não for o auroque? E se estiver corrompido? E se.. – ele se afastou, balançando a cabeça em negação – Cathir!

– Provavelmente não é um verdadeiro auroque, tsc. Sabe há quantos anos eu procuro essa porcaria? – resmungou; ele diminuiu os passos ao se aproximar da escada e esperou Fais alcançá-lo nos primeiros degraus. Encarou-a sério murmurando – Se for, nós vemos o que fazer na hora.

– Certo …- a mulher deu de ombros, satisfeita por ele simplesmente aceitar sua presença.

Continuou acompanhando-o, atenta aos detalhes do lugar. Havia uma gritaria em línguas variadas na frente da loja, grupos de turistas tiravam foto da floresta próxima, ou dos objetos que compraram. O casal desviou das pessoas paradas ou correndo na sacada, ela com um sorriso maroto na face pálida, ele com as sobrancelhas arqueadas, sem disfarçar a irritação pela muvuca. Sua expressão não melhorou quando entrou no antiquário. Levou a mão ao nariz, contendo um espirro, e manteve uma careta perante o estranho odor de umidade no ambiente.

Havia apenas dois atendentes na loja, eles conversavam atrás de um balcão e pareceram não se importar com os novos clientes. Fais os observou por um tempo antes de continuar a acompanhar o mago que já se inclinava curioso sobre os objetos, jogados de qualquer maneira sobre os móveis:

– Não é estranho um lugar assim atrair tanta gente? – sussurrou, passando os dedos sobre uma caixa empoeirada. A sujeira no ar fez o mago espirrar:

– Que tanta gente? Não tem ninguém a.. – espirrou de novo, e resmungou um palavrão.

– Ahm, lembra das pessoas lá fora? – perguntou ajeitando os óculos sobre o nariz esperando alguma resposta de Cathir, a qual não veio.

O ruivo caminhava entre os móveis apertando os olhos totalmente absorto nos detalhes dos artefatos. Fais sorriu complacente e voltou a observar a bagunça do lugar. Havia castiçais, adagas, pedaços de flecha, caixas e variadas estatuetas. Porém, nada disso despertou sua atenção como os objetos de uma estante robusta. Ela se agachou, aproximando-se da penúltima prateleira, colocou o rosto bem próximo ao objeto curvilíneo encastoado em prata. Levantou os óculos, o olhar curioso pronto para analisar aquele chifre peculiar. Cathir interrompeu sua observação:

– Agora precisamos de um plano – murmurou sorridente ao seu lado, agachou-se – Aliás, auroques não se corrompem, a estrutura deles – coçou as pálpebras avermelhadas de alergia – não aguenta.

– Oh… – ela ficou de pé, voltando os óculos ao nariz; sua expressão marota se desmanchara, observava séria o objeto – Isso não está me cheirando bem…

– Nada aqui cheira. – afirmou, levantando o artefato com um lenço que retirou do bolso; os escritos nórdicos brilhavam mesmo com a fraca iluminação da loja.

– Não, Cathir, veja, não está a venda – o dedo longo apontou a tradução inglesa da placa ao lado da estante – Não é estranho, um antiquário tão “baixo nível” ter uma área só para exposição?

– É comum… – os grandes olhos verdes memorizavam cada particularidade do chifre de autorque – Fazem isso para extrapolar o preço. – colocou o objeto no lugar e voltou com o lenço ao bolso, – É comum – reafirmou, categórico, ao olhar de relance o rosto sério da acompanhante.

Hesitante, ela o seguiu a distância, parou e cruzou os braços quando Cathir chegou ao balcão. O ruivo perguntou gaguejando quanto era o chifre:

– Seu alemão é ótimo, hein?! – a maga murmurou estampando um sorriso maroto.

Os rapazes, recém saídos da adolescência, fitaram demoradamente os dois e se entreolharam. O mais gordinho apoiou-se no balcão empoeirado:

– Você é britânico, sim? – perguntou em inglês – Ver o que está escrito ali do lado? Não está a venda.

– Quanto você quer para que esteja a venda? – o ruivo colocou uma nota de 50 euros sobre a superfície de madeira, provocando um risinho de Fais.

Ele a reprovou com o olhar, mas não por muito tempo. O outro alemão lhe chamou a atenção repetindo em sua língua nativa, o que o mais moreno dissera anteriormente. Cathir tamborilou os dedos no balcão, tentando ser simpático:

– Aquele artefato pertenceu a minha família há muitos anos; um tio falido o perdeu em um jogo. Vamos lá, é só um chifre brilhante para vocês, – fingiu um sorriso, mas seus olhos verdes intimidavam ferozmente os dois – já para minha família significa muito.

– Qualquer um entra aqui com essa conversa – o que falava em inglês empurrou a cédula de volta para Cathir – Não está a venda.

O mago assumiu uma postura ereta, aparentando ser bem mais alto do que já era.

– Ah, é? – sorriu, formando leves rugas no rosto magro. Misterioso, encarou o lugar de quina a quina e retornou a delinear a face dos mais jovens. Girou o corpo, passando por Fais e apanhando o chifre na estante. Ignorando o protesto dos garotos, virou-se, erguendo o artefato e expondo-o a iluminação da pequena janela próxima. O brilho dos traços desgastados fez os dois se calarem e cobrirem os olhos; Fais inclinou a cabeça, deixando a franja cair sobre os óculos. Apenas Cathir encarava os detalhes ofuscantes:

– Sabem o que está escrito aqui? – sorriu, a expressão arrogante delineando sua face – Vocês sabem o que pode acontecer se eu ler isso aqui, não sabem? – sussurrou, sem tirar os olhos verdes do metal, esperando alguma resposta dos rapazes.

Continua em: O Sopro do Auroque pt II